Revista ZUM 6

Estúdio Malick

Malick Sidibé & Dorrit Harazim Publicado em: 14 de maio de 2014
Há cinco décadas, MALICK SIDIBÉ tem sido o inconfundível narrador visual do Mali. De um singelo estúdio em atividade até hoje, ele retratou a efervescência da descolonização e um povo reassumindo a identidade.

QUANDO SE FALA EM MESTRES do retrato, logo vem à mente a gloriosa galeria dos que focaram o indivíduo, como Richard Avedon, Philippe Halsman ou Irving Penn, entre tantos outros. Há também os que retrataram um povo ou país, como Robert Frank, Walker Evans ou August Sander.

Por circunstâncias em que se misturam talento, acaso e história, o africano Malick Sidibé é um espécime híbrido. A partir de um estúdio fincado no bairro mais antigo de Bamaco, a capital do Mali, ele retratou toda uma era, embora compactada num período relativamente curto – a de um país subitamente independente, a de um povo reassumindo a identidade e a de uma juventude tateando na euforia.

O Mali já foi berço orgulhoso de uma civilização antiga. Foi atacado, conquistado, abandonado e reconquistado inúmeras vezes ao longo da história. Após séculos de subjugação, os malineses e suas 26 etnias se habituaram a ser definidos por quem estivesse no comando de sua existência. Por último, o país foi colônia da França durante 80 anos, até tornar-se independente em 1960, no vendaval de descolonização que varreu a África no início daquela década.

Malick Sidibé tinha então 24 anos. Estava pronto para captar a euforia de sua geração e o orgulho da jovem nação. Sidibé nasceu numa área rural a 300 quilômetros da capital, numa época em que as raízes nômades de sua etnia fulâni já não eram tão fortes. Escolarizou-se em instituições de ensino para brancos, onde seu talento para artes gráficas e desenho foi detectado. Aos 20 anos, foi encaminhado para o que é hoje o Instituto Nacional das Artes, na capital. Além de ser o melhor aluno, obteve o diploma de designer de joias, mas continuava insatisfeito – por tradição, a etnia fulâni não se dedica às artes, e sim à criação de animais. Tudo mudou quando ele foi enviado pela faculdade para decorar o ateliê do fotógrafo mais renomado da sociedade branca local, o francês Gérard Guillat-Guignard, mais conhecido como Gégé la pellicule. Acabou sendo contratado como faz-tudo do estabelecimento.

Enquanto Gégé cobria os grandes eventos da colônia, Sidibé aprendia o ofício por osmose. Conseguiu comprar em Bamaco, por um dólar, um exemplar da popularíssima câmera Brownie, que a Kodak lançara no mercado americano meio século antes, e cujo rolo de filme batia oito fotogramas. À época, exceto por Gégé, os fotógrafos europeus estabelecidos em Bamaco não permitiam que funcionários africanos comprassem câmeras. O jovem aprendiz era, portanto, uma raridade local. Iniciou-se no ofício fotografando amigos nos casamentos, festas e aniversários que frequentava.

Turbantes e minissaias

O estilo, a técnica, o olhar e a linguagem inconfundíveis da obra de Sidibé só começaram a adquirir forma na efervescência da descolonização, quando a nação malinesa se descobriu ávida por sair do casulo e se mostrar. Primeiro, ele tornou-se o cronista visual daquela geração de jovens urbanos da capital. Fotografava dia e noite, revelava os filmes de madrugada e, na manhã seguinte, afixava as folhas de contato nas paredes externas do estúdio, tornando-se um componente indissolúvel das mudanças à sua volta. Estava em sintonia com o que fotografava. As discotecas e os clubes da capital, que até a independência vetavam a entrada de nativos, haviam mudado de ritmo.

Da jovial abertura, resultou uma atabalhoada fusão. Turbantes, minissaias e calças boca de sino confeccionadas com padronagens africanas passaram a conviver num mesmo guarda-roupa. Eram os anos 1960 da cultura ocidental sendo abraçados pelos recém-descolonizados.  Primeiro, por meio da música, dos ritmos, do estilo. Depois, foram objetos ocidentais de consumo que se infiltraram.

A real dimensão da obra de Sidibé se consolidou em 1962, quando ele abriu estúdio próprio numa movimentada rua do bairro Bagadadji, o mais popular da capital – o nome é uma homenagem de mercadores mouros vindos de Bagdá que ali se assentaram em 1922. Até hoje, o Estúdio Malick funciona na mesma rua, número 508, porta 632 – e Sidibé ainda faz as honras da casa, passado mais de meio século. Aos 77 anos e com 17 filhos, ele continua a atender com bonomia ao fluxo constante de visitantes europeus ou africanos em seu tugúrio. Não por acaso, Sidibé é cultuado como guardião da história nacional: ele tem guardado cada negativo das dezenas de milhares de pessoas que retratou, catalogados por data, local e nome.

Enquanto na Europa os grandes ateliês de fotografia começaram a perder prestígio a partir dos anos 1960, substituídos por uma cultura mais portátil e informal da fotografia, a busca do retrato convencional ainda perdurou por muitas décadas no continente africano que se descobria descolonizado.

Narrador Visual

Para os historiadores da arte, o progenitor dos retratos de estúdio no continente foi Seydou Keïta, também do Mali. Nascido em 1921, Keïta abriu seu estúdio perto da estação de trem de Bamaco, em 1941, quando a eletricidade ainda não havia chegado à região. Por esse motivo, toda a sua obra foi feita com luz natural. Ainda assim, deixou um retrato notável da elite africana da época – a urbanizada e a tribal.

Malick Sidibé, meia geração mais jovem, pôde deixar entrar toda sorte de luz, de classe social, de sonhos e expectativas individuais em seu estúdio da rua Bagadadji. Capturou tudo em preto e branco. “As fotos em preto e branco são mais concretas, mais verdadeiras que as coloridas: elas revelam sua origem teórica de forma mais evidente. Têm a beleza do universo conceitual. Já as coloridas, quanto mais próximas da realidade, menos verdadeiras”, sustenta o artista. Sua magra produção de fotos em cor, todas de cenas externas, paisagens rurais e atividades coletivas, merece pouco destaque. Ela destoa do restante por não focar no que Sidibé mais buscou captar em sua obra: o indivíduo.

Em cândida entrevista concedida a Laura Incardona, jornalista e autora de Malick Sidibé: A vida em cor-de-rosa, o malinês expôs seu elo afetivo com o ofício ao qual dedicou a vida. “Meu pai jamais viu a própria imagem, exceto no espelho ou na água”, contou na ocasião. “Vejo a fotografia como uma forma de viver por muito tempo, bem além da morte. Acredito no poder da imagem, por isso passo a vida tentando extrair de cada pessoa que retrato o que ela tem de mais belo.”

De início, o Estúdio Malick mais se assemelhava a uma extensão das noitadas regadas a música de Bamaco. “Foi um período muito doido, único”, rememorou o fotógrafo por ocasião de uma mostra em Londres, três anos atrás. “O pessoal dava uma passada, comia alguma coisa, acabava ficando, e eu dormia na câmara escura. Eles vinham mostrar seus novos chapéus, óculos escuros, calças boca de sino. Traziam suas vespas para serem fotografadas e contavam as fantasias da nossa geração. Era um estúdio de faz de conta que reprocessava os influxos ocidentais.”

Paulatinamente, porém, o estúdio tornou-se um ímã nacional. Todo malinês desejoso de se ver retratado pela primeira vez por um irmão de sangue batia na porta. E Malick Sidibé, que sempre se considerou um “narrador visual” da linhagem dos historiadores orais de seu país, soube como traduzir as expectativas interiores de cada um. O resultado é impactante.

Cada retrato é fruto de uma meticulosa reconstrução da realidade. É Sidibé quem sugere o gesto decisivo, quem arma cada cenário adequado, quem escolhe os adereços e define sua colocação na foto. Sua lente transforma pessoas comuns em personalidades, e a sessão de fotografia, em momento histórico para o retratado.

Ao final, em todos os retratos, de uma só pessoa, duas ou mais, sempre cenicamente agrupadas, o que sobressai são os rostos. Os rostos e as mãos. Isso é surpreendente, pois boa parte das fotos tem cenários repletos de listras, quadrados, xadrezes ou mosaicos que poderiam ofuscar ou diminuir a atenção devida ao retratado. Mas o talento de Sidibé está em obter justamente o efeito oposto: é o saturamento do espaço por formas e linhas carregadas que faz ressaltar o elemento que não é gráfico: o rosto humano. A lembrança mais duradoura que o artista pretende deixar gravada na imagem será sempre a de uma pessoa única, especial. Alguém que ilumina as conexões entre o passado e o presente através de uma das formas de expressão mais fundamentais da identidade africana – os tecidos de infinitas padronagens, em perfeita harmonia com o corpo.

Em outros retratos, Sidibé opta por fundos mais lisos e neutros, abstraídos de qualquer contexto, como se fossem fotos para documentos de identidade. E, de certa forma, é o que são: retratos em solo, duplas, trios, pequenos grupos ou agrupamentos maiores afirmando sua identidade e pertencimento. A Fundação Hasselblad compara o malinês ao mestre alemão que retratou a sociedade na República de Weimar: “Como August Sander, Malick Sidibé preservou a imagem desejada de um número incalculável de indivíduos e, ao longo desse processo, registrou a face da sociedade em transição que esses indivíduos formavam coletivamente como cidadãos. Ele foi o retratista de sua cidade e de sua nação, o tradutor visual mais vibrante do Mali.”

“Deus sorri para Malick”

Foi só em 1994, durante a primeira edição da entrementes clássica Bienal de Fotografia de Bamaco, que as obras de Sidibé e Seydou Keïta receberam a atenção dos jornalistas e críticos ocidentais convidados para o evento. O alumbramento parece ter sido geral, seguido da inexorável disputa para expor seus trabalhos no circuito internacional. Para Sidibé, iniciava-se uma nova vida de viagens, conferências e premiações, de que sempre participou com bonomia, simplicidade e sabedoria. Em 2003, recebeu o Prêmio Hasselblad. Em 2009, tornou-se o primeiro africano a ser agraciado com o Leão de Ouro na Bienal de Veneza.

Terminados os eventos, Sidibé sempre tratou de retornar a sua terra e retomar seu posto de observação na rua Bagadadji. Passou a dar aulas de fotografia e arte em escolas de Bamaco. Como diz madame Fanta, uma de suas esposas: “Deus sorri para Malick”.

Bem mais tarde na carreira, já nos anos 2000, o fotógrafo deu início a uma curiosa série intitulada Vista de costas, em que todos os protagonistas, em grupos ou sozinhos, são retratados de costas. O efeito desnorteia o espectador, e a intenção parece ser exatamente essa. Segundo Rowland Abiodun, professor de história da arte e estudos negros, a série foi feita para atingir um público essencialmente ocidental. Uma antítese visual, social e pessoal à forma como os fotógrafos europeus dos tempos coloniais retratavam e viam os africanos. Através desse recurso, o espectador estrangeiro perde a capacidade de compreender algo que passa para o conhecimento restrito do retratado e do autor da foto, ambos africanos.

No fundo, a dicotomia entre nativo e estrangeiro se faz presente no país até hoje. O mais recente capítulo dessa longa história ocorreu em janeiro de 2012, quando rebeldes tuaregues e radicais islâmicos afiliados à Al-Qaeda assumiram o controle da metade norte do país. Declararam o estado independente, batizaram-no de Azawad, impuseram à população obediência absoluta à lei da sharia e baniram a música e a televisão da vida pública. Centenas de milhares de malineses se puseram em fuga, e os países do Ocidente entraram em alerta com a possibilidade de um governo terrorista se estabelecer no coração da África.

Foi por essa cartada do destino que, meio século após a euforia da libertação nacional retratada por Sidibé, o Mali voltou a receber tropas francesas – desta vez, de braços abertos, como força decisiva para ajudar a implodir o avanço islâmico. Deu mais ou menos certo. Com o aval da ONU e sem reavivar demais as antigas tentações coloniais, a secessão foi contida, os franceses retornaram a suas casernas e o Mali realizou eleições livres em agosto passado. O principal inimigo do presidente eleito Ibrahim Boubacar Keïta voltou a ser o de sempre – a corrupção. E Sidibé sequer precisou sair da rua Bagadadji.

Premiado mundo afora, paparicado em solo pátrio como um Jorge Amado ou um Oscar Niemeyer, Malick Sidibé cruzou o milênio sem ter cogitado experimentar a fotografia digital. A última grande encomenda que aceitou foi em 2009, da revista dominical do New York Times: uma edição especial sobre as novas coleções de moda do ano, todas inspiradas em temas africanos.

Sidibé aceitou, propôs o já histórico Estúdio Malick como locação e emplacou vários membros de sua família de 80 pessoas como modelos. Quando a produção da revista desembarcou na rua Bagadadji com as extravagâncias assinadas por Prada, Christian Lacroix, Louis Vuitton e congêneres, o fotógrafo se sentiu em casa. O jornalista Andreas Kokkino, veterano de coberturas de moda, relembrou a cena: “Nestes tempos de câmeras digitais, eu estava acostumado à rotina de centenas e centenas de fotos para cada modelo. Pois Sidibé, com sua Rolleiflex, tirava só duas ou três fotos por modelo. Quando a filmagem acabou, ele tinha batido apenas 22 fotos!”

Mas ganhou o World Press Photo de 2009 pelo trabalho. ///

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

Malick Sidibé (1936) nasceu em Soloba, Mali. Recebeu o prêmio Hasselblad em 2003 e o Leão de Ouro pelo conjunto da obra na Bienal de Veneza em 2007.

+ Veja álbum dos bastidores do Estúdio Malick aqui.

A ZUM#6 está a venda na loja do IMS.

© Malick Sidibé, Cortesia Galeria Magnin-a, Paris

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