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A cor de Gordon Parks – Parte I

Dorrit Harazim Publicado em: 22 de setembro de 2014
O homem que emerge, 1952 ©Gordon Parks Foundation

O homem que emerge, Harlem, Nova York, 1952 ©Gordon Parks Foundation

Impossível fugir do olhar do homem da foto. Dois anos atrás quem passasse pela esquina da rua 43 com Avenida das Américas, no centrão de Manhattan, daria de cara com a perturbadora imagem de um homem negro emergindo de um bueiro. A foto media 6 m de largura por 3,9 metros de altura. Ficou exposta durante oito meses na fachada externa do International Center of Photography justamente para obrigar o passante a fazer uma imersão no significado daquela figura. A obra intitulada O homem que emerge, Harlem era parte da mostra das comemorações do centenário de nascimento do fotógrafo americano Gordon Parks, que se estendem até hoje mundo afora.

A foto fora concebida para ilustrar um ensaio do premiado escritor negro Ralph Ellison, autor do romance O Homem Invisível, que trata da busca de identidade e do lugar na sociedade de um narrador não identificado – um homem negro da Nova York dos anos 1930 que se sente invisível porque o mundo à sua volta se recusa a vê-lo.

Difícil imaginar olhar mais aguçado do que o de Gordon Parks para criar uma metáfora visual para o estudo de Ellison sobre a condição do negro americano nos anos 1950. Como já definiu o crítico literário e acadêmico Henry Louis Gates Jr, diretor do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Harvard, “Gordon Parks é o fotógrafo negro mais importante da história do fotojornalismo, ponto”.

Junto com Gótico Americano, do qual se falará mais adiante, O homem que emerge compõe o dueto de obras mais icônicas do fotógrafo e hoje integra o acervo do High Museum of Art de Atlanta. É esse mesmo museu que abre no próximo mês de novembro um trabalho menos conhecido de Gordon Parks, fotografado mais de meio século atrás e considerado parcialmente perdido até o centenário do nascimento do autor, em 2012, quando o mundo das artes se mexeu para expor tudo o que havia de sua autoria.

Essa série de fotografias a cor, intitulada História de Segregação [Segregation Story], documenta o dia a dia de uma família negra do Alabama dos anos 1950. Nada mais oportuno diante da recente erupção de rancor racial ocorrido em Ferguson, no estado do Missouri, onde o garoto negro Michael Brown, de 18 anos, desarmado, foi morto com 6 tiros por um policial branco em plena luz do dia. O episódio fez emergir a rotina de perseguição policial da população negra na segregada e balcanizada St. Louis, da qual Ferguson é um município vizinho, e de um viver da maioria dos cidadãos negros sob constante nuvem de desconfiança por parte das autoridades brancas.

Caso Gordon Parks fosse vivo (morreu em 2006, aos 93 anos) e tivesse por tarefa fotografar a Ferguson inconformada com o desperdício de vida de mais um jovem negro, cabe supor que ele descartaria os midiáticos choques entre a polícia militarizada e os moradores. As 40 fotografias que compõem a mostra História de Segregação, captadas durante o período de profundos embates raciais que precederam a Lei dos Direitos Civis dos anos 1960, focam em uma única família, os Thornton, moradores de Mobile, no Alabama.

At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956

Em bebedouros segregados, Mobile, Alabama, 1956, da série História de Segregação ©Gordon Parks Foundation

Loja de departamento, 1956 ©Gordon Parks Foundation

Loja de departamento, Mobile, Alabama, 1956, da série História de Segregação ©Gordon Parks Foundation

De fora olhando pra dentro, 1956 ©Gordon Parks Foundation

De fora olhando para dentro, Mobile, Alabama, 1956, da série História de Segregação ©Gordon Parks Foundation

A iniquidade social (não apenas racial) sempre serviu de motor para Gordon Parks tocar a vida e contaminar sua obra. Só que ele tentou desmontar a discriminação e o preconceito que conheceu desde a infância enfatizando as semelhanças entre todos nós. Através de sua obra fotográfica, procurou demonstrar que existe um elo humano a nos conectar, brancos ou negros.

O ensaio sobre os Thornton foi publicado na edição de setembro de 1956 da LIFE, a mais influente revista noticiosa e ilustrada de todos os tempos, cuja circulação semanal chegou a alcançar os 13,5 milhões de exemplares. O ensaio de Parks não continha nenhuma foto de brutalidade policial, passeatas, boicotes ou racismo violento. Esparramadas ao logo de doze páginas da semanal de formato grande, 20 fotos documentavam pela primeira vez em cores o cotidiano prosaico de uma família negra do Sul rural: os Thornton sentados no sofá de casa, indo à igreja, membros da família tomando sorvete, olhando vitrines, crianças brincando displicentemente com armas, e outras cenas inofensivas do gênero. Nada apocalíptico, portanto, mas causou o desejado impacto.

Parks sabia que o grosso dos leitores de LIFE eram brancos e tinham escolaridade decente. Também sabia que o branco americano daquela época não operava com a noção de que o negro tinha uma vida privada plena e rica, no essencial igual à dele. Como ensinou o escritor James Baldwin, autor de Giovanni’s Room e o primeiro a dizer aos brancos com todas as letras o que os negros americanos pensavam e sentiam, os fundamentos incontestes de todo ser humano são apenas cinco: prazer, tristeza, amor, humor e dor.

Parks acreditava na empatia entre pessoas para desmontar a construção racial da sociedade americana e iluminou com sua câmera os aspectos universais e de autoestima da família Thornton.

Foi somente em 2012, portanto quase sessenta anos após a publicação do seminal ensaio, que a Gordon Parks Foundation descobriu mais de 70 slides coloridos no fundo de uma caixa do arquivo morto. Estava assinalada como “Segregation Series”. É este recorte da obra do fotógrafo que começará a ser exposto em Atlanta e deverá percorrer os Estados Unidos ao longo dos próximos três anos.

Dentro da programação do centenário de Parks, o Festival de Fotografia de Toronto, no Canadá, apresentou a série Retratos, a galeria Howard Greenberg, de Nova York, exibiu as muitas faces de Mohammed Ali reunidas na mostra Campeão Americano e a cidade de Milão foi brindada com a primeira grande retrospectiva (160 obras) do artista na Europa. Moscou, Roma, Nova Orléans, San Francisco, Minneapolis, Washington, o festival Les Rencontres d’Arles do ano passado, na França – o mundo visto por Gordon Parks tem sido admirado por públicos dos mais ecléticos.

Por trás da atualíssima obra desse narrador fotográfico do século XX está um grande homem. Gordon Alexander Roger Buchanan Parks, nascido num gueto de Fort Scott no depauperado Kansas de 1912, assumiu a essência do ativismo e humanismo da época através de todas as formas criativas a seu alcance. E elas não foram poucas.

Órfão de mãe na adolescência e com 14 irmãos menores para cuidar, Gordon começou a trazer comida para casa tocando piano num bordel. Passou a crooner de uma orquestra local e quase se tornou jogador de basquete semiprofissional. Desviou dessa trajetória quando ainda trabalhava como garçom no vagão restaurante da linha ferroviária North Coast Limited, durante uma viagem entre Chicago e Seattle. Algum passageiro deixara no vagão uma revista repleta de fotos sobre os trabalhadores migrantes da Grande Depressão. Foi o que o levou a uma loja de penhores para comprar sua primeira câmera.

Assim nasceu Gordon Parks, o fotógrafo. Autoditada e sem o curso secundário completo.

Seu primeiro empregador foi o Departamento de Segurança do Ministério da Agricultura do governo F.D. Roosevelt (FSA), empenhado em registrar as condições de trabalho no país nos anos 1940. Com a entrada dos Estados Unidos na II Guerra, também fotografou uma das unidades do Exército composta só de recrutas negros, conforme o manual segregacionista da época. E paralelamente, como freelance, começou a alternar trabalhos para revistas de moda e a fazer retratos de figuras proeminentes.

Foi em 1942, durante uma primeira viagem à capital do país, que Gordon Parks imprimiu a sua marca na história da Fotografia. Estava em Washington a serviço da FSA quando teve a atenção desviada para Ella Watson, uma funcionária do departamento encarregada da limpeza. “Senti, ali, um tipo de intolerância e discriminação que me pegou de surpresa”, relataria mais tarde. “Comecei perguntando-lhe como era a sua vida e o que ouvi foi calamitoso. Senti-me compelido a fotografar essa mulher de forma que eu ou o público sentisse o que era Washington D.C. em 1942”.

Parks colocou a funcionária negra de pé à frente de uma imensa bandeira dos Estados Unidos. Empunhando uma vassoura na mão direita e um esfregão na esquerda, ela mantém o olhar firme para a câmera. “Para mim aquilo era o Gótico Americano – foi o que senti naquele momento. Foi o que senti sobre a América e a posição de Ella Watson dentro da América”.

A visão pessoal de Gordon Parks do clássico Gótico Americano, pintado por Grant Wood em 1930 e exposto no Art Institute de Chicago, foi um choque.

American Gothic, 1942 ©Gordon Parks Foundation

Gótico Americano, Washington DC, 1942 ©Gordon Parks Foundation

American Gothic, 1930, Grant Wood

Gótico Americano, 1930, Grant Wood

A semelhança estrutural era proposital: mesmas linhas verticais, austeridade, as ferramentas de trabalho em primeiro plano, à frente dos retratados. Mas a intenção, oposta: enquanto no quadro de Grand Wood a casa ao fundo, com sua janela neogótica, sinaliza segurança e fé nos valores nacionais, a bandeira americana de Gordon Parks não parece proteger Ella Watson.

Ao ver o retrato, Roy Stryker, responsável pela contratação de Parks para fotografar as condições de trabalho no país, opinou: “Você está pegando o espírito da coisa, mas vai fazer com que sejamos todos demitidos”.

Ocorreu o contrário. Além de receber encomendas da revista Vogue para fazer a cobertura de desfiles de moda, Gordon Parks tornou-se, aos 25 anos, o primeiro fotógrafo negro a ser contratado e constar do expediente da mais celebrada revista de fotojornalismo do mundo. Trabalhou para a LIFE por mais de duas décadas, até a extinção da edição semanal em 1972. Ali publicou ensaios de grande impacto sobre pobreza, vida urbana e discriminação. Por suas lentes também passaram todos os notáveis do movimento negro (Mohammed Ali, Malcolm X, Martin Luther King, Stokely Carmichael), além de ícones do cinema da época, como Ingrid Bergman.

Tem mais. Em 1969 Parks tornou-se o primeiro diretor de cinema negro a fazer um longa metragem para Holywood. Baseado no romance que ele mesmo escrevera seis anos antes, The Learning Tree (“Com o Terror na Alma”, na versão brasileira) foi roteirizado, dirigido e produzido por ele. A trilha musical também é de sua autoria. Dois anos depois, ainda emplacou um sucesso de bilheteria ao dirigir Shaft, a história de um detetive negro às voltas com gangues do Harlem.

Entre uma coisa e outra, foi cofundador e diretor editorial da revista Essence, dirigida à mulher afro-americana. Compositor celebrado, escreveu e compôs o libreto de “Martin”, tributo a Martin Luther King, apresentado em 1989. Também publicou quatro livros de memórias e outros tantos de poesia e aventurou-se a coreografar um balé. “Ainda não sei exatamente quem sou”, escreveu aos 67 anos de idade. “Sumi dentro de mim mesmo sob formas tão diferentes que não sei quem é o meu eu”.

Entrevistado pelo New York Times ao completar 85 anos, Gordon Parks se definiu como uma espécie de anomalia. “Talvez porque tanto dependeu de minha determinação em não deixar que a discriminação me parasse”. Jamais esqueceu que uma de suas professoras no Kansas dissera em classe que aqueles alunos (todos negros) não deveriam desperdiçar o dinheiro dos pais tentando cursar uma faculdade, pois conseguiriam, no máximo, emprego de porteiro ou empregada doméstica.

Parks dedicou cada um dos mais de 40 títulos universitários honorários que recebeu à mestra de outrora para lhe provar o quanto estava errada. Os pais do jovem Michael Brown, baleado em Ferguson, perderam o filho que flertou com a marginalidade várias vezes, às vésperas dele ter conseguido ser aceito numa faculdade. Os ensaios fotográficos feitos por Gordon Parks mais de meio século atrás continuam a ter triste atualidade.///

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

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IMAGENS Cortesia da Gordon Parks Foundation.

Em tempo: mal começou o ano, 2015 já tem um magnífico caso de foto histórica envolvendo personagens anônimos para destrinchar. Trata-se de um insólito flagrante captado no aeroporto de Atlanta pelo mestre Gordon Parks, no ano de 1956 – ou seja, quando as leis de segregação racial nos Estados Unidos ainda estavam em pleno vigor. Da imagem, apesar de memorável e intrigante, nada mais se sabe, o que levou o blog de fotografia do New York Times a lançar o apelo “Ajude a desvendar o mistério sulista de Gordon Parks”. Vale a pena ver a íntegra da matéria escrita pelo coeditor do Lens Culture, James Estrin.

Veja também:

Matéria do New York Times com fotos inéditas de Gordon Parks reveladas: ‘A Long Hungry Look’: Forgotten Gordon Parks Photos Document Segregation

Perfil e mais imagens do fotógrafo publicados no Photo FocusGordon Parks | A Photographer You Should Know

 

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  • Guilherme Santana

    Dorrit sempre trazendo histórias incríveis.

  • Pedro Vasquez

    Excelente e tocante evocação da obra de Gordon Parks. Como, aliás, têm sido todas as matérias de Dorrit Harazim aqui publicadas. Deixa-nos expectante pela segunda parte, em que certamente a relação de Parks com o Brasil será abordada. Parabéns!

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