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Conheça os bastidores da exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami

Publicado em: 13 de fevereiro de 2019

Aríete e o reflexo do pai, Karera Korihana thëri, do núcleo temático Malocas, Catrimani, RR, 1974, Foto de Claudia Andujar.

Em cartaz no IMS Paulista, a exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami é uma grande retrospectiva da obra de Claudia Andujar sobre os Yanomamis desde o início dos anos 1970 até o final da década de 1980. Montada a partir de uma detalhada pesquisa no arquivo de mais de 40 mil negativos da fotógrafa, a exposição traça um percurso cronológico da relação de Andujar com os Yanomami, partindo de uma abordagem inicial mais artística e documental até sua luta política pela demarcação do território indígena.

Conversamos com Valentina Tong, curadora assistente da exposição, sobre o processo de definição dos eixos temáticos, da seleção das fotografias e os desafios do projeto.

Como estão divididos os núcleos temáticos da exposição? E como foi feita a escolha?

A exposição foi pensada de forma cronológica, dividida em dois grandes núcleos. A primeira parte apresenta os contatos iniciais da Claudia com os Yanomami, quando ela tem interesse em conhecer sua cultura e se aproximar através da fotografia. São cinco núcleos que compõe esse momento: os retratos feitos no interior da maloca; as cenas externas da floresta; as casas coletivas (apresentando sua espacialidade e atividades relacionadas ao dia-a-dia); o ritual funerário Reahu e, por fim, um projeto desenvolvido em conjunto com os Yanomami em 1976, que foram convidados a representar sua própria cultura e seus mitos por meio de desenhos.

A segunda parte da exposição apresenta o contato dos Yanomami com os brancos e suas consequências. São fotografias, documentos e uma instalação (Genocídio do Yanomami) que apresentam a construção da rodovia Perimetral Norte, os conflitos com os garimpeiros, as missões religiosas, as epidemias, o projeto de saúde organizado por Andujar nos anos 1980 – quando ela mobiliza órgãos internacionais para uma grande campanha de vacinação por todo o território – e, por fim, a campanha de demarcação da terra indígena, homologada em 1992.

A escolha procura mostrar a transformação da visão da artista ao longo dos anos, do encantamento e descoberta de uma nova cultura até a conscientização das forças políticas que a estavam dizimando. As primeiras fotografias mostram uma grande liberdade e experimentação, explorando técnicas com filtros, filmes infravermelhos, luzes e intervenções na lente. E a segunda parte mostra o uso feito por ela da fotografia como instrumento de luta política, denunciando o genocídio por meio de exposições e publicações.

Como foi o processo de pesquisa e seleção final das imagens junto ao acervo da Claudia? E qual a participação dela nessa etapa?

Olhamos todo o arquivo da Claudia e procuramos trabalhar com fotos já conhecidas e também apresentar materiais inéditos. Foi um trabalho longo de identificação de lugares, datas e assuntos, tentando recompor a trajetória não só fotográfica, mas também geográfica e histórica. Quando conseguimos montar o quebra-cabeça partimos para a seleção das imagens. O trabalho da Claudia é muito pautado nas sequências e narrativas – ela normalmente acompanha um personagem ou uma cena, que se desdobra em outras, em vários rolos de filmes. Nosso maior desafio foi dar conta da enorme quantidade de situações e ao mesmo tempo enfatizar tais sequências, algo que a Claudia fez questão de trazer para a mostra. Ela participou ativamente na composição desses grupos e na decisão sobre a ordem narrativa. E se mostrou muito surpresa e feliz de se deparar com imagens que nunca tinham sido ampliadas antes. Todas as obras da exposição foram ampliadas no IMS, digitalizamos os slides coloridos para fazer impressões e usamos os negativos preto e branco originais para fazer as cópias em gelatina e prata. Foi interessante o processo de associar o material colorido ao preto e branco, algo que ela normalmente tratava de forma distinta, e que nessa exposição mostramos de forma conjunta. Foi um longo processo de provas, testes de escala e montagem, com a Claudia nos orientando o tempo todo.

Também foi fundamental nos aproximar das pessoas que acompanharam o trabalho da Claudia ao longo da vida. O missionário Carlo Zacquini olhou cada fotografia escolhida para nos ajudar com a identificação de pessoas, aldeias, datas e artefatos. O Instituto Sócio Ambiental nos ajudou com uma introdução aos costumes Yanomami, explicando o significado de cenas e rituais que eram estranhos para nós, além de terem elaborado o mapa da terra indígena. Tivemos ajuda da jornalista Jan Rocha para remontar a cronologia política da vida da Claudia e o processo de demarcação da terra. E, por fim, a consultoria especial do antropólogo Bruce Albert e do líder Davi Kopenawa, que além de nos tirarem dúvidas pontuais,  foram fonte recorrente por meio do livro A Queda do Céu, grande enciclopédia sobre a mitologia Yanomami e fatos históricos relacionados ao contato com os brancos.

Quais foram os principais desafios na montagem da exposição?

O principal desafio foi construir uma narrativa ao mesmo tempo visual e histórica, que mostrasse as diversas facetas da Claudia, de artista a ativista política. São mais de 400 imagens, além de muitos textos, legendas e documentos. No primeiro andar fizemos uma “floresta” de imagens, fotos suspensas, com um percurso mais solto. O segundo andar‚ mais denso de informações históricas, contém o mapa da terra Yanomami e a cronologia da vida dela. Outro grande desafio foi remontar a instalação Genocídio do Yanomami: morte do Brasil, mostrada no MASP em 1989. Levantamos todo tipo de material para entender como tinha sido feita a montagem original, desde a seleção das imagens até a instalação, feita com inúmeras telas penduradas, quatro projetores analógicos, espelhos e trilha sonora desenvolvida pela Claudia com a artista Marluí Miranda. Foi um trabalho interessante de adaptação: com a tecnologia digital conseguimos mapear nas telas a sequência de imagens fragmentadas, testando a escala, a ordenação e o ritmo em uma maquete, sempre acompanhados do olhar da Claudia, que ficou muito emocionada ao ver o resultado final.///

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Vídeos sobre a exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami:

Claudia Andujar conversa com Thyago Nogueira na abertura da exposição no IMS Paulista.

Thyago Nogueira, curador da exposição, e o líder e ativista Davi Kopenawa Yanomami visitam a mostra Claudia Andujar: a luta Yanomami.

Depoimento de Claudia Andujar sobre a exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami

Marluí Miranda, Thyago Nogueira e Fabrizio Lenci (do escritório Vapor324) falam da remontagem da instalação Genocídio do Yanomami: morte do Brasil

Pajelança Yanomami na exposição Claudia Andujar: a luta Yanomami

 

Livros de Claudia Andujar publicados pelo IMS:

Catálogo Claudia Andujar: a luta Yanomami

Mais de 300 imagens compõem o catálogo da mostra homônima. A publicação reúne ainda textos da própria fotógrafa, do curador Thyago Nogueira e do antropólogo Bruce Albert, que se aliou a Claudia Andujar na luta pelos Yanomami.

Catálogo Claudia Andujar: no lugar do outro

O catálogo é fruto de dois anos de pesquisa no arquivo da fotógrafa Claudia Andujar, dedicado ao período que se estende da chegada da fotógrafa em São Paulo, em 1955, até as primeiras viagens para a Amazônia, no começo dos anos 1970. Foi lançado em 2015 a propósito da exposição Claudia Andujar: no lugar do outro, no IMS Rio.

 

Mais informações sobre a exposição aqui: expoclaudiaandujar.ims.com.br

 

 

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