Exposições

Gestos e rostos no Congresso Nacional em obra da artista Sofia Borges

Sofia Borges & Jacques Leenhardt Publicado em: 13 de dezembro de 2017

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

A máscara, o gesto, o papel, da artista Sofia Borges, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo em cartaz no IMS Paulista, constitui-se de duas séries de imagens feitas no Congresso Nacional, em Brasília. Realizada em fevereiro de 2017, a obra surge em um Brasil agitado pelas tensões políticas que o atravessam desde a destituição da Presidenta Dilma Roussef. O clima deletério é apenas um dos aspectos da crise institucional extremamente profunda, da qual as investigações e delações da Operação Lava Jato oferecem um testemunho infinitamente repetido. No turbilhão desses dois dramas da vida democrática brasileira, o Congresso tornou-se foco de uma atenção inquieta. É sob esse clima de suspeita generalizada que Sofia Borges realiza seu trabalho na capital federal, no momento preciso em que o Senado escolhia um novo presidente.

A artista se posicionou no alto, longe da cena, nas tribunas reservadas aos jornalistas, cujo dispositivo arquitetônico do edifício os mantém distante do lugar dos debates. A presença desses representantes do público na sede do parlamento é, em qualquer lugar, um dos símbolos da ordem democrática. No entanto, a barreira arquitetônica faz com que o olho vigilante do povo se encontre a uma distância de onde só se pode ter uma visão global do que se trama nesse lugar emblemático do poder. A percepção que o espectador tem do jogo político revela-se, portanto, incompleta, quase abstrata.

É a partir dessa realidade que Sofia Borges constrói sua instalação, em que os atos da decisão política se encontram reduzidos a uma série de imagens fragmentadas, arrancadas da cenografia parlamentar pela teleobjetiva. A solenidade da ação política fica assim diluída em uma multiplicidade de gestos que representam somente o que há de mais banal no cotidiano dos profissionais da coisa política. A potência da dramaturgia democrática se perde.

A dupla escolha feita por Sofia Borges, de se posicionar a uma grande distância do evento e de dele se aproximar por meio da teleobjetiva, produz, assim, um efeito crítico potente com relação ao funcionamento da instituição. Esse aspecto técnico não tem nada de anódino. O recurso de ampliação ótica, teoricamente destinado a tornar a cena política mais próxima, reforça o sentimento de que o debate democrático tem lugar em um universo outro, em um mundo de regras próprias, que fogem à compreensão do cidadão. Nas fotografias, o grão da imagem dá prova disso. Ele é a marca de um esforço de aproximação que paradoxalmente torna perceptível de imediato a distância que afasta o cidadão.

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

Um dispositivo no espaço

O trabalho de Sofia Borges se distancia do que seria uma reportagem sobre aquilo que ela assistiu no Senado. Ao contrário, trata-se de uma exposição, em todos os sentidos da palavra. O mundo político, seus gestos e seus rostos são aqui expostos, submetidos a nossos olhares. De maneira geral, a exposição enquanto dispositivo de conhecimento é perfeitamente caracterizada pela vitrine tal como a conhecemos nos museus ou nas lojas. A vitrine dá a ver os documentos ou os objetos a um espectador que deles está apartado por um vidro. Aqui, é a lente fotográfica que funciona como vidro separador. Há também a maneira como as imagens são apresentadas no espaço. As fotografias de Sofia Borges não estão dispostas nas paredes como seria de praxe em uma exposição de fotografias. Elas flutuam no espaço, de modo que o espectador se encontra envolto em um ambiente de imagens. Assim se cria uma promiscuidade inabitual com as figuras da política que ele reconhece sem havê-las conhecido.

Série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista. Crédito da foto: Pedro Vannucchi

Série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista. Crédito da foto: Pedro Vannucchi

Sofia Borges reúne, em duplas dispostas na frente e no verso de caixas suspensas, imagens de rostos e imagens de mãos. Trata-se de dois registros icônicos do universo político, em que se articulam gesto e palavra, seu fundamento. Tal estrutura de dupla face, bastante incomum, reforça por sua vez a ambivalência do que ela expõe. Além disso, presas ao teto por um jogo de cordas e polias, essas imagens transformam os sujeitos políticos que elas mostram em marionetes aparentemente animadas por um misterioso manipulador escondido. Suspensas por seus fios, elas formam um desfile de imagens de festa forense, violentamente presentes e ao mesmo tempo irreais.

Através desse jogo complexo de distância e de proximidade, A máscara, o gesto, o papel chama atenção para o abismo que separa os gestos graves da democracia – o debate e o voto de que o Senado e a Câmara dos Deputados são guardiões – e o mundo da troca de favores e da conivência, no espetáculo ambíguo que as fotografias evocam. A artista insiste nesse hiato, nessa discordância entre a solenidade do lugar e a banalidade das coisas que o olhar envolve.

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

Bocas sem rosto

As fotografias de rostos realizadas por Sofia Borges reproduzem quadros que o pintor Urbano Villela dedicou aos diferentes presidentes do Senado. Ela os fotografou no Museu Histórico, em que essas pinturas “imortalizam” – a palavra talvez soe exagerada para políticos que em geral são rapidamente esquecidos – os ex-presidentes do Senado. É preciso lembrar que tais galerias de retratos políticos constituem frequentemente um objeto polêmico. A obra de Sofia Borges não escapa a esse contexto. Para a artista, trata-se de trabalhar essas imagens políticas com os meios da arte, de conferir-lhes uma significação ao deslocá-las de seu contexto original.

Assim, Sofia Borges selecionou alguns desses retratos pintados e arrancou-lhes da aura tradicional, própria ao medium pictural. Ela então impôs a esses rostos um enquadramento tão fechado que seus olhos foram eliminados, concentrando-se apenas em suas bocas. Privados dos olhos que confeririam alguma humanidade a tais caras, os órgãos da palavra tornam-se mudos. Atrás de seus sorrisos congelados, a linguagem permanece retida por trás de lábios cerrados ou de dentes rígidos como grades de uma prisão. Toda palavra está presa e o voo da volúpia típica das tribunas já não é ouvido, tampouco a eloquência do famoso Demóstenes. Tal é o paradoxo que produzem essas imagens: o órgão da palavra através do qual a democracia se constrói está mudo. A palavra e seu poder de convicção estão ausentes dessas fotografias. Rostos parcialmente ocultos aparecem como meias verdades e seus lábios cerrados sinalizam um adormecimento da palavra pública.

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

Mãos

No verso dessas bocas silenciosas, a artista apresenta uma sequência de closes-up de mãos que se saúdam, se cumprimentam, trocam coisas. Simbolizam todo o comércio de que o Congresso é a um só tempo o teatro, aberto aos olhos de todos, e a coxia, secreta e enigmática. As mãos oferecem um tipo de semiótica da conivência, o deciframento de uma linguagem codificada a que Sofia Borges confere lugar central. Tudo se passa nesse templo do poder, como se a política se resumisse a esses intercâmbios mudos, de proximidade calorosa e tátil que liga parceiros em acordos tácitos. Longe de serem expressão de um corpo humano identificado, essas mãos aparecem apenas como órgãos de uma linguagem gestual, de uma ciência dos signos reservada aos iniciados. Olhem para aqueles que saem da obscuridade e se aproximam: Quais contratos estão selando? Quem sustenta quem? Esses abraços trocados na fricção de tecidos preciosos solidarizam os corpos e constrangem os espíritos.

Essas mãos, sobre as quais recai a luz da fotógrafa, também falam do pertencimento social de um regimento político que embranquece sob as cúpulas do Congresso. Poucas mulheres aparecem, como se nos encontrássemos em um velho club londrino, cercados de velhacos em matéria de eleição. Como nos romances de Balzac, a prega impecável de um terno e a seda da gravata se constituem uma verdadeira carteira de identidade para seus proprietários. Esses detalhes das vestimentas dizem muito sobre o fechamento de uma pequena casta sobre seus rituais e privilégios.

Fotografia da série A máscara, o gesto, o papel, parte da exposição Corpo a corpo: a disputa das imagens, da fotografia à transmissão ao vivo, no IMS Paulista.

O lugar do poder?

Colocando em cena a “representação nacional” em sua arte tão peculiar de fazer gestos e emitir palavras mudas no Congresso de Brasília, o dispositivo de dupla face escolhido pela artista fala da ambivalência das significações. Como uma gangrena, ela corrói as imagens e as palavras, tornando problemática qualquer tentativa de falar verdadeiramente daquilo que é representado.

As teorias sobre a fotografia são claras nesse aspecto: toda fotografia, em sua mais forte presença, na evidência de seu hic et nunc (aqui e agora), fala da ausência do que ela mostra. O povo e sua vontade que, teoricamente, deveriam ali estar representados, nem está presente, nem é representado no espaço sagrado do parlamento onde as imagens foram tomadas. Elas falam da democracia, mas sob o ângulo de sua presença/ausência.

Afinal, o que se vê nessas fotografias? Primeira evidência: não se vê nem a Câmara dos Deputados, nem o Senado. Nem mesmo os homens políticos. Apenas signos que simbolizam seu mundo: signos do poder.

As fotografias de Sofia Borges, ao produzirem uma variação da escala a que a televisão nos habitou a ver o mundo político, ao conferirem, pelo zoom e pelo detalhe ampliado, uma presença mais forte, pervertem os códigos da representação política. Ao despertar o olhar do espectador para a qualidade de um tecido, para o segredo indecifrável de uma anotação manuscrita ou para a pilosidade de uma mão, Sofia Borges convida o espectador a multiplicar as interpretações transgressivas de um espetáculo tradicionalmente recebido com indiferença. Suas ampliações hiperbólicas reduzem toda figura sagrada ao profano. Os signos se tornam obscenos. Propulsados para o proscênio, eles se transformam em sintomas e, em seguida, em estigmas. É assim que a câmara fotográfica, considerada objetiva, incapaz por natureza de mostrar algo diferente daquilo que de fato posou diante de seu olho de vidro, torna-se uma máquina crítica, próxima do lápis do caricaturista.

Como a imagem passa de representação fotográfica anódina à potência caricatural, sem que nada seja acrescentado? É exatamente isso que distingue o olhar cotidiano da obra de arte. É com esse o trabalho da forma que Sofia Borges conquista o estatuto de mestre.///

 

Sofia Borges (1984) expôs seus trabalhos no Museu Coleção Berardo, de Lisboa (2013), Foam, Amsterdã (2016), 30ª Bienal de São Paulo (2012), entre outros. Em 2016 lançou o livro The Swamp [O pântano], vencedor do First Book Award da editora inglesa Mack.

Jacques Leenhardt (1942) é filósofo e sociólogo suíço, diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), em Paris, e presidente de honra da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA). Foi membro do conselho curatorial da Fundação Iberê Camargo entre 2010 e 2014.

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