Revista ZUM 11

Limbo

Arthur Omar & Adolfo Montejo Navas Publicado em: 10 de março de 2017

I. Arthur Omar visitou o Afeganistão em 2002, a convite da 25ª Bienal de São Paulo, dedicada às cidades contemporâneas. A missão era chegar à cidade de Bamiyan, na região central do país, e de lá trazer fragmentos das enormes estátuas de Buda destruídas em março de 2001 pelo Talibã. Os fragmentos seriam exibidos na Bienal como gesto de resistência simbólica. Mas a viagem repleta de riscos logo se converteu, por força das circunstâncias, em rito de passagem marcado pelo encontro com a alteridade e deu origem, mais que a mera reportagem, ao exercício de antropologia visual e cultural reunido no livro Viagem ao Afeganistão (2010).

A antropologia atravessa a obra desse fotógrafo, cineasta, artista plástico, escritor e teórico sui generis – como em Antropologia da face gloriosa (1998) ou A lógica do êxtase (2001). A atenção plural às diversas formas simbólicas da cultura e da história, a construção de um olhar simultaneamente atual e extemporâneo, e, sobretudo, o reconhecimento do significado da imagem como “fenômeno antropológico total”, para usar a expressão do historiador da arte alemão Aby Warburg, derivam da familiaridade do artista com aquela disciplina. A força mitopoética da imagem é bússola e destino dessa obra comprometida com a percepção da diferença e com a variedade da experiência perceptiva.

Se um dos objetivos iniciais da viagem era “investigar o tema da iconoclastia, da destruição, da representação dos corpos e da ruína”, como diz o artista, a realidade posterior ampliou seu escopo e sua transcendência. A viagem à procura do rastro, da sombra, do vazio dos Budas de Bamiyan, como aponta o filósofo Antonio Negri, converte-se em uma busca de indícios (memento mori e deserto do real) de um passado implodido pelo fundamentalismo, uma busca própria da vocação da fotografia de enxergar o latente e a sobrevivência.

Longe dos estereótipos dos noticiários, da informação sinóptica das guerras da tv, a fotografia dessa viagem é uma exploração sem amarras que aponta para o que está fora do espaço cênico e real da lente. O contrato que temos com as imagens é revisado, alterando os lugares convencionalmente designados a autor e espectador. A experiência íntima da imagem, seja na comunhão dionisíaca com o objeto em questão, seja em sua interferência, é parte indissociável dessa poética e rejeita qualquer noção protocolar da etnologia como studium em favor da onipresença do punctum, pois a distância deve ser mínima: a exigência sensorial é potência emocional. Ao contrário do voyeur, o espectador entra em um franco corpo a corpo com as imagens. O repertório visual de Omar é simultaneamente caça e caçador. Não à toa, as perguntas do artista e fotógrafo ecoam, inquietantes: “O que é um retrato, o que é uma paisagem?”.

De um país devastado e de uma população dilacerada, submetida ao olhar maniqueísta do Ocidente, Omar consegue trazer outra luz, outra cultura cromática, outro contexto espiritual e cultural e uma verdade humanista rara: o encontro com o outro como dimensão poética. “Encontrar o outro: também este é um projeto filosófico atual”, segundo Negri. O retrato humano dessa viagem enobrece o olhar. O deslocamento produzido não é apenas geográfico ou superficial, mas desloca a posição do sujeito e altera a definição do objeto da viagem: “Qual é o estatuto da imagem e do olhar naquele país? Como os homens dali se comportam diante das câmeras?”. Ou seja: qual é o signo da recepção, da empatia?

Ruínas costumam ser retratadas como naturezas-mortas de uma paisagem reificada. Mas aqui elas não chegaram ainda ao estado de relíquia. As ruínas do Afeganistão não pertencem ao universo dos parques temáticos, em que tudo se destina a um olhar padronizado. Nessas imagens, a arquitetura da destruição está latejante, pulsa reivindicando seu direito visual de não cair na obscenidade, na alteridade domesticada pelos olhares instrumentais. Aliás, essas imagens não são melancólicas, elegíacas, não pertencem à vertente benjaminiana da ruína. As construções implodidas e explodidas, esburacadas, vazias, desoladas e sujeitas às intempéries, não fazem parte de um passado longínquo, ao tempo da revisitação; são de um presente ferido que ainda não faz parte do hiper-real ou do simulacro da história.

“Tudo se torna mais próximo, no tempo e no espaço”, afirma Omar em Viagem ao Afeganistão, “porque eu estive no lugar mais afastado de mim, e vivi, lá dentro, o não repouso absoluto, portanto, tudo agora é casa, como lá, que a casa não se dá no visível, o Paraíso não se atinge por transporte, nem é um lugar que se possa visitar, ou fotografar, ou mesmo perceber. Não há geografia que possa situar esse lugar. Todo o meu trabalho com imagem é feito a partir dessa suposição. Portanto, neste momento, revogo a totalidade deste livro.” As novas imagens de Limbo, desdobramento inusitado de Viagem ao Afeganistão, parecem ter escutado esse vaticínio.

II. Os dicionários registram vários sentidos da palavra “limbo”, para além do lugar onde, segundo a teologia católica, se encontram as almas das crianças que não foram batizadas. Limbo é também esquecimento; lugar em que coisas inúteis são descartadas (e resgatadas); o contorno luminoso de um astro; aquilo que está localizado no exterior de algo: margem, borda, rebordo.

Todos esses significados estão presentes nesta nova série de Omar. Se Viagem ao Afeganistão é uma aventura da percepção em um espaço geográfico em estado de convulsão induzido pelos ecos da guerra recente, numa fusão de passado milenar e história atual, Limbo dá corpo a uma situação artística paradoxal. Durante os ajustes de impressão do livro (ajuste de máquina, calibração de cor etc.), a simples entrada repetida de algumas folhas deu origem a visuais inesperados, sobreimpressões e superposições inauditas. Como numa fotomontagem do acaso, aleatória e imprevisível, em que a coparticipação da máquina é transcendental, o inconsciente óptico ativado pelo artista produz encontros de imagens dignos de uma performance fotográfica in loco.

A trama visual resultante possibilita o surgimento de paradoxos visuais, fulgurações cuja composição sobrepõe rostos e arquitetura, ruínas e olhares, terço de reza e imagens de minas explosivas, a face semioculta de um homossexual ou um olhar digno do êxtase de uma pintura barroca. Inesperadamente, a realidade de Viagem ao Afeganistão se reconfigura: as imagens se descolam ainda mais de sua origem (paisagem, história, imaginário), e aquele outro vislumbrado parece ter-se escondido, regressado a sua fonte primordial.

Grande parte do mérito do trabalho encontra-se na série original de retratos, que emergem de outro fundo e daquele olhar inteiro que vem de longe, criando uma linha do horizonte com quem olha (o fotógrafo em primeiro lugar, depois nós). Temos, assim, uma cosmovisão, um olhar mítico que é também aparição, olhar entranhado nas coisas, numa estranha comunhão com tudo. Em uma alquimia estética que condensa ainda mais seu páthos lírico e dramático, observamos a menina curtida pelo sol com a paisagem inscrita no rosto, talvez um dos ícones maiores – da ordem da alta poesia – deste conjunto cujas imagens invocam visualmente outra questão elaborada pelo artista: a relação entre “imagem e memória, entre a imagem e o tempo, e a memória sem imagem”. Se o livro foi virado do avesso, é também porque a sucessão de imagens desapareceu em favor de um olhar costurado, que funde uma imagem em outra, produzindo adensamento quase imaterial.

A superposição de olhares e de situações – situações que são retratos, retratos que são paisagens – parece sobrepor a história e a imagem numa nova dialética sem fim, sem solução satisfatória ou determinada, oferecendo apenas sua verdade conflitante. Como fotografias grávidas de si mesmas – a fotomontagem mantém sempre certo estado de suspensão, de irrealidade –, abrigam a potência infinita de uma abertura. Revelam uma matriz visual, anunciando a deriva por vir. As imagens falam ainda mais alto de suas vidas anteriores, de seu caráter de fábula encantatória, como em uma ressurreição visual que questiona o conhecimento perceptivo: ver para descobrir. ///

Arthur Omar (1948), fotógrafo e artista multimídia brasileiro de Poços de Caldas (MG), é autor de Antropologia da face gloriosa (1998), O esplendor dos contrários (2003), Viagem ao Afeganistão (2010) e Antes de ver (2014).

Adolfo Montejo Navas (1954) nasceu em Madri e mora há 24 anos no Brasil. Recebeu o prêmio Mário Pedrosa de ensaio e cultura contemporânea (2009) e o prêmio Marc Ferrez de fotografia (2015), na categoria de reflexão crítica, com Fotografia / poesia (afinidades eletivas).

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