ZUM Quarentena

Sobre o isolamento e a pornografia

Maria Rita Kehl & Caroline Valansi Publicado em: 14 de maio de 2020

Imagem do ensaio Zona franca, de Caroline Valansi, 2020

“Que mal há em contemplar um homem a possuir uma mulher?
[…] Não é mister ocultar órgãos que geram tantas criaturas
belas. Seria antes mister ocultar nossas mãos, que nos dissipam
dinheiro, fazem juramentos falsos, emprestam a juros usurários,
torturam a alma, ferem e matam.”
Aretino, século XVII

 

Será que as pessoas ainda querem fazer sexo, durante este isolamento compulsório em que a intimidade com o outro pode ser um caminho para a morte? Apesar dos riscos, acho bem provável que sim. Afinal, o sexo deve estar no topo da lista dos recursos de que dispomos para enganar precariamente a consciência de nossa finitude.

Não por acaso, as visitas aos sites pornográficos estão em alta em tempos de corona. Li na internet, no “Boletim Coronavírus” de Jairo Bouer no UOL, que a atriz pornô Dread Hot triplicou sua renda desde que o Brasil entrou em quarentena. O mesmo deve ter acontecido a outros atores e atrizes do ramo. Melhor assim: o prazer e as fantasias envolvidas numa reles masturbação são física e moralmente superiores a outra forma de gozo que, aparentemente, escandaliza menos os hipócritas de plantão (refiro-me ao gozo que se obtém pelas infinitas formas de violência).

Mas devo avisar ao leitor que chegou aqui atraído pelo título do artigo: saiba que vai conversar com uma pessoa quase leiga no assunto. “Mas como? Os psicanalistas não estão cansados de escutar fantasias pornográficas?” Bem, imagino que todos os outros psicanalistas devem ter preciosas coleções de fantasias pornográficas contadas por seus pacientes. Não é o meu caso.

Imagem do ensaio Zona franca, de Caroline Valansi, 2020

O mercado do gozo

No meu consultório, ouço falar mais… de amor – ou da falta dele – do que de sexo. Mesmo os sonhos, em sua grande maioria, deixaram de ser obscenos. Na mesma linha, constato que nas sessões de análise quase ninguém mais fala em masturbação. Imagino que os adolescentes sintam (ainda) certo mal-estar em contar que praticam o dito sexo solitário, mas desconfio que o conflito não advenha da culpa pelo ato que um cristão diria pecaminoso, e sim da vergonha. Esta, aliás, não é causada pela suposta bizarrice do sexo solitário; o que envergonha as pessoas, em um mundo voltado a produzir efeitos de sucesso e popularidade nas redes sociais, é a própria solidão. Quem se masturba revela que não conseguiu “pegar” ninguém. Loser.

Nas sociedades de consumo, aquilo que Lacan chamou de imperativo do gozo substituiu as severas interdições sexuais estabelecidas desde a época vitoriana até pelo menos a metade do século 20. Na atualidade, o que envergonha o sujeito é sentir-se apartado das ofertas de gozo que todos os outros parecem aproveitar. Mas não pensem que essa virada representa uma libertação. Mais uma vez o velho Lacan: se você quer extinguir algum comportamento, basta torná-lo obrigatório.

Imagem do ensaio Zona franca, de Caroline Valansi, 2020

É possível que nosso compungido masturbador se sinta inferiorizado em um mundo em que ele imagina que todos os outros, o tempo todo, estão gozando muito. Na adolescência, via de regra, a arte da conquista amorosa e sexual traz prestígio ao aprendiz de Don Juan. Aqueles que desenvolvem alguma capacidade de sedução e conquista sexual não querem ser discretos em relação a isso – querem se exibir. No entanto, imagino que nas redes sociais ninguém divulgue suas aventuras masturbatórias; isto equivaleria a revelar que não encontraram nenhum comprador para aquilo que o sujeito tem para oferecer; em função disso, ele foi obrigado a se virar sozinho. Esse sentimento de desvalor também afeta as meninas; mas me parece que a disputa fálica é bem mais acirrada entre os garotos.

Refiro-me apenas ao que ouço das quatro dezenas de pessoas que frequentam meu divã, claro. Os sátiros talvez não tenham transferência comigo, o que me parece um pouco decepcionante. Também é decepcionante o fato de que a imaginação no poder reivindicada pelos soixante-huitards parisienses foi quase totalmente capturada pela… publicidade.

Gostaria de saber se, entre meus colegas, os sofrimentos, as inseguranças e as obsessões de cada um também são cada vez mais da ordem do narcisismo do que do erotismo. A meu ver, essa transição revela muito a respeito das novas formas de subjetividade adaptadas a este momento agônico do capitalismo.

Imagem do ensaio Zona franca, de Caroline Valansi, 2020

O problema da visibilidade

Voltando à pornografia: para me atualizar no assunto, visitei pela primeira vez na vida (não sei se devo me vangloriar ou me envergonhar) alguns sites pornô.

Pobres dos adolescentes que inauguram suas fantasias masturbatórias diante desses filmes de “alta temperatura”. Para atingir rapidamente tais quenturas e mantê-las em alta, os casais hétero ou homossexuais que atuam ali precisam se jogar imediatamente em performances sexuais em que a penetração, vaginal ou anal, seja hipervisível. O problema técnico de como tornar o mais explícita possível a performance peniana é resolvido pela escolha da posição dos atores – daí resulta a predominância do sexo anal, já que a vagina é um órgão visualmente mais discreto. Além disso, nada acontece do que poderiam ser as deliciosas preliminares. A ótima regra literária de Ernest Hemingway – vá direto ao ponto e corte todo o resto, aplicada ao sexo, resulta em uma imensa pobreza de imaginação erótica.

Nessas cenas, o que supostamente “enlouquece” as moças ou moços em vias de ser penetrados é a mera visão do pênis do protagonista – de preferência maior do que o da média dos espectadores. A partir desse ponto, a imaginação pornográfica reduz-se ao entra e sai, acompanhado de gemidos pouco convincentes que deveriam indicar a proximidade do orgasmo. Mas, como os atores gemem sem parar do começo ao fim, a temperatura erótica, que deveria aumentar nesse ponto, permanece estável. Temo que, entre os adolescentes, a educação sexual promovida pelos sites pornô produza legiões de ejaculadores precoces; já as meninas, parceiras desses rapazes convictos de que a mera visão do pênis deve enlouquecê-las de desejo, talvez aprendam com as atrizes desses vídeos pornográficos a… fingir prazer. Em parte, por generosidade: as mais experientes devem entender a devastação que produz no parceiro inseguro a percepção de que não conseguiu levá-las ao orgasmo. Outras percebem depressa a inabilidade do parceiro e fingem gozar só para encerrar logo o assunto. Acontece que nos sites pornô, as atrizes que encontrei fingem mal. Gemidos de prazer se repetem sem alteração, em uma nota só, do começo ao fim da cena, quando enfim um gemido prolongado indica o orgasmo, assim como uma placa na estrada indicaria que “você chegou a Paranapiacaba”. A cena da entrega de Madame Bovary a seu segundo amante, descrita por Flaubert pelo lado de fora da carruagem que transporta os dois, é bem mais perturbadora do que isso.

É possível que este “enxugamento” atual da imaginação pornográfica resulte apenas da liberação dos costumes – acima de tudo os sexuais – que favoreceu todas as gerações que cresceram a partir das décadas de 1960 e 1970. O sexo deixou de ser um mistério, mesmo para os inexperientes. Ou um escândalo, para os mais apavorados.

Imagens sexuais, de maior ou menor intensidade, circulam por toda parte. Em filmes de arte e em anúncios de desodorante. Em casas noturnas que ainda oferecem strip-tease e em comerciais de bronzeador. Já é um lugar comum dizer que o sexo está banalizado. Com isso, não quero dizer que muitas pessoas façam muito sexo a toda a hora. Isso não torna, necessariamente, o sexo banal. Quero dizer que ele, o onipresente sexo, de tanto ser associado a marcas de produtos, de tanto ser usado para alavancar o interesse de filmes medíocres, perdeu seu poder de falar direto a nossas mais desconhecidas representações inconscientes. O frisson provocado pelas cenas de sexo em Último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, em breve completará 50 anos.

Imagem do ensaio Zona franca, de Caroline Valansi, 2020

A imagem pornográfica

Com a ajuda de Susan Sontag, teço algumas considerações sobre os lugares ocupados pelas imagens pornográficas, tanto na vida comum quanto nas representações artísticas. Algumas de suas observações, feitas nos anos 1960, nos parecem atuais. Em “A imaginação pornográfica”, a autora cita Paul Goodman, que se refere aos Estados Unidos como uma “sociedade pornográfica”. Ela acrescenta: “Uma sociedade tão hipocritamente repressiva que produz, inevitavelmente, uma efusão de pornografia, que é tanto sua expressão lógica quanto seu antídoto subversivo”. Não é preciso forçar muito a barra para estabelecer uma equivalência entre os Estados Unidos dos anos 1960 e o Brasil atual, em que o Estado laico vem sendo rapidamente tomado de assalto por um braço da facção mais obscurantista das igrejas evangélicas.

Sontag afirma que a diferença entre a escrita erótica e a literatura pornográfica – penso em autores como Bukowski e Henry Miller – é que a primeira é uma narrativa que contém trechos que podem excitar o leitor, enquanto a pornografia tem como único objetivo a excitação que pretende produzir – e nada mais. A literatura erótica, assim como qualquer obra de arte – se abre para muitos objetivos. Sontag recorre a Goodman: a questão não é se – sim ou não para – a pornografia, mas a qualidade da pornografia. A seguir, ela nos adverte que esse critério de avaliação ultrapassa a questão da pornografia e se aplica a todas as formas de arte. A questão sobre a pornografia é que ela aponta para “o fracasso traumático do capitalismo de prover saídas para o eterno pendor humano para obsessões visionárias de alta temperatura” (grifo meu).

Que expressão genial. Vale tanto para Sexus, de Henry Miller, quanto para Madame Bovary. Tanto para a Maja desnuda quanto para as fotos de Annie Leibovitz.

Espero que as meninas dessa geração mais feminista e mais desinibida consigam ajudar seus namorados a inventar outros jogos e outras veredas que conduzam ao prazer sexual. ///

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Susan Sontag, “A imaginação pornográfica”, em A vontade radical: estilos. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/80223.pdf

 

Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária.Em 2010, venceu o Prêmio Jabuti na categoria “Educação, Psicologia e Psicanálise” com o livro O tempo e o cão – A atualidade das depressões.

Caroline Valansi é artista visual e professora. Sua produção transita entre a palavra, o espaço e a ficção, pesquisando sobre representações da sexualidade feminina contemporânea.

 

Leia também no #IMSquarentena uma seleção de ensaios do acervo das revistas ZUM e serrote, colaborações inéditas e uma seleção de textos que ajudem a refletir sobre o mundo em tempos de pandemia.

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