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Entre a técnica e o discurso: resenha de “Foto 0 | Foto 1”, de Wagner Souza e Silva

Maria Hirszman Publicado em: 07 de novembro de 2016

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Foto 0/Foto 1 (Edusp, 2016), tese de doutorado de Wagner Souza e Silva agora transformada em livro, propõe uma ampla reflexão sobre a evolução e os dilemas da fotografia, desde seus primórdios até a atual hegemonia da imagem digital no mundo contemporâneo. Trata-se de um trabalho de fôlego, que foge da abordagem meramente teórica. Logo no começo do livro, Souza e Silva menciona a importância do trabalho desenvolvido ao longo de uma década registrando fotograficamente o acervo do Museu de Arqueologia e Etnografia da USP. Tal informação, que poderia ser apenas um interessante dado biográfico, torna-se uma chave importante de leitura, mostrando como a prática cotidiana da fotografia revela-se fundamental para a pesquisa, balizando o discurso do autor e servindo de guia para definir as questões a serem iluminadas pelo trabalho.

Dois aspectos parecem centrais no trabalho de Souza e Silva. O primeiro deles refere-se à necessidade de colocar em discussão o caráter complexo, às vezes paradoxal, da fotografia como campo disputado entre a ciência e a arte, entre a técnica e o discurso. Também é importante, além disso, sublinhar a intenção permanente de levar a pesquisa para além do mero exercício de revisão crítica de um determinado recorte de imagens ou autores, algo usual em estudos deste campo. Como diz o autor, seu objetivo é “refletir a respeito da trajetória tecnológica da fotografia”, independentemente do valor semântico desta ou daquela imagem. O intuito é pensar a fotografia no “atacado”; “das fotografias passar à fotografia”, sintetiza. Para isso, é necessário fugir de algumas armadilhas recorrentes, como a excessiva importância dada a escolas, autores ou gêneros. “No fundo, a classificação que se busca atribuir às fotografias nada mais é que a classificação do motivo apresentado. Mas o específico da fotografia parece se perder nessa postura fragmentadora e de categorização”, constata ele.

Não se trata de negar a íntima relação entre o mundo da arte e o da criação fotográfica. Muito pelo contrário. Em vários momentos da pesquisa ele recorre a projetos poéticos para iluminar e ampliar a reflexão. Mesmo assim, é pelo caminho da técnica que Souza e Silva vai enfrentar seu desafio. É ela que, a despeito das evoluções ou talvez por causa delas, garante à fotografia – analógica ou digital – unidade e coerência. O intuito é deixar um pouco de lado a semântica da imagem, abrindo espaço para a “possibilidade de retomar a história da fotografia sob uma perspectiva filosófica e não simplesmente estética”, conclui.

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Para realizar esse movimento, o autor divide sua pesquisa em dois grandes blocos, independentes porém articulados. O primeiro deles, “A Fotografia do 0 ao 1”, aborda desde os primórdios da tecnologia até o momento de transição para o mundo digital. Trata-se de uma síntese extremamente enxuta, mas bastante clara, da evolução desta tecnologia, apresentada tanto em termos de evolução da técnica como em termos cronológicos (mostrando, por exemplo, que o desejo de representação fiel da realidade tem sua origem bem antes das décadas de 1830 e 1840, período apontado como o ambiente que favoreceu o nascimento da fotografia, estando ligada a contribuições bem mais remotas, como a de “Aristóteles fazendo uso da câmera obscura para a observação de um eclipse, no século IV a.C.”).

Ao leitor são explicadas em poucas palavras as características básicas das principais tecnologias utilizadas para a reprodução fotográfica, desde o frágil daguerreótipo, que permitia a realização de uma única cópia, em vidro, até o pleno desenvolvimento das máquinas de pequeno formato, fáceis de usar, que se popularizaram ao longo do século XX. Questões relativas ao formato utilizado (pequeno, médio ou grande), a aspectos essenciais como controle da luz, uso das lentes, fixação das imagens e o aprimoramento dos diferentes suportes também são tratados de forma bastante didática, bem como as principais diferenças entre formas amadoras e profissionais de produção fotográfica.

A transição para a segunda parte do livro, relativa à arte digital, é suave e enfatiza que há mais similaridades entre as duas tecnologias do que se costuma considerar. Souza e Silva está interessado em entender como a produção digital radicaliza algo já presente na fotografia analógica: a dupla identidade desse suporte, que pode ser ao mesmo tempo ficção e documento. Da mesma forma em que reside na fronteira entre arte e ciência, a fotografia se situa muitas vezes numa fascinante dualidade entre reproduzir ou reinterpretar o mundo. Para ilustrar esse aspecto, Souza e Silva recorre à obra de Joan Fontcuberta, artista e pensador catalão, que se encaixa precisamente nesse debate. A operação de desmonte que ele promove em seu trabalho, demonstrando que “toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira”, reforça perfeitamente a tese do autor. Pensadores como Roland Barthes e Vilém Flusser – cuja filosofia é uma das pedras fundantes da reflexão de Souza e Silva –, também o auxiliam a realizar essa transição para o mundo do numérico, na qual abandona pouco a pouco a análise da técnica para ir cada vez mais encaminhando a discussão para um campo filosófico.

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Na segunda parte do livro propriamente, intitulada “A Fotografia do 1 ao 0”, o movimento é de investigação da fotografia digital e a consequente banalização da imagem e da tecnologia, potencializando a sensação de mesmice e a crescente dificuldade em encontrar caminhos ditos originais ou inovadores. Afinal, como diz Flusser, todas as fotos obedecem a um programa, determinado em última instância pela máquina, e a única brecha que resta é a ação subversiva do modelo, o uso da experimentação e do jogo.

A arte volta novamente ao serviço da dinâmica de reflexão de Souza e Silva, corporificada em trabalhos como o de Rosângela Rennó e sua capacidade de agir em meio a um desgaste cada vez mais intenso da imagem fotográfica. Ao recolocar em circulação imagens de descarte, banalizadas pelo excesso, a artista encaixa-se no perfil daquele criador que Flusser define como “fotógrafo experimental”, o raro artista que escapa da enorme previsibilidade e determinação incontornável dos meios técnicos.

No entanto, é na filosofia que o pesquisador – que também é professor na Faculdade de Jornalismo da ECA-USP – vai respaldar sua análise sobre a produção e fruição das imagens no mundo contemporâneo, tentando entender o que há de específico, de transformador e de constante na absoluta hegemonia da tecnoimagem. Pretende avançar na direção de respostas a perguntas pertinentes, tais como se haveria e qual seria o espaço específico da foto em meio à cena audiovisual dos dias atuais, ou ainda se seria possível afirmar que a fotografia digital pode ser também classificada como um novo ponto de partida. Num interessante exercício de contrastes, coloca em diálogo diferentes reflexões sobre esse novo mundo submetido à hegemonia da imagem, contrapondo argumentos de Flusser, Heidegger, Barthes, Debord e Baudrillard, entre outros. Apresentando de forma sintética as bases do pensamento de cada um deles, coloca em discussão a falência do discurso lógico sobre esse mundo cada vez mais saturado de imagens, mas orienta sua análise em direção a uma interpretação mais otimista sobre os desafios decorrentes da massificação da imagem digital e da presença incontornável da tela como “principal interface”, rejeitando as interpretações mais sombrias. Segundo ele, Debord e Baudrillard, por exemplo, “olham as imagens muito longe ou muito perto”, o que dificultaria uma apreensão mais clara das questões em jogo.

A tendência cada vez maior à imaterialidade, a dimensão zero da imagem – que deixou para trás os suportes materiais (metal, vidro ou celuloide) para transformar-se em mera carga elétrica –, não deve ser vista, segundo o autor, apenas a partir da sensação de angústia e impotência gerada pelo excesso e pela banalização, mas também como formas de ampliar as alternativas de leitura e interpretação. Ele advoga a “possibilidade de retomar a história da fotografia sob uma perspectiva filosófica e não simplesmente estética” e identifica também uma amplificação sem precedentes das estratégias de jogo, de manipulação, criação e leitura da imagem. Em outras palavras, o digital trouxe uma espontaneidade e um imediatismo que não mais garantem à fotografia o papel de contadora de grandes histórias, mas também das pequenas histórias, que beiram a banalidade. A busca cada vez mais difícil por uma imagem “nova” ou “boa”, seria então substituída pelo desenvolvimento de um trabalho mais consciente, pela criação de novas aberturas capazes de estabelecer uma “relação menos aflitiva com a técnica”.

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O autor aponta ainda para uma certa tendência coletivista nesse processo de evidenciar o que muitos chamam de “nada” (por não possuir o caráter único e autoral e que evidenciam a inutilidade da palavra), personificada no trabalho de coletivos como a extinta Cia de Foto. Restaria extrair dessa banalidade, dessa relação angustiada com a incapacidade da fotografia de expressar uma verdade, novas possibilidades de criação e de interpretação do passado e do presente. Afinal, segundo Souza e Silva, se é indiscutível “o compromisso com a verdade que se atribuiu à fotografia desde o seu surgimento” (por suas raízes técnico-científicas), não se pode esquecer que a recíproca também é verdadeira. E sublinha: “Se serviu para apontar a verdade, também serviu para mentir”.///

 

Maria Hirszman é jornalista e crítica de arte. Atua na área de artes visuais desde 1996, em publicações como o Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo. É pesquisadora em história da arte, com mestrado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

 

A revista ZUM publica em seu site resenhas de livros de fotografia e novidades do mercado editorial no Instagram. Os livros podem ser enviados para Revista ZUM / IMS – Av. Paulista, 2439, 6 andar – CEP 01311-936 – São Paulo, SP. A equipe da revista seleciona as publicações e encaminha para resenha. Todos os livros, inclusive os não resenhados, são depois enviados para a Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista.

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