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O espírito de Rosângela Rennó

Luisa Duarte Publicado em: 06 de janeiro de 2017
Série <em>Lanterna mágica</em>, 2012. Foto: Gabriela Carrera

Série Lanterna mágica, 2012. Foto: Gabriela Carrera

Rosângela Rennó vem construindo ao longo das últimas duas décadas uma das pesquisas mais consistentes no campo da arte contemporânea brasileira. Sua obra possui uma alta voltagem política, sem por isso ser panfletária; dialoga com a história, sem cair no citacionismo; encontra-se dentro do circuito estabelecido e consegue, de dentro, inserir um ruído crítico em relação a este mesmo circuito. Se a artista é conhecida pela fotografia, vale recordar para o leitor mais distante que Rosângela raramente fotografa. É na apropriação de imagens já existentes que ela tece sua resistência diante de um mundo saturado de imagens. Mundo que perde, pouco a pouco, o vínculo com a dimensão fantasmagórica da vida. No lugar das sombras, há excesso de luz; no lugar do encantamento, o pragmatismo; no lugar da curiosidade diante dos mistérios, a ânsia por respostas; ao invés do sono e dos sonhos, a vigília 24 por 7.

O espírito de tudo, exposição em cartaz no Oi Futuro do Flamengo, com curadoria de Evangelina Seiler, conforma-se como uma sofisticada operação visual e discursiva com vias a recuperar a dimensão espiritual perdida em um mundo desencantado. Mas tal operação jamais é realizada sob um ponto de vista nostálgico, tampouco binário. A mostra tem início com a obra Per fumum, cuja tradução é “através da fumaça”. Ao evocar esse ente ordinário do nosso cotidiano, o perfume, a artista dá a senha para o que irá guiar todo o percurso expositivo. Entramos em contato com um trabalho que habita, justamente, o limiar entre o visível e o invisível. Tal como a fumaça, que podemos ver mas jamais apreender, tocar, assim também é o cheiro que esses frascos exalam. Suas fragrâncias têm o poder proustiano de, em um átimo, nos remeterem a tempos, locais e pessoas que habitam o passado.

<em>Per fumum</em>, 2010-2014. Foto: Gabriela Carrera

Per fumum, 2010-2014. Foto: Gabriela Carrera

A relação entre visível e invisível prossegue na instalação Lanterna mágica, na qual ampliações fotográficas em preto e branco, realizadas em papel à base de sais de prata e gelatina, encontram-se maculadas por uma grande mancha escura que toma todo o seu centro, formando uma espécie de buraco negro. Essas máculas foram provocadas por um deliberado excesso de luz irradiado sobre as suas superfícies, gesto provocado pela artista. As ampliações são acompanhadas por oito “lanternas mágicas” – projetores antigos do século 19 e do início do século 20. Somos convidados a manipulá-las, de forma a projetar sobre as paredes, ao lado das ampliações, visões agora imaculadas das mesmas paisagens. A artista faz uso da luz para produzir efeitos opostos, ora de aparição, ora de apagamento. Note-se que cada uma das projeções dura um tempo breve. Acionamos as lanternas, somos tomados pelo encantamento e, quando nos damos conta, tudo se apagou, deixando somente os vestígios na memória. Rosângela parece nos recordar aqui a possibilidade de alargarmos o tempo de dedicação a uma mesma imagem em uma época marcada pelo déficit de atenção.

Série <em>Lanterna mágica</em>, 2012. Foto: Gabriela Carrera

Série Lanterna mágica, 2012. Foto: Gabriela Carrera

A dimensão da espera torna-se fundamental. E é justamente esta que encontra-se perdida em uma época na qual todo tempo “vazio” é preenchido. Ansiosos, passamos os dedos pelos celulares diariamente entrando em contato com milhares de imagens que serão, poucos segundos depois, esquecidas. Em Lanterna mágica, por um lado, a artista veda a imagem – procedimento característico de sua obra – e, por outro, deixa-a existir por uma duração breve. Assim, existe aqui a indução a uma atenção redobrada diante daquilo que sabemos que irá acabar, como também entra em cena a magia que somente o tempo da espera pode instaurar.

<em>Realismo fantástico</em>, 1991-1994. Foto: Gabriela Carrera

Realismo fantástico, 1991-1994. Foto: Gabriela Carrera

A experiência de um mundo no qual fenece nossa capacidade de esperar é a mesma que nos coloca em um caldo de aceleração. Um frenesi por mudanças acompanha a corrida proposta por uma sociedade de consumo onde a ansiedade impera. Uma urgência de satisfação e uma sensação de vazio permeiam o ar. Nessa dinâmica, toda demora, também a demora da satisfação, perde seu significado, afinal, parece não haver ponto de chegada. Esse mundo em constante movimento gerou uma figura emblemática, a do turista.

Sabemos que o turista é a figura exemplar do consumidor apressado de paisagens e culturas, sempre visando um resultado diante daquilo. Daí a necessidade de tudo fotografar e postar, mesmo que jamais tais imagens sejam revistas algum dia. O turista seria o oposto do viajante do século XIX, para o qual o percurso era mais importante do que o destino final. A grande instalação Turista transcendental”, que ocupa todo o segundo andar do Oi Futuro, encarna uma mescla de ambos. Ao longo de dezenas de projeções acompanhadas de textos e áudios, somos levados a uma imersão por diferentes paisagens do mundo. Valendo-se de uma voltagem crítica que faz uso do humor e da ironia, Rennó edifica um admirável pensamento poético que se apropria da figura do turista para, a partir daí, sinalizar o que seriam novos e inauditos modos de nos relacionarmos com o tempo, o espaço, e com aquilo que é da ordem do intangível.

O turista transcendental seria uma espécie de utopia de nosso tempo. Munidos de celulares, podemos facilmente nos somar à legião de zumbis ventríloquos na era das selfies, nos tornando parte da engrenagem sintomática que o filósofo italiano Giorgio Agamben batizou de “vida nua”. A hipótese do “turista transcendental” seria justamente o reverso disso; como diz a artista:

“O turista transcendental é, então, aquele que, ao viajar para um lugar, traz junto consigo a memória de outro lugar. No plano teórico, se sua mirada é prospectiva, funciona como se, ao contemplar o mar, se preocupasse mais em demonstrar que aquela imensidão azul é a mesma que toca todos os demais continentes. De maneira oposta e retrospectiva, seria como olhar para um seixo rolado tentando mapear todas as pedras espalhadas pelo mundo que foram nascidas da mesma rocha. Na prática, ao documentar uma paisagem exótica, ele agrega, de forma alegórica, dados pertinentes a outros povos e lugares, como se construísse entre eles pontes delicadas, multidirecionais, permitindo-se novas travessias e amalgamando tudo isso a sua própria noção de paisagem. O foco de sua câmera de vídeo é ao mesmo tempo preciso e difuso e convida a todos a imaginar experiências muito além do mundo material.”

Da instalação <em>Círculo mágico</em>, 2014-2016

Da instalação Círculo mágico, 2014-2016

Nas palavras de Rosângela fica claro o caráter benjaminiano de seu pensamento, exposto de maneira evidente no trabalho Círculo mágico”, que faz referência direta ao ensaio “Desempacotando uma Biblioteca”, de Walter Benjamin, no qual o autor afirma que “o maior fascínio do colecionador é o de encerrar cada peça num círculo mágico onde ela se fixa, se congela”. O ato de colecionar ecoa, por sua vez, naquela que talvez seja a obra mais sutil de toda a exposição, As águas viajantes. A artista se apropriou das vitrines do centro cultural – antigo museu do telefone –, usadas para exibir toda sorte de aparelhos de comunicações, e inseriu nas mesmas frascos de perfumes colecionados ao longo de anos. Esse encontro improvável resume o ethos da exposição como um todo. Em meio a telefones do século XIX e smartphones do XXI, signos maiores de uma vida regulada pelo controle e a ansiedade do tempo por vir, os vidros de perfume. Elemento etéreo, mas com o poder de nos conectar ao presente e, simultaneamente, deflagrar a rememoração, um tipo de reenvio entre tempos distintos de natureza proustiana, em tudo oposta ao tipo de relação temporal cristalizada que os celulares encarnam. Instrumentos vendidos como sinônimo de liberdade, mas, em realidade, mecanismos de uma ciranda de controle da qual voluntariamente participamos. Como disse Italo Calvino:

“Como epígrafes num alfabeto indecifrável, do qual metade das letras tenham sido apagadas pelo esmeril do vento pesado de areia, assim permanecereis, perfumarias, para o homem futuro sem nariz. […] Nossas narinas surdas não mais captarão as notas da escala: os aromas almiscarados não serão distintos dos citrinos, do âmbar e do resedá, a bergamota e o benjoim permanecerão mudos, presos no sono calmo dos frascos. Esquecido o alfabeto do olfato, que produzia outros tantos vocábulos, com um léxico precioso, os perfumes permanecerão sem palavras, inarticulados, ilegíveis.”

<em>Águas viajantes</em>, 2016. Foto: Gabriela Carrera

Águas viajantes, 2016. Foto: Gabriela Carrera

A passagem, datada de 1972, que acompanha As águas viajantes na exposição, fala de um futuro que é o nosso presente. Se até hoje a artista vem construindo poeticamente o que seria uma alfabetização do olhar em um tempo saturado de imagens, porém raquítico em seu poder de lê-las, descortina-se aqui o que seria um alfabeto do olfato. Rosângela percebe que uma relação com o espírito mais direta se dá, tal como na música, no olfato. Modo etéreo, sem intermédio material. Mas, para a artista, “ler” se faz importante. Mas como se lê um perfume? É extremamente difícil “ler” um aroma, e isso a interessa. Existe aí uma pista preciosa sobre nossa capacidade de lidar com o mundo e os outros através dos sentidos mais finos. Não somos, tampouco precisamos ser, do tamanho que um celular nos forja.

O espírito de tudo reafirma Rosângela Rennó como uma das artistas contemporâneas brasileiras mais capazes de apreender o nosso zeitgeist. Isso não é pouco. Exposição para ser vista, e revista.///

 

Luisa Duarte é crítica de arte e curadora independente. Atua como crítica de arte do jornal O Globo desde 2009. Mestre em filosofia pela PUC-SP, organizou, com Adriano Pedrosa, o livro ABC – Arte brasileira contemporânea (Cosac Naify, 2014).

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