Galeria

Vizinhos

Marcelo Masagão Publicado em: 01 de fevereiro de 2017

Um dia, em dezembro de 2015, recebi uma encomenda muito aguardada: a pequena OSMO, uma câmera diminuta, espécie de mescla de GoPro com steadycam, com a vantagem de ter uma lente grande angular bem menos radical que a da aflitiva GoPro.

No dia seguinte, um amigo fotógrafo me convidou a ir a Mariana, Minas Gerais, pós-desastre. Ele faria fotos e eu, imagens em movimento. Resolvi estrear a nova câmera naquele local, onde a ordem geométrica das coisas estava mais comprometida que o usual. Uma semana depois, já no meio da lama, fuçando o menu descobri que ela fazia também fotos panorâmicas. Conclusão: meu cartão de memória voltou de lá com mais de 500 panorâmicas e apenas 5 minutos de vídeo captados.

Mudei recentemente o endereço de minha produtora, da Lapa para o Centro de São Paulo, mais precisamente para a Galeria Sete de Abril. O Centro concentra uma enorme de diversidade de humanos e querereres, e isso talvez seja o que de melhor a grande cidade nos ofereça: a convivência entre estranhos.

Já tendo realizado uma série de “relações sexuais” com a OSMO, passei a fotografar compulsivamente meus vizinhos da Sete de Abril, conhecida como a galeria de lojas de equipamentos fotográficos, mas não é só disso que vive, como mostram estas fotos.

A panorâmica planifica em 2D uma situação que é virtualmente 3D. São fotos que tendem mais para a ficção que para o documental. Criam-se multiplanos repletos de detalhes, tensões e pequenas (ou grandes) distorções de perspectiva, que causam alguma estranheza. É um convite a decifrar o que ocorre ali.

Outra questão colocada pelo equipamento é a da separação entre corpos. Esse tipo de camêra cria um novo modus operandi do ato de fotografar, já que o corpo do fotógrafo e a câmera podem trabalhar separadamente, pois ela pode ser controlada por dispositivos móveis. É uma intrusa com poderes de invisibilidade. Aonde o corpo do fotógrafo e seus 80 quilos (mentira, 90) não vão, a pequena câmera vai, seja na lama de Mariana ou em meio a vitrines apinhadas de relógios, livros, pratos ou gente.

O cineasta russo Dziga Vertov disse, em algum ano da década de 1920, que “a câmera de filmar se encontra oprimida por uma triste escravidão, sujeita a um olho humano imperfeito e míope […]. Devemos utilizar a câmera de filmar como um cine-olho muito mais perfeito que o olho humano para explorar o caos dos fenômenos visíveis que enchem o espaço […]. Até agora violentamos a câmera de filmar e obrigamo-la a copiar o trabalho de nosso olho. O cine-olho vive e move-se no tempo e no espaço, ele recolhe e fixa as impressões, não à maneira humana, mas de um modo completamente diferente”. No filme O homem da câmera, passamos fortes emoções ao ver o irmão de Vertov (que era o cameraman) fazendo estripulias malucas para conseguir pontos de vista inumanos.

Essa utopia dos multiplanos de Vertov acontece um pouco nesta série feita dentro da Galeria Sete de Abril, possibilitada pela OSMO, sem necessidade de se arriscar a vida do cameraman. Um belo instrumento para fotografar São Paulo, a cidade “multitudo”. A mosca azul da fotografia mordeu meu dorso: acabo de realizar uma série sobre o vizinho mais importante da Galeria, a Biblioteca Mário de Andrade, e está em processo há alguns meses um projeto que discute a lacuna manifesta como excesso nos cantos desta metrópole. Diferente de fazer cinema, em que você é obrigado a ter no mínimo sete contadores e três advogados à disposição, fotografar é um esporte muito mais tranquilo.///

Marcelo Masagão (1958), pesquisador de imagens, realizou filmes de curta e longa-metragem, como Nós que aqui estamos por vós esperamos (1999) e Ato, atalho e vento (2015). Foi criador da TV Cubo e da Rádio Xilik (1985), é coautor do livro Rádios livres: a reforma agrária no ar (Brasiliense, 1986). Realizou exposições como artista plástico, entre elas Adote um satélite (1989). É também criador e curador do Festival do Minuto, que acontece desde 1991. www.fotosdomasagao.com.br

 

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