Entrevistas

A fotógrafa Ursula Boeckler conta como foi viajar com o artista Martin Kippenberger pelo Brasil dos anos 80 no Magical Misery Tour

Tobi Maier Publicado em: 07 de março de 2017

Ursula Boeckler, Manaus, 1986

Há pouco mais de trinta anos, o prolífico e provocador artista alemão Martin Kippenberger realizou uma “viagem performance” pelo Brasil. Junto com o também artista Albert Oehlen, os dois visitaram o Rio de Janeiro entre dezembro de 1985 e o início de 1986. Muitos trabalhos de Kippenberger e Oehlen surgiram desta estadia, como pinturas, esculturas, cartazes e até mesmo discos em vinil.

Como parte de uma pesquisa pessoal sobre este corpo de obras, acabei conhecendo também as fotos da assim batizada Magical Misery Tour, um conjunto de imagens que documentam a segunda parte da “turnê”, agora com a participação da jovem fotógrafa alemã Ursula Boeckler. Martin havia convidado Ursula a se encontrar com ele em Salvador em fevereiro de 1986, com a tarefa de documentar uma série de performances e intervenções realizadas por ele. A breve turnê de Martin e Ursula seguiu ainda para as cidades de  Recife, Maceió, Brasília e Manaus. Uma parte destas fotografias está agora em exposição na galeria SOLO SHOWS, em São Paulo, até o dia 11 de março próximo. Entrevistei Ursula Boeckler sobre a viagem e o trabalho com Martin na sua recente visita ao Brasil:

Tobi Maier: Ursula, você já escreveu um texto sobre a sua estadia no Brasil com Martin Kippenberger em 1986, que publicamos como parte do release para a sua exposição na SOLO SHOWS em São Paulo. E nele  você diz que conheceu Martin Kippenberger na discoteca Alter Wartesaal, em Colônia. Como surgiu o convite para acompanhá-lo logo em seguida ao Brasil?

Ursula Boeckler: Boa pergunta. Eu acho que ele gostava muito de mim. Martin já sabia que eu trabalhava como fotógrafa para a revista de música Spex, entre outras publicações. Tínhamos um amigo em comum, o Holger Hiller. Martin era uma pessoa muito espontânea. E acabou me convidando para fazer algumas fotos com ele, antes da nossa viagem, para seu trabalho Müttergenesungswerk. Ele queria fotos do seu corpo: as cicatrizes em seu rosto, os dentes faltando e as grandes estrias em sua barriga. Provavelmente queria ver como as coisas funcionariam entre a gente. Isso foi cerca de dois meses antes da viagem para o Brasil.

TM:  E então ele te convidou para voar até Salvador, na Bahia?

UB:  Eu tinha organizado uma festa em casa e então a Gisela Capitain apareceu com um bilhete de avião em mãos. Eles tinham comprado e preparado a viagem para mim. Ela também me deu algum dinheiro que eu deveria trazer para o Martin.

TM: Foi a sua primeira visita ao Brasil?

UB: Sim. E a minha primeira viagem para fora da Europa.

TM: Martin chamou a sua viagem ao Brasil de Magical Misery Tour. Claramente, há a referência a Magical Mystery Tour dos Beatles. Mas ele deve ter pensado mais além: misery (miséria) também estaria relacionado ao seu próprio estado físico e mental na época?

UB: Naquela época, em meados dos anos 1980, o Brasil ainda era chamado de “Terceiro Mundo”. Algo impossível de imaginar hoje em dia. Mas é evidente que era claramente uma viagem por um país pobre. Na minha associação, “misery” sempre refere-se igualmente ao lugar e ao título dos Beatles.

Ursula Boeckler, The Magical Misery Tour, 1986

TM: O Martin, de fato, se preparou para a viagem? Por exemplo, ele produziu as camisas? O que vocês combinaram na Alemanha antes da sua partida?

UB: Nada. Não me lembro de ter preparado algo. Algumas pessoas me foram apresentadas, que provavelmente sabiam que eu ia viajar com ele. Então, conheci Albert Oehlen, e toda a infraestrutura em torno de Martin Kippenberger: o estúdio e a galeria Erhard Klein, que organizou uma exposição com Martin logo após a viagem. Klein também publicou o livro Endlich, 1-2-3 (1986),  resultante das partidas de mau-mau que Martin e eu costumávamos jogar durante a viagem. E Klein eu já conhecia, pois havia trabalhado algum tempo na loja 235, em Bonn, onde se vendia música em cassete, bootlegs e artigos da moda punk e new wave. Erhard Klein visitou a loja muitas vezes querendo comprar, por exemplo, um jeans de borracha. Por isso, foi muito engraçado quando eu o conheci novamente como o galerista de Martin Kippenberger.

TM: Como foi a reação da sua família e amigos quando você anunciou que ia viajar com Martin Kippenberger para o Brasil?

UB: Meu pai me proibiu de viajar. Ele não conhecia Kippenberger e sempre disse não a tudo rapidamente. Sua resposta padrão. Mas eu já tinha 19 anos. Minha mãe ficou muito animada e meus amigos felizes por mim.

TM: Depois da estadia dele com Albert Oehlen no Rio de Janeiro, você encontrou Kippenberger em Salvador, no Hotel Othon. Quanto tempo vocês ficaram lá em Salvador? Vocês também alugaram um carro e viajaram pelas redondezas…

UB: Eu cheguei a Salvador no final do carnaval. Martin já estava bastante cansado da cidade. Algumas crianças tinham tentado roubá-lo e ele tinha medo que roubassem seus comprimidos antidiarreicos. Estava um pouco exausto pelo carnaval, o volume e o calor. É por isso que ele, provavelmente, tenha escolhido o Othon Palace Hotel para se recuperar e descansar. O hotel era um pouco fora da cidade, um mundo idílico com piscina, bar e terraço. A grande parte da Magical Misery Tour passamos em Salvador mesmo, cerca de 10 dias no início e no final. Alugamos um carro por dois ou três dias e dirigimos por perto para encontrar lugares para suas performances. Visitamos duas vezes o posto de gasolina. Já no primeiro dia encontramos um lugar para suas ações. Então ele ficou fazendo esboços e se preparando para, em seguida, voltarmos e executarmos a ação.

Ursula Boeckler, Hotel, 1986

TM: Martin estava planejando algumas ações para você documentar em fotografia. Como surgiram as performances?

UB: Eu não conhecia Martin tão bem, e na minha percepção tudo isso foi totalmente espontâneo e aleatório. Mas se você conhecesse ele um pouco melhor, poderia ver que sempre havia uma ideia brotando, para ser usada em seguida, em algum momento. Só que eu não tinha isso muito claro na época.

TM: O que também dá para ver na performance da garrafa…

UB:  Sim, ele também sempre tinha alguns materiais com ele: caneta, papel, giz, fita. A performance da garrafa era muito direta: “o homem está amarrado à garrafa”. Depois fez um chapéu de isopor, em um lado escreveu a palavra “Massa” e no outro “No Help”. E ele sempre gostava de dar um novo nome para as esculturas públicas. Havia uma escultura em Salvador que parecia uma tigela de macarrão, por isso resolveu dar a ela o nome de “Massa”. Uma outra escultura, a “Cobra” ganhou uma assinatura com as palavras Diarreia e K86. E, em outra ocasião, havia uma suástica em cima de uma pequena construção  na praia e ele me pediu para fotografa-lo com as calças abaixadas. Martin estava muito empolgado com esta foto, dizia que era “uma cela individual na praia, sem vista, com suástica”.

Ursula Boeckler, Escultura Cobra, 1986

TM: O que, de fato, nos leva à performance na posto de gasolina Martin Bormann. Martin Bormann foi um nazista alemão que era suspeito de ter se escondido no Brasil nos meados dos anos 80. A partir da performance ele criou, em seguida, uma escultura, que agora está em Essen na coleção do Museu Folkwang. Como surgiu o trabalho?

UB: Neste exemplo do posto de gasolina podemos ver como Martin era preparado para seu trabalho. Existe um filme de Russ Meyer chamado Supervixens (1975) onde, em um posto de gasolina em ruínas nos EUA, alguém pega o telefone e responde “Martin Bormann Super Service.” Isso deixou Martin totalmente impressionado. Como tínhamos sempre que encher o tanque do carro na estrada, fomos parar naquele posto de gasolina e ele imediatamente se apaixonou. Na hora teve a ideia de comprar o posto todo. E assim surgiu também o meu documentário “A compra do posto de gasolina Martin Bormann”. Martin desenhou no chão algumas medidas para expansão da construção, com giz. Ele gostou de criar alguns cantos sem sentido e quis então mudar uma parede, o que tornaria tudo ainda mais absurdo. Este novo desenho acabou sendo incorporado posteriormente na escultura que se encontra hoje na coleção do Museu Folkwang em Essen, na Alemanha. Martin sempre me deixou livre para fazer a foto, mas, algumas vezes, me dizia “a foto deve ser assim, isto é o que deve constar na foto.” Na sequência, ele faz sua performance, com os trabalhadores do posto ou entre as bombas. Era um gênio em comunicação e ficou ali gesticulando bem-humorado. Os funcionários do posto acharam tudo muito divertido: vestido de bermuda e com meia branca! Outra razão que fez ele querer ter um posto de gasolina no Brasil foi o fato de, naquela época, os carros serem abastecidos com álcool. Agora, infelizmente, o nome usado é etanol.

Ursula Boeckler, Posto Martin Bormann, 1986

TM: Vocês continuaram a viagem rumo a Recife, Maceió, Brasília e Manaus.
A rota foi planejada ou decidida ao acaso?

UB: O percurso foi totalmente aleatório. Queríamos sair de Salvador e apareceu então uma passagem aérea, com quatro ou cinco paradas. Só que era totalmente impossível marcar as paradas em lugares desejados por conta de regras estranhas que tinham que ser respeitadas. Mais complexo do que se imaginava. Martin queria ver Brasília e eu queria visitar Manaus. O resto do percurso foi surgindo por acaso. Para Martin também já não tinha tanta importância: ele estava com raiva por poder passar apenas uma noite em Brasília.

TM: O que você conseguiu visitar em Brasília?

UB:  Muito pouco, apenas ver a forma de um grande pássaro quando nos aproximamos de avião. Chegamos de noite e tivemos que sair no início da manhã.

TM: Nas imagens posteriores da viagem, é bom ver que havia uma interação entre a população local e vocês dois.

UB: Acredito que Martin e Albert Oehlen tiveram mais contato com a cena local no Rio. Na nossa viagem este contato não foi tão importante para ele. Ao contrário, o principal sempre foi fazer fotos e realizar as performances. Compramos também alguns materiais que usamos mais tarde, quando Martin produziu os trabalhos na Alemanha, como pele de piranhas de Manaus ou diferentes embalagens impressas que se usava no Brasil na época. E em Manaus comemoramos seu 33º aniversário. Conhecemos algumas pessoas, dá para ver isso muito bem nas fotos. Descobrimos um bar com uma banda e lá estivemos duas ou três vezes.

Ursula Boeckler, 33º aniversário, 1986

TM:  Para Oehlen e Kippenberger não foi tão importante fazer contatos com a cena artística?

UB: Acho que não. Soube agora, na minha recente visita, que na época trabalhava como diretor do Instituto Goethe um certo  Sr. Schaffner que foi, provavelmente, muito carismático e prudente. Mas isso não tinha muita importância para Martin. Ele também conheceu Antônio Dias, no Rio de Janeiro. Mas juntos não visitamos um único museu, somente a ópera de Manaus. O filme Fitzcarraldo (1982), do Herzog, já havia sido lançado, e só por este motivo visitamos o local. A ópera ainda não tinha sido reformada e você podia subir no palco.

TM: Quais eram os critérios da seleção dos materiais de trabalho que Kippenberger queria desenvolver depois? Você ficou envolvida na produção dos trabalhos relacionados ao Brasil lá na Alemanha?

UB: Na realidade eu estava menos envolvida. Depois de voltar para a Alemanha, todo o material comprado foi levado para o estúdio. Meu trabalho foi apenas revelar os slides e negativos. Logo após nosso retorno, tivemos uma exposição na Galeria Achim Kubinski em Stuttgart. Fiz algumas pequenas ampliações no meu quarto escuro. Martin ficou muito aliviado e feliz com as imagens. Lembro-me que ele ficou um pouco irritado no início, quando eu cheguei em Salvador com minha câmera subaquática. Ele me perguntou: consegue fotografar também em cima da água? Vai estar tudo em foco? Na viagem nem sempre nos entendemos bem e muitas vezes brigamos. Houve um afeto muito grande por parte dele, mas eu não quis vê-lo como um potencial namorado. Éramos amigos e uma boa equipe.

TM: O que foi exibido na exposição na Galeria Achim Kubinski em Stuttgart?

UB: Martin pintou uma grande Chaplin na parede logo acima da porta. Ele achou que  Charlie Chaplin era uma espécie de modelo para as pessoas no Brasil que não se identificam com a classe alta. Vimos Charlie Chaplin por toda parte no Brasil, em cartazes, paredes e até cardápios. Eu também mostrei uma pequena seleção de outras imagens do Brasil (no formato 24 x 30cm). Martin montou uma das camisas da Magical Misery Tour. Mostramos também outras obras que não vieram da viagem ao Brasil: Martin mostrou duas grandes fotografias e eu as imagens do corpo dele. Além disso, exibimos os fotos do posto de gasolina Martin Bormann no tamanho de cartões postais.

TM: Mais tarde você veio outras vezes ao Brasil. Como isso aconteceu?

UB: No final dos anos 80 conheci muitos brasileiros em Colônia. Logo depois, planejamos uma exposição em conjunto, com Cecilia de Medeiros, Fernanda Gomes, Frank Thiel e eu. A exposição aconteceu ao mesmo tempo na galeria Hohenthal und Bergen em Colônia e também em todo o piso inferior do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Então acabei ficando no Rio de Janeiro por um ano, primeiro junto com a Lívia Flores em um apartamento em Laranjeiras e depois na Lagoa. Na mesma época meu irmão mudou-se para Manaus, dando mais uma razão para as minhas visitas ao Brasil.

TM: Agora, início de 2017, você voltou a Brasil de novo à procura de vestígios da Magical Misery Tour. Como surgiu a ideia?

UB: No ano passado consegui uma bolsa de investigação artística do governo alemão. Como projeto, havia sugerido refazer o percurso da Magical Misery Tour 30 anos depois. O que me motivou foi ter dedicado muito tempo para a restauração do material fotográfico daquela época. O Museu Folkwang, em Essen, ajudou a avaliar e digitalizar o material. E Ulrich Tillman, do Museu Ludwig em Colônia, me incentivou muito para mostrar as imagens. Então, após 30 anos, exibimos as fotografias em Berlim, no Bureau Mueller, e agora na SOLO SHOWS em São Paulo. E no momento estou trabalhando na produção de uma publicação, junto com a editora Bierke, de Berlim.

Ursula Boeckler, Martin Kippenberger, 1986

TM: O que mudou no Brasil e quais vestígios você ainda conseguiu encontrar?

UB: Fiquei emocionada com a estadia no Hotel Othon em Salvador e a redescoberta do posto de gasolina Martin Bormann, hoje totalmente modernizado. Mostrei as fotos para os funcionários de lá, as imagens de 30 anos atrás, e eles não estavam acreditando o quanto tudo mudou no lugar. Naturalmente, nosso passeio pelo Brasil hoje foi totalmente diferente. Até encontrei alguns lugares que visitei com Martin, mas não todos. Agora estou preparando, junto com Georg Graw, a publicação de um ensaio do tipo antes/depois para a revista tirolesa 39NULL com as imagens que fiz este ano. ///

 

Tobi Maier (1976) é mestre em estudos curatoriais pelo Royal College of Art (Londres) e doutorando em poéticas visuais pela ECA-USP. Foi curador associado da 30ª Bienal de São Paulo (2012).

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