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Holandesa Rineke Dijkstra ganha o prêmio Hasselblad 2017

Publicado em: 09 de março de 2017

A fotógrafa holandesa Rineke Dijkstra é a ganhadora do prêmio da Fundação Internacional Hasselblad 2017. Um dos mais prestigiados do mundo, o prêmio destaca anualmente fotógrafos cujo trabalho tenha contribuído de forma relevante para o desenvolvimento da fotografia enquanto linguagem e técnica. Sobre a escolha de Rineke este ano, a fundação destaca que seus retratos “lembram a acuidade visual dos retratistas holandeses do séc. XVII”.

Retratos de Rineke da série “O Parque” foram publicados na edição #6 da revista ZUM, com apresentação do premiado escritor Cees Nooteboom. Nele, o também holandês Nooteboom comenta a força dos retratos de Rineke e a surpresa com a confrontação que é forçado a experimentar, “uma confrontação com uma forma de olhar que já não é a minha, e não me refiro com isso ao olhar da fotógrafa, mas ao olhar das crianças que ela fotografa, ao olhar de seus modelos. O que torna suas fotos tão diferentes de uma foto de criança qualquer?”

A resposta para essa pergunta passa pelos mais de 30 anos de carreira dedicados ao retrato, usando tanto a fotografia como o vídeo. Suas fotos e filmes em grande formato retratam crianças, adolescentes e jovens adultos, explorando o momento de formação de suas identidades e os percalços envolvidos no processo.

Essa característica está presente em seus primeiros trabalhos, do início dos anos 90, como na série Retratos de Praia (1992 – 2002), em que ela retrata crianças e adolescentes em praias da Europa e dos Estados Unidos. Paradas diante de sua câmera, as emoções e a vulnerabilidade típicos dessa passagem da infância para a adolescência revelam-se diante de nossos olhos em cada retrato.

Outra parte importante de sua obra são as séries Olivier (2000-20003) e Shany (2002-2003), em que Rineke acompanha o processo de recrutamento e os primeiros anos de serviço militar de dois jovens: Olivier na Legião Estrangeira francesa; e Shany no exército israelense.

A partir do meio dos anos 90, a fotógrafa começou a explorar o vídeo como meio de expandir sua visão sobre as crianças e os adolescentes. No seu trabalho mais recente, iniciado em 2014, Rineke tem filmado garotas ensaiando e se preparando para audições na famosa academia de balé Vaganova, em São Petersburgo. Tais filmes, feitos com a câmera fixa em uma única posição, parecem fotografias em movimento, capturando momentos delicados e fluídos na busca de instantes de beleza e apreensão.

Outra característica notável da obra de Rineke são seus projetos de longo prazo, retratando as mesmas pessoas por vários anos, testemunhando as mudanças e desenvolvimento de suas personalidades. Um bom exemplo deste tipo de projeto, ainda em andamento, são as fotos iniciadas em 1994 de Almerisa Sehric, uma garota bósnia de seis anos que Rineke conheceu em um centro de refugiados na Holanda. Desde então, Rineke vem fotografando a infância, adolescência e entrada na vida adulta de Almerisa, em sua interação com a cultura e forma de viver holandesa. Sua abordagem íntima e pessoal do tema dos refugiados vai na contramão de visões estatísticas e do anonimato que se esconde atrás de números.

O júri internacional do Prêmio Hasselblad 2017, presidido por Duncan Forbes (ex-diretor do Fotomuseum Winterthur) também contou a participação de Jennifer Blessing (curadora sênior do Museu Guggenheim de Nova York), Simon Njami (curador parisiense), Esther Ruelfs (chefe do departamento de fotografia e novas mídias do Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo) e Mark Sealy (curador e diretor da Autograph ABP de Londres). Segundo Forbes, a obra de Rineke ressalta as qualidades do retrato fotográfico: a rica interação existente entre o retratado, o fotógrafo e o espectador. “No momento atual, em que os retratos se dissolvem em uma economia de narcisismo e celebridades instantâneas, o trabalho de Rineke nos lembra do potencial público do retrato”, comenta o presidente do júri.

O prêmio da Fundação Hasselblad existe desde 1980, e já foi concedido a grandes nomes da fotografia mundial, como Ansel Adams (1981), Henri Cartier-Bresson (1982); Sebastião Salgado (1989), Robert Frank (1996), Malick Sidibé (2003), Nan Goldin (2007), Graciela Iturbide (2008), Paul Graham (2012) e Wolfgang Tillmans (2015). A entrega do prêmio acontecerá na sede da fundação na Suécia, em outubro, acompanhada de uma exposição retrospectiva do trabalho de Rineke e do lançamento de uma monografia. ///

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