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Arquitetura como armadilha social na série fotográfica de Marcelo Cidade

Marcelo Cidade & Nathalia Lavigne Publicado em: 28 de abril de 2017

Atravessar a fronteira entre lugares pré-definidos, provocando uma tensão ou estendendo seus limites, tem sido uma das bases de atuação do artista Marcelo Cidade nas últimas duas décadas. Isso se manifesta no sentido espacial da ideia de lugar, no embate entre o público e o privado e em suas classificações porosas de arte (ou não arte) como enfrentamento ou ilegalidade; e na intervenção urbana e sua institucionalização enquanto registro, seja este documental e/ou ficcional.

Sua recente série A__________social (2015) ainda parte de muitas dessas questões, mas aponta para outra direção em relação a trabalhos anteriores. Uma mudança importante se dá pelo próprio uso da fotografia. Antes presente enquanto “resíduo de suas ações no espaço urbano”, como definiu certa vez, neste novo projeto as fotos, por meio da apropriação, surgem como matéria-prima.

As imagens de A__________social foram coletadas da internet pelo artista por quase um ano. São fotos amadoras de pessoas presas em grades, janelas e outros elementos arquitetônicos ao cometerem um ato criminoso, como uma invasão. A disseminação dessas fotografias, feitas quase sempre por policiais ou bombeiros quando chegam ao local da infração, tem uma clara intenção moralista, reforçando a sugestão de bandidos punidos pelo próprio fracasso.

A partir dessas imagens, Cidade produziu uma série de serigrafias reticuladas, em referência à estética da imprensa sensacionalista onde costumam ser publicadas reportagens do gênero. Ao utilizar este recurso e incluir frases incompletas no pé de cada figura, o artista atua na fronteira entre a documentação e uma narrativa fictícia, subvertendo essas classificações.

A visão da arquitetura como um elemento opressor na relação com o corpo, em contraposição a uma ideia romantizada sobre esse diálogo, é apontada por Cidade como ponto de partida para A__________social. “Com essas imagens, me interessa pensar no corpo marginalizado como uma vítima dessas situações arquitetônicas, na arquitetura como uma armadilha”, explica. “Arquitetura” é a palavra eliminada no título da série, e nas frases que servem como legenda para cada uma das 18 imagens o termo “arquitetura social” é excluído por completo.

Cidade usa como referência a publicação Arquitectura social, três olhares críticos, dos arquitetos portugueses Luís Santiago Baptista, Joaquim Moreno e Fredy Massad. Nesse livro, o trio reflete sobre a vocação original da arquitetura como um instrumento de reestruturação social, especialmente em contextos de crise. No entanto, com a eliminação do termo nos trechos escolhidos para cada imagem, o artista provoca uma inversão de sentido, revelando um pensamento formulado para resolver um problema cuja solução permanece muito distante da realidade em questão.

Na sequência das imagens numeradas, as frases escolhidas sugerem uma narrativa, com definições sobre a suposta arquitetura social que a cada figura parecem mais absurdas. “A ________manifesta-se, primeiro, como ideia”, lê-se na primeira, a imagem de um homem com metade do corpo pendurado em uma janela basculante. Extraída do contexto original, não se sabe do que se trata a frase, mas, diante daquela imagem, logo se conclui que a “ideia” só pode ter sido um fracasso. “A _________funde-se numa quimera histórica” vem a seguir, acompanhando a foto de uma pessoa embaixo de um container, com metade das pernas para fora. “A __________afirma-se, por experimentação,” lemos na figura 3, que mostra um homem preso entre uma janela e uma grade. Mas são as figuras 6 e 7 que mais indicam o ponto central de A__________social. Particularmente na última, “A________ procura a total coletivização da existência”, sentido que não poderia ser mais contrastante com a foto do corpo aprisionado por uma estrutura feita para impedir qualquer noção de coletividade.

Ao combinar essas formulações esquemáticas do que se imagina ser a arquitetura social com imagens que sugerem o contrário dessas experiências, a série parece evocar as heranças utópicas de uma arquitetura modernista – a falência de seu projeto que já nasceu, aqui, sobre uma ideia de ruína. O tom de desolamento faz lembrar a crítica do escritor americano Benjamin Moser sobre Brasília em “Cemitério da esperança”, um dos três ensaios escritos sobre o Brasil no seu livro Autoimperialismo (ed. Planeta). Logo nas primeiras páginas, ele resume um aspecto autoritário de seus monumentos, tão incoerente aos princípios democratizantes do projeto moderno: “O que comove na arquitetura monumental é a forma desajeitada como ela trai seus próprios propósitos. Enquanto procura transpirar permanência, já se encontra em decadência […] A arquitetura monumental é tão involuntária e inevitavelmente irônica (“curva-te, ó Grande, ao fausto que ora fitas!”) que nos perguntamos por que ainda se envolveria com ela”.

No caso do paulistano Marcelo Cidade, entretanto, há um diálogo mais próximo com o caos urbano de São Paulo. O contexto das imagens usadas em A__________social passa também pelas experiências banalizadas de apropriações do espaço público. A mesma cidade onde a catraca já foi alçada ao posto de monumento e figura de linguagem em 2005, quando o coletivo Contra Filé causou polêmica tanto pelo objeto enferrujado colocado como um pedestal no Largo do Arouche quanto pela expressão “descatracalização da vida”, tema de redação da Fuvest naquele ano.

Vale lembrar que a origem de Cidade como artista foi no grafite, base de sua atuação urbana e nos limites da ilegalidade. Nos últimos anos, seu trabalho deixou essa esfera e passou por muitos outros lugares de classificação. Enquanto isso, a discussão sobre ações no espaço público parece ter involuído para distinções cada vez mais didáticas e pouco reflexivas entre grafite versus picho; arte versus não arte. Nesse sentido, a remoção da palavra arquitetura em A__________social parece ter também outro significado simbólico, indicando uma mudança do lugar de ação em seu trabalho para outro menos espacial, aproximando-se de um lugar de enfrentamento no campo das imagens.///

 

Marcelo Cidade (São Paulo, 1979) é artista plástico formado pela FAAP, participou da 27ª Bienal de Arte de São Paulo (2006) e diversas exposições individuais e coletivas, como: Nulo ou em Branco (2016 – SP), Somewhere, Elsewhere, Anywhere, Nowhere (2014 – EUA), Marcelo Cidade (2014 – Itália), The Poetry In Between: South-South (2015 – África do Sul) entre outras. Em 2016 lançou o livro Empena Cega, sobre a produção de algumas de suas obras, pela editora Cobogó.

Nathalia Lavigne (Rio de Janeiro, 1982) é jornalista, curadora e pesquisadora, mestre em Teoria Crítica e Estudos Culturais pela Birkbeck, University of London, e doutoranda pela FAU USP. É membro do grupo de pesquisa Estéticas da Memória no Século 21 e desenvolve um trabalho sobre colecionismo digital e circulação de imagens de obra de arte no Instagram.

 

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