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Ambiciosa exposição em Barcelona apresenta o universo em torno do fenômeno dos fotolivros

Walter Costa Publicado em: 05 de junho de 2017

Em 1977, duas sondas espaciais Voyager partiam da Terra levando um disco de ouro especialmente criado pelo cientista Carl Sagan, na possibilidade de alguma civilização extraterrestre encontrá-las no futuro. Como resumir nosso planeta e nossa civilização em um “cartão de visita” gravado em apenas 12 polegadas de circunferência?

Mais terreno e menos grandioso, porém similar, é o desafio da exposição Fenômeno fotolivro, em cartaz no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB) e na nova sede da Fundação Foto Coletânea, ambos em Barcelona. Um bom fotolivro acontece a partir de uma colaboração bem-sucedida entre autor, editor, designer e produtor gráfico. Da mesma forma, o curador-chefe Moritz Neumüller optou por uma curadoria conjunta, convidando pesos pesados com atuações fundamentais para a expansão desse universo até o tamanho atual. O resultado é uma mostra ambiciosa, densa, dividida em sete “capítulos” e destinada a ser um marco na história da produção de fotolivros.

Uma das características físicas mais importantes de um livro é a sua portabilidade, a possibilidade de ser lido na cama, em um gramado, numa praça ou varanda. Logo de partida, este já é um bom desafio: como levar um objeto de leitura íntima à dimensão pública de uma exibição? Sabemos que em toda tradução perde-se algo do original, mas é aí que um bom tradutor faz a diferença. Assumindo que imprimir fac-símiles gigantes não seria uma opção e que não é possível deixar de proteger do manuseio livros frágeis e raros, me interessou ver as respostas dos curadores da Fenômeno fotolivro a esse desafio.

Se hoje consideramos normal chamar de fenômeno o movimento em torno do fotolivro, a ponto de dedicar-lhe uma grande exposição com mais de 500 títulos, precisamos dar um passo atrás para melhor entender o cenário. Apesar de existir na linha do tempo da fotografia desde seus primórdios, por décadas o fotolivro foi relegado a um canto escuro do salão na história da fotografia, mais preocupada com discussões e embates para afirmar-se no mundo da arte. Como prestar atenção ao que era considerado um subproduto barato, muitas vezes um simples catálogo?

A visão do colecionador, curadoria de Martin Parr

 

Sendo assim, o primeiro objetivo da exposição é a consagração de uma história da fotografia que reconheça o papel dos fotolivros na evolução da linguagem fotográfica. Basicamente, o que o fotógrafo e editor inglês Martin Parr vem fazendo desde 2004 junto ao também fotógrafo e curador Gerry Badger, parceiro na edição da trilogia O fotolivro: uma história. O capítulo “A visão do colecionador”, curado por Martin Parr, define a espinha dorsal da exposição com 57 livros fundamentais escolhidos dentre os 13 mil de sua coleção. Para ressaltar o valor de cada livro, e transmitir o sequenciamento das páginas que sustentam a narrativa, optou-se pelo uso de vitrines dispostas ao longo de um corredor, ao lado dos originais protegidos, tablets para “folhear”, projeções e, quando possível, exemplares de consulta. Não é como ler com as costas no travesseiro, mas, dentro do possível, foi uma boa solução para dar conta de apresentar a seleção de livros.

Um dos primeiros a apostar na inclusão de fotolivros em museus, o curador Horacio Fernández, ao contrário de Parr, não pretendia criar uma linha do tempo histórico-estética. O nome de seu capítulo na exposição, A biblioteca é o museu reafirma a posição de Fernández. No espaço expositivo, a escolha foi diagramar mosaicos na parede onde os olhos do visitante são convidados a relacionar as obras de Gabriel Cualladó, Manuel Álvarez Bravo e Henri Cartier-Bresson com os livros de suas respectivas bibliotecas. Uma aposta original, que cria mapas conceituais próximos dos trabalhos e das referências de cada artista. Essa opção vem do fato de que, para Fernández, apesar de ficar fora do circuito da arte, os fotolivros sempre circularam, influenciaram e inspiraram gerações de fotógrafos.

 

A biblioteca é o museu, curadoria de Horacio Fernández

Gerry Badger escolheu uma abordagem mais provocativa ao eleger livros que originalmente não tinham propósito artístico, mas que com o tempo foram descobertos por seu valor fotográfico e narrativo. Em “Livros de propaganda vs Livros de protesto”, ele se concentra em criar oposições entre os dois temas. Para isso, além de vitrines, usa reproduções superdimensionadas das páginas, somando a força da colagem ao tamanho da pintura muralista e tomando conta de todo o espaço. Os esforços político-visuais de convencer as pessoas a abraçar uma causa – seja por meio da celebração, no caso da propaganda, ou da denúncia, no caso do protesto –, são misturados entre si, reforçando a ideia de Badger de “dois lados da mesma moeda”.

O holandês Erik Kessels é conhecido por ser um artista da apropriação, colecionador compulsivo e grande admirador da fotografia vernacular, anônima, acidental, de cliques sem nenhuma intenção artística. Dividida em duas partes, sua curadoria “Fascinações e fracassos” nasce da “tensão constante entre dedicação, péssimo resultado e genialidade, o que torna interessante estes livros”. Na primeira parte, “Fotolivros incrivelmente geniais”, percebemos ecos do seu livro Fotolivros terrivelmente geniais. Um caso típico de furor acumulativo, o visitante é engolido por uma sala forrada até o teto de reproduções de páginas caoticamente arranjadas. No meio, uma vitrine apresenta as cópias físicas desse gabinete de curiosidades, que vai de um manual de break-dance até um sobre o fair play no futebol. A segunda parte, intitulada “Que desastre!”, se inspira no livro homônimo em que Kesssels celebra o erro como motor criativo. A sala, transformada num depósito de restos, abriga fotografias apropriadas originalmente usadas como provas para ilustrar informes de danos. As imagens estão expostas junto a portas velhas, tábuas e cadeiras, criando uma instalação divertida, mas um pouco fora de contexto diante de tamanha densidade de obras e conteúdos.

 

Fascinações e fracassos, curadoria de Erik Kessels

A cultura imagética japonesa, que remonta à natureza visual do ideograma, já seria justificativa suficiente para a existência do único capítulo “geográfico” da exposição. Mas, como escreve o curador e colecionador de fotolivros Ryuichi Kaneko, a exceção nipônica é ainda mais rica: “No Japão, apenas a reprodução da imagem [em livros e revistas] era considerada merecedora de consideração. Essa diferença se tornou uma característica da fotografia japonesa, que a conduziu à idade de ouro dos fotolivros”. Com a colaboração do editor e especialista em fotografia japonesa Ivan Vartanian (com quem Kaneko publicou o fundamental Fotolivros japoneses dos anos 1960 e 70), o capítulo “Cinco aspectos do fotolivro japonês”, destaca a relação entre fotógrafo e designer na criação de fotolivros. Um dos exemplos escolhidos foi o livro Barakei (1963), do fotógrafo Eikoh Hosoe (1933), editado quatro vezes entre 1963 e 2015. Apesar de apresentar o mesmo conteúdo fotográfico, cada versão do livro parece uma obra completamente distinta. Trabalhando em cada edição com um designer diferente, Hosoe deixou que eles expressassem livremente seu estilo, mas sempre respeitando o equilíbrio entre imagens e objeto. Infelizmente essas maravilhas só podem ser vistas através de vitrines, quando poderiam ter ido para a parede ou mesmo para tablets.

O fato de o CCCB, um centro não especializado em fotografia, hospedar a maior parte da exposição realça dois aspectos. Por um lado, demonstra que o fotolivro está finalmente se estabelecendo na cultura visual contemporânea. E, por outro, carrega a responsabilidade de abrir o entendimento do fotolivro a um público mais amplo, com o desafio de gerar encanto e interesse para o formato junto a pessoas alheias a este nicho. Nesse contexto, o capítulo “Lendo Nova York” merece destaque. Criado em torno de um único livro, o clássico de William Klein (1928) A vida é boa & boa pra você em Nova York (Life Is Good & Good For You In New York, no original, de 1956). Com curadoria de Markus Schaden, editor e diretor do PhotoBookMuseum, esse trabalho é o mais recente de uma série intitulada PhotoBookStudies: mapas rizomáticos que expandem fotolivros no espaço expositivo, em que as paredes viram uma grande lousa com comentários manuscritos acompanhando a sequência de páginas. Uma maneira chamativa, divertida e inovadora que enriquece a leitura e sugere interpretações, servindo também como guia para o (não sempre fácil) ato de ler fotolivros.

 

Lendo Nova York, curadoria de Markus Schaden

Finalmente, o capítulo “Práticas contemporâneas” ressalta outra parte fundamental para entender melhor os fotolivros: o processo criativo que se esconde por trás do resultado final. A curadoria ficou por conta da dupla Moritz Neumüller (professor e curador-chefe da exposição) e Irene de Mendoza (diretora artística da fundação Foto Coletânea), com sete artistas que se destacam na experimentação de processos e formatos, e cujos trabalhos são mostrados por meio de bonecos dos livros e vídeos. Entre tanta diversidade de aproximações, cabe ressaltar uma característica comum entre os artistas: suas carreiras decolaram graças à produção de fotolivros, veículos cada vez mais efetivos para afirmar a voz de autor no panorama fotográfico. Completa essa parte da exposição a “Estação beta”, uma grande sala de leitura com mais de duzentos livros publicados nos dois últimos anos e selecionados por especialistas do mundo todo. Entre mesas e pufes, a boa surpresa foi encontrar Cabanagem (2105), de André Penteado, único representante do Brasil (além de Amazônia (1978), de Claudia Andujar e George Love, selecionado na curadoria de Martin Parr).

Práticas contemporâneas, curadoria de Moritz Neumüller e Irene de Mendoza

Um destaque final é o catálogo, desenhado pelo italiano Ramon Pez, que transforma os capítulos expositivos em fascículos com imagens e textos mais extensos dos curadores, além de um inédito ”posfácio”, em que Lesley Martin (editora do Photobook Review, da Aperture), nos apresenta seu “Convite para uma taxonomia do fotolivro contemporâneo”.

Voltando aos discos das Voyager do início do texto, a mostra Fenômeno fotolivro também lida com a dúvida e a esperança de que seu conteúdo ultrapasse fronteiras. Possivelmente, o tamanho e abrangência da exposição sobrecarregue quem não pertence à categoria que Neumüller chamou de “congregação do fotolivro”. No entanto, a polifonia das vozes curatoriais oferece ao visitante a liberdade de pular para o seu “capítulo” favorito, o que pode ajudá-lo a se localizar neste universo. Como Sagan já imaginava, é difícil dizer se a mensagem enviada em disco chegará aos “extraterrestres”. No caso da exposição, o mesmo vale para as pessoas fora do mundo das publicações artísticas. Meu desejo, parafraseando o cientista, é que ela consiga passar para o grande público que “um [foto] livro é a prova de que os homens são capazes de fazer magia”.///

 

Walter Costa é fotógrafo e editor independente italiano com base em São Paulo. Pesquisador na área da edição, criou o projeto The Rising Card, é um dos fundadores do grupo de discussão sobre fotolivros Trama e coordenador do grupo de estudos Lombada-Laboratório de Fotolivros.

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