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Na abertura, Museu da Fotografia Fortaleza mostra a diversidade de sua coleção com quatro exposições

Iana Soares Publicado em: 19 de abril de 2017

Fachada do Museu da Fotografia Fortaleza, por Celso Oliveira

O mesmo conselho dado por Marco Polo ao imperador Kublai Khan diante da vastidão de seu império em As cidades invisíveis, de Italo Calvino, pode ser oferecido ao visitante que entra pela primeira vez no Museu da Fotografia Fortaleza: de uma fotografia, assim como de uma cidade, não aproveitamos apenas “as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas. Ou as perguntas que nos colocamos para nos obrigar a responder, como Tebas na boca da Esfinge”. Ao ver imagens de Henri Cartier-Bresson, Steve McCurry, Man Ray, Rosângela Rennó, Pierre Verger, Claudia Andujar, Sebastião Salgado e outros tantos mestres da fotografia mundial, é necessário ser um viajante atento e curioso para apreender a diversidade que temos diante dos olhos.

Inaugurado no início de março, o Museu da Fotografia Fortaleza apresenta ao público mais de 400 obras nacionais e internacionais que fazem parte da coleção Paula e Silvio Frota. Quatro exposições, divididas nos três andares do prédio de 2.500m2 projetado pelo arquiteto Marcus Novais, apresentam a imersão do curador Ivo Mesquita, ex-diretor artístico da Pinacoteca de SP, no acervo que ultrapassa as 2.000 imagens.

O fato de o empresário Silvio Frota ter iniciado sua coleção de obras fotográficas a partir de critérios de gosto pessoal talvez explique a variedade da seleção: fotografias históricas, de reportagens, retratos, paisagens, publicidade e outras já consagradas no campo da arte contemporânea compõem o arquivo. Os eixos escolhidos por Ivo Mesquita, nas quatro exposições, são pouco explícitos e reforçam essa profusão, sem aprisioná-la em um discurso curatorial limitador. Algumas imagens exibidas no MFF remetem àquelas que ainda não foram apresentadas ao público, pois integram séries maiores ou são recortes na produção de determinado fotógrafo. Nesse jogo, o espectador pode imaginar outros roteiros possíveis dentro da coleção, organizados tanto por temas, como por marcos temporais ou mesmo por autor.

Congresso nacional II, de Marcel Gautherot

Abrindo mão de uma narrativa cronológica, a exposição temporária Imaginário de Cidades, no térreo do museu, traz um mosaico sobre questões urbanas no mundo. Luis Gispert, em Cemitério (2011), coloca o espectador dentro de um carro, bem ao lado do alegre pintor da Torre Eiffel, de Marc Riboud. As escolhas iniciais da curadoria já apontam que, mais do que ter como fio condutor o artifício do tempo e um viés evolucionista, pautado pelas transformações tecnológicas do meio fotográfico ou mesmo da paisagem, a busca foi por criar conexões, diálogos e também distanciamentos entre as imagens.

O Rio de Janeiro, por exemplo, surge tanto na fotografia de Marc Ferrez, ainda no século XIX e sob encomenda de Dom Pedro II, como no painel iluminado de Betina Samaia, em uma imagem da série Noturnos (2013). As fotos de José Medeiros e Bina Fonyat conversam sobre a praia de Copacabana. A graciosidade e o instante decisivo do transeunte que salta Atrás da estação São Lázaro (1932), em uma das fotografias mais famosas de Henri Cartier-Bresson, flertam com as Meninas no bairro da Liberdade (1940), de Hildegard Rosenthal, que se lambuzam com seus picolés. O voyeurismo da série Numa janela do Prestes Maia 911 (2008), de Julio Bittencourt, marca um olhar mais contemporâneo de fotorreportagem na coleção. É preciso tempo e até mais de uma ida ao MFF, para investigar as especificidades de cada imagem e também as conexões entre elas. Seria interessante que fosse oferecido um catálogo, ainda que virtual, para esse percurso continuar mesmo após a visita.

Águas termais, de Otto Stupakoff.

Victor Dragonetti, nascido em 1991, é o fotógrafo mais jovem presente no museu e aparece com imagens das manifestações ocorridas em São Paulo, em 2013, com as quais ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo. Feitas 40 anos antes, e reunidas agora na mesma exposição, as imagens do veterano Evandro Teixeira narram a ditadura no Brasil e criam pontes históricas entre as manifestações populares.

Baldes (2009), de Patrick Hamilton, é a única obra que rompe com o rigor da parede ao expor algumas fotografias noturnas dentro de baldes iluminados. Ainda que destoe do conjunto geral da curadoria, a presença dessas imagens indica o interesse do colecionador em reunir trabalhos que também saiam da moldura na parede, trazendo outras questões para o espaço expositivo.

Menina afegã, de Steve McCurry.

Ainda no térreo, no final de um corredor, a Menina afegã (1984), de Steve McCurry, faz a transição para a exposição Sobre Crianças. Mesmo reproduzida à exaustão em revistas, livros e internet, a fotografia que ressalta os olhos da menina Sharbat Gula sempre causa impacto.  Esta imagem, vista há nove anos em uma exposição de McCurry em Houston, mudou o rumo da coleção de Paula e Silvio Frota, até então focada em pintura.

Nesta exposição, a menor das quatro que inauguram o museu, é possível encontrar obras de Claudio Edinger, Thomaz Farkas, Adriana Duque, entre outros. Gabriel Chaim, presente também em Imaginário de cidades, mostra retratos de crianças de Aleppo, atingidas pelos conflitos na Síria. Sobre crianças também será ponto de partida das ações educativas com crianças em situação de vulnerabilidade social, expandindo o alcance do museu. Serão realizadas oficinas de fotografia em bairros e escolas e o resultado será exposto no mesmo espaço.

Jovens de Aleppo, de Gabriel Chaim.

Em Jogos de olhares, no primeiro andar, fica ainda mais explícito que não existe um princípio curatorial primordial e unificador nas exposições. Ao reunir a multiplicidade de gosto dos colecionadores, afirma-se mais uma vez que foi priorizada a exibição da diversidade do acervo. Em princípio, esta mostra tem caráter permanente, com possíveis variações a partir da própria coleção.

A mãe migrante (1936), de Dorothea Lange, está reunida com obras de Man Ray e Cindy Sherman. Uma das imagens mais significativas da segunda guerra mundial, feita em 1945 por Joe Rosenthal, ganhador do prêmio Pulitzer, mostra soldados norte-americanos fincando a bandeira dos Estados Unidos em Iwo Jima. A presença de O soldado caído (1936), de Robert Capa, também impressiona quem já conhece a história da fotografia.  Em outra parede, Che Guevara, Frida Kahlo, Igor Stravinsky e Richard Avedon parecem conversar sobre o tempo. É nesta exposição que aparecem autores mais relacionados à fotografia contemporânea e o hibridismo de técnicas. Além de Ação 3 (2005), série do cearense Yuri Firmeza marcada pela performance, há também duas fotografias de Adriana Varejão com o mesmo viés. Esses encontros apontam a possibilidade do Museu da Fotografia Fortaleza tornar-se um espaço de formação e valorização desta linguagem, nacional e internacionalmente.

sem título, de Man Ray.

No segundo andar, a exposição O norte e o nordeste traz autores nascidos ou que direcionaram o olhar para essas regiões. O litoral e o sertão são protagonistas em fotos de Marcel Gautherot, Tiago Santana, Pierre Verger e Gentil Barreira. A série com crianças Tapebas, de José Albano, enfatiza certa tradição fotojornalística na região. Os retratos de Mário Cravo Neto, com um olhar pessoal sobre o candomblé, também são destaque. A força e o mistério de Miguel Rio Branco podem ser percebidos no políptico O grito, porta da escuridão (1996), presença significativa na mostra.

Zo’é, de Rogério Assis.

Deus da cabeça, de Mario Cravo Neto.

Ainda neste pavimento, Chico Albuquerque (1917-2000) ganha uma sala especial no ano em que o seu centenário de nascimento é comemorado. Em É tudo verdade – Chico Albuquerque e Orson Welles, o espectador pode ver o encontro entre o cearense e o cineasta norte-americano, durante a gravação do filme É tudo verdade, em 1942. Neste espaço, há também um vídeo com entrevistas gravadas com o fotógrafo. A sua trajetória na publicidade, que o consagra nacionalmente, ficou de fora.

Mucuripe, de Chico Albuquerque.

Nesta primeira série de exposições fica claro que a coleção é pautada essencialmente pelo gosto do colecionador. Ainda que diversificado, é perceptível um forte interesse por imagens já consagradas na história da fotografia. Abrir o acesso a este acervo privado é um gesto relevante. Para a inauguração, a escolha da curadoria de apostar na diversidade, sem ter um discurso conceitual mais estabelecido e privilegiando a presença de imagens icônicas, permite atingir um público amplo, formado não apenas por fotógrafos e artistas. Mas para firmar-se como um espaço de referência nacional e internacional, será preciso ir adiante e experimentar mergulhos mais profundos tanto na coleção, como em percursos que ultrapassem as fronteiras do acervo, através de curadorias ousadas que estabeleçam formulações mais contundentes. Além de reverenciar os mestres, o MFF pode se destacar ao descobrir e exibir artistas que experimentem mais com a linguagem fotográfica. Transformar-se em um pólo não só de difusão, mas também de formação, pode ser uma estratégia para consolidar o espaço.///

 

Iana Soares é fotógrafa e jornalista. Mestre em Criação Artística Contemporânea pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, é editora de fotografia do Jornal O POVO, em Fortaleza.

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