Revista ZUM 2

Nova Luz

Mauro Restiffe & Heloisa Espada Publicado em: 20 de junho de 2013
O fotógrafo paulista Mauro Restiffe fotografou um bairro histórico em vias de ser reinventado. A matéria foi publicada na revista ZUM # 2 em abril de  2012 e pode ser lida aqui na íntegra.

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Mauro Restiffe fotografou o bairro paulistano da Luz nos últimos dois meses, logo após a expulsão dos usuários de crack que vivem na região. A ação da Polícia Militar dispersou as pessoas com violência e foi seguida por uma nova série de demolições, iniciadas em 2010 pela prefeitura de São Paulo, quando o projeto urbanístico batizado de Nova Luz começou a ser executado. O objetivo é transformar radicalmente a antiga Boca do Lixo através de desapropriações e generosos incentivos fiscais para comerciantes, empresas e instituições que se encaixem no perfil de ocupação desejado pela prefeitura. É fácil entender o quanto o projeto é polêmico e o grau de tensão que provoca. Basta dizer que os proponentes pretendem “revitalizar” uma das áreas mais vivas da cidade, altamente movimentada pelo comércio de eletrônicos e pela venda ilegal de produtos piratas e de drogas pesadas.

O cenário é emblemático para uma cidade com problemas urbanísticos crônicos. É também um prato cheio para a fotografia documental. Mas não é exatamente isso o que Mauro Restiffe faz. Sua trajetória é marcada pelo registro de acontecimentos históricos, como a posse de Lula, em 2003, e a de Barack Obama, em 2009, embora os resultados deixem claro que Restiffe desconfia da fotografia como documento. Seu trabalho é sobretudo uma reflexão sobre como ver, como se posicionar e como registrar.

Uma das principais características das fotografias de Restiffe é que elas parecem muito mais antigas do que de fato são. Ele lança acontecimentos atuais, como as mudanças na região da Luz, num passado impreciso. Desde a década de 1990, o fotógrafo trabalha exclusivamente com a tecnologia analógica, usando filmes de 35 mm em preto e branco e de alta sensibilidade. Daí o granulado das imagens, que reforça a aparência antiga. Mauro também prefere os dias nublados, com luzes difusas e pouco brilho. As escolhas fazem com que suas fotos sejam densas e tenham um tom homogêneo, predominantemente cinza. A opção por uma tecnologia em vias de extinção é essencial para o sentido de suas imagens. A impressão de que são antigas chama a atenção para as precariedades estruturais que o país enfrenta de longa data, como, no caso, a dificuldade de integração da população iletrada que vive à margem das instituições.

Restiffe age discretamente. Na Luz e arredores, fotografou no fim do dia, com a região quase vazia, ainda iluminada por causa do horário de verão. Suas imagens descrevem o espaço. Como em outros trabalhos, ele aqui observa as cenas à distância, sem se envolver diretamente e quase sempre do ponto de vista do pedestre. Restiffe evita o inusitado, o espetacular e o anedótico, propondo um olhar mais reflexivo e demorado sobre o mundo.

Feito a convite da ZUM, este ensaio é o início de uma pesquisa sobre a região. O resultado se relaciona com outros projetos do artista sobre a situação da arquitetura moderna na cidade contemporânea, especialmente na América Latina. Seus trabalhos recentes abordam a noção de patrimônio histórico e propostas de desenvolvimento em sociedades de organização política e econômica deficiente. ///

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Heloisa Espada é doutora em história da arte pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi curadora da exposição Fotoformas e suas margens, no Centro Universitário Maria Antonia, entre outras.

Mauro Restiffe (1970) participou da 27a Bienal de São Paulo, do PhotoEspaña 2009 e do besphoto 2011, entre outros.

 

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