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Imagens da mesmice: do banal ao radical

Giselle Beiguelman Publicado em: 05 de novembro de 2018

Imagem de Insta_Repeat, de Emma Scheffer, 2018

Nunca se fotografou tanto como em nossa época. A cada um mísero segundo, quase 900 fotos são publicadas no Instagram. Uma média de 70 milhões de imagens por dia! Impossível não se espantar. Estamos em plena era da superprodução de imagens, gerando uma overdose documental sem precedentes. Que desemboca no apagamento da memória e em uma estética da repetição.

Três obras artísticas recentes fazem um raio X desse estado das coisas, se apropriando da cultura visual das redes. São elas: Riccardo Uncut, de Eva e Franco Mattes (2018), e os projetos The Single Post Instagram (2017 – ), de Maurizio Cattelan, e Insta_Repeat de Emma Scheffer (2018).

Riccardo Uncut, de Eva e Franco Mattes, artistas italianos radicados em Nova York, , começou a partir de uma chamada nas redes sociais oferecendo 1.000 dólares por um celular. O objetivo era usar as fotos e vídeos do proprietário em um trabalho artístico que foi comissionado pelo Museu Whitney de Nova York. O celular escolhido foi o de Riccardo, um rapaz que guardava em seu aparelho mais de 3000 imagens, cobrindo o período de 2004 a 2017.

Imagem da série Riccardo Uncut, de Eva e Franco Mattes, 2018

Eva e Franco usaram todas as imagens e editaram um slide show de mais de uma hora, em que acompanhamos a vida de Riccardo via todas as suas fotos e vídeos (inclusive as inúmeras intermediárias que não deram “certo”). Há de tudo um pouco. São fotos de viagens, no trabalho, nas ruas, na família e da sua vida amorosa.

Não há nada de interessante nisso e isso é o mais fascinante. Como em Sleep (1963), de Andy Warhol (1928-1987), que mostra um homem (John Giorno) dormindo por cinco horas, aqui não há ação. Desprovidas de qualquer cinematicidade, as imagens de Riccardo nos obrigam a ver aquilo que são na sua crueza mais absoluta. Assisti-las, sem cortes, é como ver a si mesmo.

Tenho dito com uma certa recorrência que o celular com câmera se transformou numa espécie de terceiro olho na palma da mão. Mas as redes sociais o converteram em um dispositivo de projeção pessoal. Por esse motivo, as formas de produção de imagem na atualidade dizem muito sobre a privacidade e sobre o estatuto da memória no tempo digital.

Imagem da série Riccardo Uncut, de Eva e Franco Mattes, 2018

Há uma inequívoca compulsão pelo arquivamento hoje. E esse arquivamento é mobilizado pela possibilidade de publicação das informações nos canais mais diversos das redes. Registra-se tudo no afã de marcar um momento. Ainda que seja para se apagar em um microfilme no stories do Instagram, que dura um dia, alguma coisa tem que ser gravada, capturada e divulgada.

É explorando essa tendência que The Single Post Instagram (O Instagram de apenas um post), do artista italiano Maurizio Cattelan, brilha. Há um ano, todos os dias, ele posta uma imagem nonsense no seu perfil no Instagram, acompanhada de uma legenda mais absurda ainda, em forma de pergunta à sua audiência. A foto é apagada 24h depois.

Imagem de The Single Post Instagram, de Maurizio Cattelan, 2017 – 2018

Com mais de 130 mil seguidores apaixonados, o que é facilmente verificável pela torrente de comentários que respondem às suas perguntas, Maurizio Cattelan não segue ninguém, mas aprova com um “coraçãozinho” todas as manifestações.

A página em branco, com uma imagem apenas, e a relação assimétrica, de quem faz um pergunta, não responde, mas mostra que leu (ou percebeu a presença do outro em seu domínio) conferem à conta de Catellan um caráter peculiarmente antissocial, que cria um ruído, pelo silêncio, na balbúrdia instagramática.

Afinal, nesse império do suposto compartilhamento, quem lembra do que foi dito ontem? Aquilo que era de suma relevância pela manhã, tem alguma importância depois do primeiro rearranjo automático da sua timeline? Existe escuta ou apenas espaço para uma fala ininterrupta?

Mas não é só pelo que dá a pensar que The Single Post Instagram chama atenção. É porque as imagens postadas e apagadas mantém, no seu nonsense, uma extrema coerência. Hilárias, enigmáticas, descontextualizadas parecem que poderiam ter sido vistas em qualquer outro lugar da Internet.

Imagem de Insta_Repeat, de Emma Scheffer, 2018

Essa sensação de déjà vu é a razão de ser de Insta_Repeat, da artista holandesa Emma Scheffer. O projeto nos confronta com zilhões de fotos de viagem. São todas, praticamente, idênticas, com incontáveis moças de costas, olhando desfiladeiros e estradas vistas do para-brisa.

Scheffer recolhe essas imagens em diversos perfis, a partir de buscas por hashtags específicas, e organiza essas fotos como mosaicos. O resultado lembra uma estratégia usada por Natalie Bookchin no vídeo Mass Ornament (2009). O título de sua obra faz uma referência direta à obra do crítico cultural e sociólogo alemão Siegrifid Kracauer (1889-1963), que cunhou o termo em um ensaio sobre a famosa trupe de dançarinas de coro Tiller Girls. A associação não é fortuita.

Nesse ensaio, publicado em duas partes em 1927, quando escrevia no Frankfurter Zeitung, antes de fugir da Alemanha Nazista, Kracauer interpretava a coreografia sincopada das garotas do coro à luz do Taylorismo. Para ele, as mãos dos trabalhadores nas fábricas correspondiam às pernas dessas bailarinas, sendo o ornamento de massa “o reflexo estético da racionalidade que o sistema econômico dominante aspirava.”

Na sua obra, Bookchin se vale do conceito de ornamento de massa de Kracauer para fazer a crítica dos corpos moldados nas redes de imagem. Uma versão 2.0 dos “corpos dóceis”, manipuláveis e adestrados para determinadas funções, discutidos pelo filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) em Vigiar e Punir (1975).

Frame do vídeo Mass Ornament, de Natalie Bookchin, 2009

Para tanto, se apropria de centenas de vídeos do YouTube de pessoas dançando em frente à câmera. As imagens são editadas, como em um chorus line, acompanhada das trilhas de dois filmes emblemáticos de 1935. São eles Gold Diggers, do rei do cinema musical Busby Berkeley (1895-1976), e o Triunfo da Vontade, documentário da cineasta de confiança de Hitler, Leni Riefenstahl.

O resultado de Mass Ornament, de Bookchin, é a coreografia de uma massa compacta de corpos formatados. A sincronia fina dos gestos é produto não só da expertise da edição, mas de um ajuste dos corpos a um determinado tipo de imagem.

No limite, esses corpos são amestrados não só pela imagem que deve refleti-los, mas também pelas palavras-chave que lhes darão visibilidade. Um fenômeno que a brasileira Denise Agassi explorou em trabalhos como Monumento On-line (2007-2011), centrado no Cristo Redentor, e Subindo a Torre Eiffel (2009-2015), vídeos produzidos em tempo real a partir de buscas por tags relacionadas a esses monumentos.

Emma Scheffer atualiza essas questões, mantendo o foco na repetição, porém incidindo na padronização do olhar que se adequa aos parâmetros das câmeras e às convenções “instagramáveis”. Seus mosaicos, com séries de 12 imagens sequenciadas, de fotos de viagem que circulam no Instagram mostra as mesmas paisagens e situações. Não importa em que parte do mundo sejam feitas, há sempre lugar para “uma foto full frame de alguém, centralizado, em frente a uma cachoeira”, “um celular na vertical no meio do nada”, “um drone olhando na perpendicular as copas de árvore do outono”, como descrevem suas legendas.

Imagens feitas com o suprassumo do olhar banal são fomentadas pela economia neoliberal dos Likes. A partir desse binômio curioso, revelam como os regimes algorítmicos – das câmeras digitais e das hashtags  – modulam os modos de ver e construir as imagens. Em sua redundância, os mosaicos de Schaffer enquadram, radicalmente, a mesmice do vocabulário visual das redes.///

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Riccardo Uncut

The Single Post Instagram

Insta_Repeat

Mass Ornament

 

 

Giselle Beiguelman é artista e professora da FAUUSP. Assina a coluna Ouvir Imagens na Rádio USP e é autora de Futuros Possíveis: arte, museus e arquivos digitais (2014), entre outros. Entre seus projetos recentes, destacam-se Odiolândia (2017), Memória da Amnésia (2015) e a curadoria de Arquinterface: a cidade expandida pelas redes (2015).

 

 

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