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Encontrar-se desamparadamente vivo no mundo: “ZZYZX”, de Gregory Halpern

Humberto Brito Publicado em: 09 de dezembro de 2016

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A primeira imagem de ZZYZX (Mack, 2016), de Gregory Halpern, vencedor este ano do prêmio Paris Photo-Aperture de Fotolivros, é a de uma mão tatuada na palma com sete estrelas, virada para o sol. Não há como saber se a mão está subindo ou descendo; se é o fragmento de um aceno, a expressão de uma súplica, um pedido de socorro etc. A julgar pelas unhas sujas do sujeito, pelo aspecto malfeito ou pela posição inusitada da tatuagem, é talvez a mão de um morador de rua acordando de ressaca no meio da tarde na via pública, protegendo-se da luz ofuscante; mas também pode ser uma vítima resguardando-se numa briga de rua, gesticulando que basta, jogo a toalha, parem de bater. Não é de crer que seja a mão de um ator, embora não seja de excluir a hipótese de a imagem ser meio encenada. Ou talvez seja tudo muito mais simples. Basta imaginar alguém dizendo: ei, estou aqui.

Declarando a sua própria ambiguidade, esta imagem-prelúdio tem também uma natureza política: afirma o ceticismo de Halpern quanto às aspirações de objetividade da fotografia documental. Ou, antes, afirma a ambiguidade como ethos do seu trabalho – e, em especial, deste livro. “Talvez a maior ofensa que um fotógrafo pode cometer seja a de fazer uma imagem simplista de outra pessoa, uma imagem que seja facilmente interpretável, negando assim ao sujeito toda e qualquer complexidade”, defendeu numa entrevista de 2013 ao American Suburb X, enquanto preparava ZZYZX.  “Haver uma cultura que admita a possibilidade da ambiguidade, da dificuldade e da contradição no trabalho de aspecto documental” seria, nas suas palavras, “um sinal de progresso”.

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Num episódio recente de Magic Hour, referindo-se às razões pelas quais abandonou a abordagem documental de Harvard Works Because We Do (Quantuck Lane, 2003), Halpern confessa que nesse primeiro livro “não podia admitir contradições, porque tinha uma agenda: precisava clarificar um ponto político […] e aí cada imagem tinha uma função e não podia haver margem para confusões” – imagens que passaram a parecer-lhe, no entanto, “demasiado fáceis, manipuladoras”. Embora “continue a acreditar na justificação política desse projeto, penso que, em última instância, não é muito interessante enquanto arte […] Então senti-me ficando cada vez mais interessado nas imagens [que não podiam entrar naquele projeto, porque não serviam a sua agenda] – imagens que complicavam a narrativa, ou contradiziam alguma coisa, e é assim que o mundo é: sempre contraditório e idiossincrático, e eu gosto disso, sabe?”.

Halpern promove tal viragem metodológica com A. (J&L Books, 2011), uma deambulação em torno do Rust Belt norte-americano numa “primavera pós-apocalíptica” – de que o livro ZZYZX, aliás, alfabeticamente simétrico, como notou Adam Bell, pode ser entendido como uma sequela. Mas ao contrário de A., cuja força narrativa reside em não abdicar de um laço forte com a vida pós-industrial de um território geograficamente visitável (um bastião da hoje chamada América de Trump), não nos devemos deixar levar pelas semelhanças entre a paisagem de ZZYZX e a paisagem do sul da Califórnia. É verdade que, perdido no deserto de Mojave, subsiste um lugar chamado “Zzyzx, Califórnia”, cujo nome se deve a uma espécie de Trump gone wrong (e haverá outro tipo de Trump?), o radialista-pastor evangélico-autoproclamado-médico Curtis Howe Springer, conhecido pela American Medical Association como o “Rei dos Charlatães”, que em 1944 ali procurou estabelecer um colônia de termas de água mineral, de propriedades milagrosas. Batizou-a de “Zzyzx” por esta ser, alfabeticamente, a última palavra da língua inglesa e, por conseguinte, “a última palavra” em questões de saúde. Seja como for, da Zzyzx do Mojave a de Halpern tem apenas o nome e, quem sabe, aquele sentido de desespero e de fim-de-linha que caracteriza a maioria das vidas por ele fotografadas.

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Partindo de imagens feitas em torno de Los Angeles, a ZZYZX do livro de Halpern corresponde antes a uma urbe distópica de beleza e proporções formidáveis que, segundo ele, vem assombrando os seus sonhos há anos. Qualquer ligação com Los Angeles e com uma certa Weltanschauung hollywodesca, a cujos centros de poder todo este desperdício humano permanece todavia distante e negligenciável, será um pouco abusiva – e, ao mesmo tempo, nada abusiva. Abusiva na medida em que Halpern se limita a usar imagens feitas em torno de LA para descrever, ou antes, para reconstruir um sonho: uma peregrinação do deserto em direção a uma espécie de Pacífico, ele mesmo um fim-de-linha do Ocidente – um vasto beco sem saída da civilização. Estratagema que não deixa porém de esconder uma visão (justificadamente) azeda quanto ao destino político do seu próprio país.

No entanto, voltando um pouco atrás, o que também há de extraordinário naquela primeira imagem (a mão tatuada) é que, declarando a sua própria ambiguidade, ela não deixa de declarar o ponto onde a ambiguidade termina. De pouco importa o contexto e o significado original daquele gesto; de pouco importa a identidade, as crenças ou o gênero da pessoa fotografada. Mas importa, sim, que se trate de um indivíduo. Eis o fim-de-linha hermenêutico daquela abertura, sugerindo que a indexicalidade não tem, nesta obra, um alcance documental, mas antes existencial; no fundo, ei, estou aqui é tudo o que precisamos compreender. A razão por que isso importa é a de que, tal como em A. – e, de certa maneira, em Harvard Works Because We Do (os seus outros livros são casos especiais) – parece ser este o grande motivo de interesse de Gregory Halpern: o que significa encontrar-se desamparadamente vivo, vulnerável, lançado no mundo.

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Eis a melhor leitura que me ocorre para a imagem que, não por acaso, dá origem à capa de ZZYZX. Tudo menos um capricho visual, a capa é a versão simplificada de uma fotografia em que duas pessoas surgem sentadas no chão jogando damas com moedas num tabuleiro de cartão improvisado. Se repararmos, o quadriculado do tabuleiro rima mais do que vagamente com o quadriculado do pavimento; um dos jogadores aponta para o tabuleiro, como se apontasse para si mesmo no mundo – peça de um jogo antigo cujas regras esquecemos quem inventou. Tal como no vocabulário inglês para este jogo antigo, existe no livro de Halpern a distinção recorrente e de largo curso entre “men” (peças simples) e “kings” (damas), na perspectiva dos quais qualquer esperança de inteira liberdade de movimentos não passa contudo de uma breve ilusão. A certa altura, vê-se passar um casal sem-teto carregando às costas todas as suas posses, evocando a obstinação de pioneiros em caravanas pelo amplo Oeste americano; vem então à memória a imagem do tabuleiro, e o dedo apontado ao desposicionamento das peças, e ei-los presos na liberdade.

A um antigo aluno de história e literatura em Harvard, como Halpern, não terá deixado de ocorrer a semelhança evidente entre as sete estrelas tatuadas e as Plêiades, as Sete Irmãs, que protagonizam mitologias em ambos os hemisférios. Claro que não existe uma cidade onde não exista uma mitologia. Assim se percebe que a primeira parte de ZZYZX corresponda, por esta ordem, a uma espécie de cosmogonia: um Gênesis seguido de um Centauro, seguido de pinturas rupestres, seguidas de uma atmosfera babilônica na vizinhança de uma espécie de Templo. As tonalidades mesopotâmicas da Califórnia emprestam à abertura de ZZYZX o aspecto de um Velho Testamento sci-fi, que apenas termina quando o deserto intercepta a freeway. Daí em diante a peregrinação é pontuada pelo encontro com seres humanos e não humanos, igualmente sós, vulneráveis e desorientados na sua condição animal – salvo, porventura, em dois casos: um idoso branco tatuado, de costas, de longos cabelos brancos, e uma idosa negra lindíssima, da idade do mundo, trajando um casaco de pele branco, ambos anjos despejados de qualquer céu.

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Tal como em A., vemos ainda em ZZYZX o interesse de Halpern pelo cabelo humano enquanto sinal de uma dignidade irredutível e eflorescente: uma prova exterior de sentimentos e, portanto, de humanidade. Quer por recurso a aberturas amplas (desfocando o plano posterior da imagem), como a modos de simplificação cromática, todos os habitantes de ZZYZX são retratados isoladamente, realçando a sua existência como indivíduos. Halpern não lhes recusa o benefício da sorte, da falha, da ambiguidade, da esperança, da contradição. Algumas das rimas visuais são desarmantes: os cabelos ruivos de uma moça e um resto de fogo no bairro; a gargalhada de um negro desdentado a par de um para-brisa estilhaçado; o sorriso desdentado de um outro mendigo, de tronco nu, com o rosto sujo de fuligem, comparado com um túnel rodoviário, à esquerda; e a pergunta: o que sustenta tudo isso? formulada por referência aos frágeis andaimes que restam de um incêndio, seguidos da sobrevivente sexagenária examinando para sempre a pergunta “pode alguém começar do zero, refazer a vida?”, fazendo lembrar uma casa queimada lembrando-se de quando ainda estava de pé (como sugere o díptico imediatamente seguinte). E então vem à memória a imagem do jogo de damas – e eis-nos peças do mesmo tabuleiro, movendo-nos às cegas por uma espécie de ZZYZX, procurando sentido. No final, o fogo cobrirá a terra; haverá então um dilúvio; e as águas cobrirão um campo de abóboras. Mas sentido? Sentido, não.///

 

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ZZYZX
Gregory Halpern
Mack
2016
128 pp., 77 ils.
24 x 29 cm

 

Humberto Brito leciona Literatura Portuguesa e Brasileira e é pesquisador do Instituto de Filosofia da Nova e do Programa em Teoria da Literatura, em Lisboa. Fundou e dirige a revista Forma de Vida. É também fotógrafo e escreve sobre fotografia para o jornal online Observador.
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