Claudia Andujar – no lugar do outro

Réquiem para uma paisagem

Alvaro Machado Publicado em: 03 de novembro de 2015

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Claudia Andujar elegeu a Amazônia profunda como desafio maior de uma vida desde sempre venturosa, no epicentro de fatos que conferiram ao mundo sua face atual, da resistência ao nazifascismo até os movimentos de reconhecimento de minorias ao longo dos calorosos anos 1960 e 1970.

Entre 1970 e 2013, a fotógrafa percorreu com frequência ou habitou por longos períodos o interior do triângulo escaleno conformado nos mapas por São Gabriel da Cachoeira (AM), Monte Roraima (RR) e o delta do rio mais caudaloso do planeta (PA). Esse território, que a conduziu ao clímax do exercício de sua profissão de fotojornalista, tornou-se em seguida objeto de lutas políticas e também o fundamento de sua profícua trajetória artística, reconhecida internacionalmente.

Na extremidade leste desse grande triângulo, no rio Jari que divide os estados de Amapá e Pará, situa-se a Cachoeira de Santo Antônio, tema da maioria das imagens da série Natureza presente na exposição Claudia Andujar, no lugar do outro. Belas no limite do maravilhamento que arranca nossos pés do solo cotidiano, as imagens desse local no ano de 1972 e a transformação que se operou ali nos anos 2000, com a construção da Hidrelétrica Santo Antônio do Jari, a cavaleiro das quedas d’água, sintetizam de alguma maneira a história dos laços de Claudia com sua principal matriz artística, o fantástico macro-organismo da floresta de chuvas e os povos nela enraizados há milhares de anos, laboratório de vida de dinâmicas ainda desconhecidas por quase toda a população brasileira.

Tão desconhecidas tanto hoje como no ontem de 1972 e dos anos da ditadura militar que Claudia afrontou com o propósito de preservação da etnia Yanomâmi. Basta uma vista de olhos nos mapas da região e em suas toponímias para comprovar o fato: nomes de logradouros dão fé à suspeita de muitos de que a evolução da mentalidade política do país em bases democráticas, a partir de 1985, tem validade sobretudo na extensão da costa litorânea e da região Centro-Oeste para baixo.

Como justificar, por exemplo, o nome do município amazonense Presidente Figueiredo, na mesma latitude das cachoeiras de Santo Antônio (100 km acima do rio Amazonas)? Para alcançar os territórios yanomâmi de Roraima, Claudia certamente sobrevoou algumas vezes essa localidade, situada em um traçado reto de Manaus a Boa Vista. O nome homenageia o general-ditador que, perguntado certa vez sobre o povo brasileiro, afirmou cinicamente que o odor deste não era de seu agrado, preferindo, pessoalmente, o cheiro de cavalos.

A prefeitura da cidade, que atrai algum turismo com uma dezena de belas quedas d’água, esclarece que ao tempo de sua criação, em 1981, o militar não aceitou a honraria, “por modéstia”. O “jeitinho” foi contar a todos que se aludia a um homônimo, certo presidente da província do Amazonas no tempo do Império.

Na mesma latitude de Presidente Figueiredo, mas perto do rio Jari, o município de Laranjal do Jari (AP) se orgulha do funcionamento, desde este ano, da Hidrelétrica de Santo Antônio, empreendimento que reduziu notavelmente o volume de água e a vida vegetal e animal em torno das cachoeiras registradas há quatro décadas por Claudia em sua conformação plena. No mapa dessa cidade é possível localizar a avenida Daniel Keith Ludwig, a lembrar, por sua vez, o empresário norte-americano que há cinquenta anos aniquilou bom trecho do ecossistema do Jari para a implantação de uma faraônica indústria de celulose (1 milhão e 735 mil hectares), que pretendia suprir um quarto do papel usado no mundo à época.

 

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O Projeto Jari de Ludwig era apoiado, em 1967, pelo governo do general Costa e Silva, antecipando em alguns anos outro projeto de impacto ambiental e humano arrasador, a rodovia Transamazônica. No clima local, porém, a árvore da gamelina produtora de celulose não cresceu com rapidez (a camada de húmus fértil fora arrancada pelos tratores, junto com as raízes das árvores), e Ludwig deu com os burros n’água. O consórcio que adquiriu a maior parte do projeto, já em 2000, assumiu com o Estado uma dívida considerada “impagável”, de US$ 415 milhões, dos quais US$ 150 milhões são devidos ao BNDES e R$ 50 milhões ao Banco do Brasil. Trocando em miúdos, o povo brasileiro ainda paga pelo delírio do magnata norte-americano íntimo de Richard Nixon e Ronald Reagan e pelas benesses que lhe concederam os militares brasileiros, entre elas o valor de US$ 2 pagos por hectare.

Já a Hidrelétrica Santo Antônio do Jari, cujos megawatts destinam-se em boa parte à fábrica de pasta de celulose, registrou em 2014 um rompimento de barragem, com quatro trabalhadores mortos. A população local também assistiu à esplendorosa cachoeira próxima minguar até o perecimento de todo o setor de quedas no lado paraense.

Claudia Andujar foi poupada da visão desse novo panorama. Porém, para o número 67 da revista Realidade publicada em outubro de 1971, ela já reportava as ameaças ambientais que passavam a pender sobre a Amazônia com a entrada de megaprojetos como o de Ludwig. A destruição promovida pelo norte-americano (milhões de troncos de árvores foram empilhados e queimados) também alcançaria o subsolo, conforme contou então à fotógrafa o geólogo holandês Korpershoek, funcionário do Projeto Jari por ela retratado em um típico conjuntinho safári. Satélites dos EUA haviam repassado a Ludwig a exata localização de jazidas de alumínio às margens do rio Trombetas. “É uma das mais baratas descobertas de mineração de que já se teve notícia”, declarou o geólogo a Claudia, festejando sem reservas o ato de espionagem.

A equipe de treze repórteres da Realidade passou cinco meses em campo para destacar, na edição especial “Amazônia”, os danos irreversíveis que desmatamentos como aquele causavam à flora e à fauna, em abordagem pré-ecológica (palavra ainda ausente da linguagem corrente). Nessa estada, somaram-se a Claudia outros cinco fotógrafos, a fim de registrar aspectos de 135 localidades, entre selva e rios – George Love (1937-95), então marido de Andujar, Maureen Bisilliat, Amâncio Chiodi, Darcy Trigo e Jean Solari.

Em 1977, Claudia Andujar foi enquadrada na Lei de Segurança Nacional e retirada à força de uma reserva Yanomâmi, junto a antropólogos e estudiosos estrangeiros. Sua pesquisa fotográfica foi interrompida por dois anos, período no qual iniciou, junto a um grupo de estudos, o vitorioso projeto para a criação do Parque Yanomâmi nos estados de Amazonas e Roraima.

Se as irrepetíveis imagens de 1972 em torno da Cachoeira de Santo Antônio tornaram-se uma espécie de réquiem para uma paisagem, a ação de Claudia e da Comissão Pró-Yanomâmi (CCPY) ao longo de duas décadas, que resultou no decreto de demarcação de terras de 1992, conferiu às suas muitas séries realizadas naquela região a característica – singular na história da fotografia – de uma criação artística que assume papel decisivo na perenização de seu objeto.///

 

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Alvaro Machado é jornalista e editor. Entre outros livros, editou A vulnerabilidade do ser, de Claudia Andujar, Notas de Viagem, de Thomaz Farkas, e Abbas Kiarostami, todos publicados pela Cosac Naify. É autor do texto de Claudia Andujar – La Danse des Yanomamis (Marval, 2007). Colabora nas páginas de cultura da revista Carta Capital.

 

 

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