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Conheça os destaques em fotos e vídeos na Bienal de Veneza

Fabio Cypriano Publicado em: 03 de julho de 2017

 

A 57a edição da Bienal de Veneza, com curadoria da  francesa Christine Macel, tem sua mostra principal, batizada Viva Arte Viva, dividida em nove seções. Este ano, o evento aborda questões ancestrais em relação à produção artística, como o xamanismo, as tradições, o dionisíaco, o infinito e a terra, para citar cinco dos temas propostos por Macel.  A bienal acontece até o dia 26 de novembro.

Veja a seguir dez artistas que são destaque em fotografia e vídeo nesta edição da Bienal de Veneza:

 

Taus Makhacheva, foto da instalação Corda bamba, 2015, HD vídeo, cor, som, 58’10’’. Foto de Francesco Galli, cortesia da Bienal de Veneza.

Taus Makhacheva (Rússia, 1983)

Artista nascida e ainda trabalhando na República do Daguestão, uma divisão da Federação Russa, no norte do Cáucaso, a região costuma inspirar as obras de Makhacheva. Grande parte de seus trabalhos são performances, nas quais ela analisa “o corpo como estrutura de suporte”. Em Veneza, apresenta um vídeo de grande impacto visual, Corda bamba, de 2015, no qual um descendente de uma famosa dinastia de acrobatas carrega 61 trabalhos copiados do Museu do Daguestão por uma corda estendida entre duas montanhas: de um espaço aberto para uma estrutura semelhante à de uma reserva técnica de um museu.

 

 

Mladen Stilinović, foto com os trabalhos Artista no trabalho, 1978, e Artista no trabalho (de novo), 2011. Foto de Francesco Galli, cortesia da Bienal de Veneza.

Mladen Stilinovic (Sérvia, 1947 – Croácia, 2016)

A série de fotografias Artista no trabalho (1978) apresenta imagens do próprio artista dormindo, e pode ser contextualizada como um gesto de protesto a partir da recusa ao trabalho convencional na Iugoslávia no fim da era Tito. Observada hoje, a obra segue potente como uma ode ao não trabalho como ferramenta criativa e fonte da produção artística. Além da série original, a Bienal de Veneza apresenta a variação Artista no trabalho (de novo), de 2011, quando Stilinovic se deixou fotografar dormindo em instituições de arte.

 

  

Tibor Hajas, Tortura superficial (detalhe), 1978. Foto de János Vetö, cortesia da Bienal de Veneza.

Tibor Hajas (Hungria, 1946 – 1980)

Outro artista proveniente do leste-europeu, o poeta Tibor Hajas desenvolveu sua obra na clandestinidade, até sua morte prematura, em 1980, em um acidente de carro. Detido em 1965, ele permaneceu 14 meses encarcerado. A partir de então, passou a criar obras conceituais e realizar happenings. A partir de 1974, suas obras são realizadas em parceria com o músico János Vetö. Assim foi criada Tortura da superficial (1978), uma ação de Hajas encenada para ser fotografada por Vetö em um estúdio, sem a presença de público. Juntos, realizaram 16 séries com esse procedimento, que de fato não eram apenas registro da performance, mas obras em si que questionavam convenções sociais. Ao mesmo tempo, Hajas nunca deixou de realizar performances de caráter público.

 

 

Juan Downey, foto da instalação O círculo de fogos, 1979, vídeo colorido em dois canais, som, oito monitores, 10’. Foto de Ítalo Rondinella, cortesia da Bienal de Veneza.

Juan Downey (Chile, 1940 – EUA, 1993)

Pioneiro da videoarte, o chileno Juan Downey é o primeiro artista logo na entrada do Arsenale, um dos dois espaços da mostra central em Veneza, com a obra Círculo de fogos. A instalação é parte do projeto Vídeo Trans America (1973 – 77), exibido também na Bienal de São Paulo, em 2014. A importância dessa obra está em mesclar o documental e o etnográfico da pesquisa. Downey passou cerca de um ano, entre 1976 e 1977, vivendo com os índios Ianomâmi e os Guahibo. Além de registrar o cotidiano dos índios, o artista cedia a eles sua câmera, possibilitando que o objeto se tornasse sujeito.

 

 

Maria Lai, Ligar-se à montanha, 1981. Foto de Piero Berengo Gardin, cortesia da Bienal de Veneza.

 

Maria Lai (Itália, 1919 – 2013)

Em 2017, a italiana Maria Lai é destaque não só em Veneza como na Documenta de Kassel e Atenas. Sua obra se desenvolve em vários suportes cotidianos, de fios de tecido costurados em telas a pães que se transformam em livros, trabalhos que resultam muito próximos da estética do movimento Arte Povera. Uma de suas obras mais conhecidas é a performance Ligar-se à montanha, de 1981, que foi realizada com moradores de sua cidade natal, Ulassai, na ilha da Sardenha. Em fotos preto e branco, Lai registra os fios espalhados pelos habitantes da vila e os colore de azul.

 

 

Anna Halprin, Dança planetária, 2003. Foto © www.earthlive.com, cortesia da Bienal de Veneza.

Anna Halprin (EUA, 1920)

A norte-americana Anna Halprin também pode ser vista tanto em Veneza como em Kassel e Atenas. Sua obra ajudou a renovar a dança ao longo do século 20, tendo influenciado artistas como Trisha Brown, Meredith Monk e Yvonne Rainer, entre outras. Em 1981, após a morte de mulheres em uma montanha ao norte de San Francisco (EUA), Halprin promoveu um workshop com a comunidade local, que se desenvolveu em uma dança de reconciliação com a natureza. O ritual passou a ser realizado anualmente e, desde 1987, intitula-se Dança planetária. Pode ser visto em fotos no Arsenale, tendo sido também realizado em Veneza.

 

 

Shimabuku, Os macacos da neve do Texas – Os macacos da neve lembram-se das montanhas nevadas, 2016, vídeo. Foto de Ítalo Rondinella, cortesia da Bienal de Veneza.

Shimabuku (Japão, 1969)

O japonês Shimabuku, que participou da 26a Bienal de SP, em 2007, está em Veneza com um trabalho recente, Os macacos da neve do Texas – Os macacos da neve lembram-se das montanhas nevadas (2016). O vídeo aborda um grupo de macacos japoneses transladados em 1972 para o Texas, quando muito deles foram mortos por conta do contraste de temperatura. Quase 50 anos depois, o artista leva aos remanescentes uma pequena montanha de gelo, como a testar se em suas memórias ainda conseguem se lembrar da paisagem japonesa.

 

 

Guan Xiao, David, 2013, vídeo. Cortesia da Bienal de Veneza.

Guan Xiao (China, 1983)

A videoinslação da chinesa Guan Xiao, uma das artistas mais jovens da Bienal de Veneza, é a mais bem-humorada da exposição. David (2013) ironiza uma das esculturas mais conhecidas da história da arte, o David de Michelangelo, realizada entre 1501 e 1504. Em linguagem de videoclipe, ela não só apresenta registros da peça em sua morada permanente, a Academia de Florença, como exibe a miríade de réplicas e utensílios que fazem referência ao David, uma alegoria sobre o consumo em detrimento à vivência artística.

 

 

Ayrson Heráclito, O Sacudimento da Maison des Esclaves em Goree , 2015, vídeo. Foto de Ítalo Rondinella, cortesia da Bienal de Veneza.

Ayrson Heráclito (Brasil, 1968)

O artista baiano Ayrson Heráclito apresenta dois vídeos em Veneza: O sacudimento da Casa da Torre e O sacudimento da Maison des Esclaves em Gorée, resultados de duas performances, a primeira em Salvador (Bahia) e a segunda no Senegal. Em ambas, Heráclito realiza um ritual de limpeza para dispersar os espíritos de ancestrais mortos. Ao escolher locais onde a escravidão foi uma marca importante, seja na Casa da Torre, onde até índios eram escravizados, como a Maison des Esclaves, um local de deportação de negros para o Brasil, o artista aponta para as raízes do passado violento do país, que segue com seus fantasmas até hoje.

 

 

Bas Jan Ader, Queda quebrada (orgânica), 1971, filme em 16mm transferido para vídeo, preto e branco, sem som, 1’44’’. Foto de Ítalo Rondinella, cortesia da Bienal de Veneza.

 

Bas Jan Ader (Holanda, 1942 – 1975)

O holandês Bas Jan Ader tornou-se uma lenda na performance por conta de seu desaparecimento em alto–mar, tendo saído dos Estados Unidos, em 1975, onde vivia há 12 anos, em um pequeno barco em direção à Europa. O barco foi encontrado flutuando nove meses depois a 360 km da costa da Irlanda. A maior parte de suas obras consistia em performances, algumas delas realizadas para a câmera, caso de Queda quebrada (orgânica), obra de 1971, em exibição em Veneza. Nela, o artista fica pendurado por cerca de um minuto em um galho de árvore sobre um rio, até que, não aguentando mais, cai.///

 

Fabio Cypriano (1966) é jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e pós-doutor pela USP. É crítico de arte da Folha de S. Paulo, membro do conselho editorial da ARTE!Brasileiros e coordenador do curso Arte: História, Crítica e Curadoria da PUC-SP. É autor de Pina Bausch (Cosac Naify, 2005) e Histórias da Exposições: casos exemplares (Educ, 2016).

 

 

 

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