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O enigma Vivian Maier – Parte I

Dorrit Harazim Publicado em: 05 de novembro de 2013
Novo livro só de autorretratos joga luz sobre a trajetória excêntrica e misteriosa da babá fotógrafa que deixou um dos mais surpreendentes retratos das ruas de Chicago e Nova York

 

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É difícil saber o que leva alguém a optar por atravessar a vida sem deixar pista sobre quem realmente foi. No caso da americana Vivian Maier (1926-2009), que permaneceu trancada dentro de si mesma para poder percorrer uma trajetória das mais excêntricas, talvez não tenha sido opção, e sim a única forma de saber existir. Ela jamais imaginou que, depois de morrer como quis – anônima, desconhecida, indevassada –, fosse causar tanto desalento a seus biógrafos e provocar tamanha curiosidade nos admiradores de sua surpreendente obra fotográfica.

Acaba de ser lançada nos Estados Unidos a terceira tentativa editorial de tirar a artista da sombra sob a qual ela se escondeu. “Vivian Maier: Self-Portraits”, coeditado por John Maloof e Elizabeth Avedon, vai ajudar a mostrar um pouco mais do fugidio personagem, através de 60 autorretratos inéditos – é neles que a fotógrafa deixa transparecer um pouco mais sua personalidade fracionada.

Ninguém melhor do que John Maloof, aliás, para tentar explicar o enigma Vivian Maier, coisa à qual ele se dedica de forma obsessiva há quase sete anos. Compreende-se. Aos 27 anos, Maloof presidia a Associação de Preservação Histórica do setor NorthWest de Chicago e garimpava material iconográfico para a elaboração de um livro. Certo dia de 2007, na casa de leilões RPN, teve a atenção chamada para alguns negativos esparsos num caixote. Mostravam cenas urbanas dos anos 1960. Deu um lance de U$ 400 pelo lote todo (30 mil negativos, 1600 rolos de filmes não revelados), sem ideia do conteúdo geral.

Como as imagens compradas revelaram nada ter a ver com a parte de Chicago que interessava ao historiador, permaneceram na caixa na caixa por mais meio ano, intocadas.

Maloof ainda não se tornara fotógrafo à época em que resolveu examinar o que tinha comprado. Mesmo assim, ficou fascinado com a originalidade daqueles retratos de sua cidade, de suas gentes, de suas vidas. Quis saber tudo sobre a autora daquelas imagens, de quem tinha apenas o nome.

A primeira surpresa foi descobrir que Vivian Maier simplesmente não existia. Pelo menos para os tempos modernos: nenhuma referência no Google, nenhuma presença em qualquer rede social. Desde que o dramaturgo John Guare transformara a interconectividade global de “Seis Graus de Separação” em estrondoso sucesso de palco em 1990, a internet havia reduzido a pó essa distância havia muito tempo, e era estranho, em 2008, que não houvesse a mais remota pista sobre uma fotógrafa de um centro urbano desenvolvido como Chicago.

O primeiro rasto foi a nota fúnebre publicada no Chicago Tribune de 23 de abril de 2009, que dizia muito por não dizer nada: “Vivian Maier, francesa de origem e moradora de Chicago nos últimos 50 anos, faleceu em paz na segunda-feira. Foi uma segunda mãe para John, Lane e Matthew. Sua mente aberta tocou a todos que a conheceram. Sempre pronta a dar sua opinião, um conselho, uma ajuda.”

Através dela, Maloof descobriu que John, Lane e Matthew eram irmãos e filhos de uma família onde Vivian Maier havia trabalhado por 17 anos – os Gensburg. A profissão que Vivian Dorothea Maier exercera a vida toda foi a de babá. Em Nova York, em Los Angeles e sobretudo em Chicago, por 40 anos.

Mas foi a fotografia a sua razão de ser e de viver. Fotografou compulsivamente, apenas para si mesma. Jamais mostrou o trabalho para ninguém, e somente as crianças de quem cuidava a viam tirar fotos. Não se sabe como aprendeu a fotografar. Revelava os milhares de rolos de filmes no banheiro, transformado em câmara escura.

Até hoje, o que se sabe sobre ela cabe em uma página: nascida em Nova York de pai austríaco e mãe francesa, ambos operários, que logo se separaram, ela passou a infância e juventude numa cidade do vale dos Alpes com a família materna. Ao retornar a Nova York, em 1951 – descontado um curto período como costureira numa infame sweatshop – começou a trabalhar como babá. No outono de sua vida, alguns dos adultos de quem cuidara na infância se tornaram seus cuidadores à distância.

Ao se aposentar e ser transferida para uma casa de repouso, estocou seus pertences em vários guarda-móveis. Com o passar dos anos, porém, parou de pagar o aluguel dos espaços e deixou de responder às várias notificações recebidas. Foi assim que boa parte do material fotográfico, junto com câmeras velhas, chapéus, capotes e sapatos usados, além de um bric-a-brac impenetrável, foi parar nas mãos do leiloeiro RPN, que o dividiu em lotes. Ao arrematar o primeiro deles no escuro, o jovem historiador de Chicago não tinha ideia da reviravolta que estava dando na própria vida.

De início, Maloof ficou desorientado com o volume de imagens. Cinco meses após ler o curto obituário de Vivian Maier no jornal, abriu um grupo de discussão no Flickr. Deu o título de “O que devo fazer com essa tralha toda?”, e descreveu o que tinha comprado no leilão. Também comunicava estar iniciando um site com algumas imagens da fotógrafa e perguntava: “Esse tipo de material tem qualidade suficiente para uma mostra? Ou um livro? É comum esse tipo de obra surgir assim, do nada? Qualquer dica será apreciada”. Recebeu mais de 700 respostas com sugestões, pistas, indicações.

Recebeu, sobretudo, apreciações emocionadas sobre a qualidade das imagens postadas. A partir daí, começou a ser tragado pela curiosidade e obsessão em descobrir tudo sobre Vivian Maier. Trocou sua atividade de historiador pelo estudo da fotografia, transformou o sótão da casa em câmara escura para aprender a revelar e ampliar filmes e tomou para si a missão de reconstruir a obra deixada pela babá. Na verdade, como admitiria mais tarde, estava irremediavelmente obcecado por aquela história.

Passado um ano, a coleção Maier de Maloof já ultrapassou os 100 mil negativos, além dos mais de 3 mil prints, centenas de rolos não revelados, filmes de 8mm e fitas gravadas pela fotógrafa – resultado da compra de outros lotes do leilão. Apenas Jeffrey Goldstein, também colecionador, conseguira acumular outro naco respeitável da obra – 16 mil negativos, 1500 slides e mais de 30 curtas de 8mm.

A arqueologia por traços de Maier levou Maloof a procurar todas as famílias onde ela trabalhara como babá, e foi graças a uma delas que obteve acesso aos pertences pessoais da fotógrafa, amontoados em outro depósito de Chicago e prestes a serem jogados no lixo. Entre mais chapéus e sapatos velhos, mais rolos de filmes, milhares de dólares em cheques do governo não descontados, jornais, revistas e papeis, havia cartas. Estas, por sua vez, abriram novas pistas para preencher as lacunas mais básicas da biografia dessa mulher sem marido nem filhos, nenhuma amizade e círculo restrito de conhecidos. Mas que estabelecia contato fácil com desconhecidos quando os abordava com sua Rolleiflex pendurada no colo. E os desnudava num espaço de 1/60 de segundo.

Vivian Maier traía a origem europeia na maneira de ser e falava francês com sotaque americano. Nos dois continentes estava sempre fora de sintonia.

No fundo, é ela mesma quem nos dá as coordenadas mais claras e fascinantes a seu respeito, através dos inúmeros autorretratos que deixou. Dos que se conhecem até agora, ela emerge com frequência como sombra maior dela mesma. De forma insistente, também se retratou várias vezes em dupla personalidade espelhada ou fracionada, sempre com a Rolleiflex no peito. Jamais se fotografou rindo – no máximo, com um olhar levemente traquino. Com frequência maior, ela se retrata num cara-a-cara direto, franco, sério, profundo.

Um texto ficcional em primeira pessoa, criado para ilustrar um curta de 12 minutos em sua homenagem, não soa tão destoante de uma realidade que talvez não se conhecerá jamais: “Quem sou eu?”, indaga a Vivian Maier ficcional no filme. “Costumava tirar fotos minhas, autorretratos, porque queria saber se conseguiria ver quem eu era. Pensei que pudesse ter uma ideia da mulher por trás da câmera. Mas quanto mais eu olhava para esses autorretratos, mais eles pareciam me encarar de volta. Depois de algum tempo, pensei: agora somos duas a nos fazer a mesma pergunta”.///

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

 

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Imagens do livro Vivian Maier: Self-Portraits, fotografias de Vivian Maier, editado por John Maloof (powerHouse Books).

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