Entrevistas

Entrevista: Cristina De Middel fala sobre sua vida carioca e novos projetos, que incluem umbanda e prostituição

Publicado em: 31 de março de 2017

 

Em 2012, a fotógrafa espanhola Cristina De Middel lançou o aclamado fotolivro Os Afronautas, uma fotorreportagem de ficção sobre os primeiros passos do programa aeroespacial de um país africano nos anos 60. Logo depois, veio ao Brasil para fotografar o cotidiano das favelas cariocas recém pacificadas pelas UPPs. O resultado foi o livro Sharkification, “fábula” de inspiração subaquática pelos morros da capital fluminense. Desde então, De Middel encontrou motivos profissionais e pessoais para fixar residência no Rio de Janeiro. ZUM conversou com a fotógrafa sobre seus novos projetos, pacificação de favelas, religiões africanas, fotografia documental, feminismo e prostituição.

Gostaria que contasse como começou sua relação com o Brasil. Sua primeira visita foi em 2014?

Não, na verdade vim pela primeira vez em 2005. Foi uma experiência totalmente diferente, turista total. Mas com uma câmera. Queria fazer a imagem da favela violenta. Lembro que a minha foto do Brasil dessa época são quatro crianças com uma pistola na entrada de Vigário Geral. E também escola de samba, bem o estereótipo de Brasil que se vê lá de fora.

A segunda vez foi com uma bolsa de residência artística, logo após a Copa do Mundo, certo?

Isso, em 2014. Vim em setembro para desenvolver um projeto. A colecionadora Frances Reynolds, da Fundação Inclusartiz, ficou muito interessada por um trabalho que fiz em uma favela flutuante na Nigéria. Ela gostou da maneira com que eu “ficcionei” e consegui construir uma visão diferente e não estereotipada dessa situação tão extrema. Então me convidou a tentar fazer o mesmo com alguma favela no Rio de Janeiro. A fundação tem uma casa incrível perto do Parque Lage, no Jardim Botânico, e a ideia era ficar aqui com todos os gastos cobertos e tentar fazer alguma coisa. Só que as estrelas não se alinharam com o produtor escolhido e só consegui fazer uns 10% do que foi para o livro.

O projeto inicial já era fazer um livro?

A ideia era ter uma série, mas eu sabia que iria virar um livro. Hoje tenho a mentalidade mais aberta e acho que não é necessário sempre, para todos os projetos, fazer um livro. Mas em 2014 ainda estava na euforia “pós-afronáutica”, não concebia um final diferente.

Para continuar o trabalho, voltei uma segunda vez ao Rio. Um dos problemas que encontrei da primeira vez, é que eu precisava vestir as pessoas com fantasias e transformar muito a realidade na favela. Por isso, muita gente que eu fotografei saía com cara de riso ou apontando para alguém. Para mim não funcionou. Resolvi voltar no carnaval, porque é uma época em que todo mundo se fantasia do que quiser e ninguém vai achar estranho. Voltei e consegui trabalhar com uma produtora bem mais séria, a Marcela Marer. Foi fantástica, já tinha um plano de produção pronto. E pude entender melhor o que eu queria falar, porque eu tinha uma ideia ainda estereotipada no início. Só depois de visitar muitas favelas e ver a realidade entendi o que era possível.

Você sempre comenta que tem o hábito de ler e pesquisar muito para seus trabalhos. E neste intervalo de tempo, entre a primeira e a segunda vinda ao Brasil, fez algum tipo de leitura? O que pesquisou sobre a relação entre as favelas e a violência?

Eu consegui pesquisar a parte estética. Queria assimilar os documentários subaquáticos do Jacques Costeau e usar essa linguagem para explicar as favelas. Fiquei vendo muitos documentários do mundo submarino, fiquei estudando um pouco as narrativas e como apresentar os tubarões e os peixes menores. A documentação do tema em si, da problemática das favelas e da pacificação, foi a Marcela que ficou mandando artigos para mim, porque na Europa isso não chega. E quando chega é a versão oficial da Globo, bem distante da que eu quero oferecer. Não foi uma investigação aprofundada, de entrevistar pessoas e ter testemunhos para eu poder construir a partir disso.

E então, depois de terminar o projeto e publicar o livro, você continuou no Rio.

Sim, porque, como falei antes, eu voltei no carnaval. E no carnaval acontecem muitas coisas. Uma das pessoas com quem eu trabalhei nas favelas foi o Bruno Morais, fotógrafo que já havia trabalhado com produção, conhecia o tema de primeira mão, por experiência própria. Ele fazia parte da Escola da Maré, da Imagens do Povo, movimentos que pretendem construir uma versão diferente das favelas. Era um tema que ele conhecia bastante. A parceria funcionou muito bem, tanto que Bruno agora é meu companheiro e vamos nos casar. Isso mudou completamente a minha vida. Tinha me mudado para o México em dezembro, e dois meses depois da mudança, no carnaval, conheci o Bruno. Acabei ficando muito mais aqui que no México e agora estou praticamente vivendo no Rio.

Essa relação mais próxima com a cultura carioca, afetou a edição final do livro Sharkification?

Acho que não deu tempo de afetar, porque quando conheci o Bruno já tinha todo o plano de produção e uma ideia muito clara do projeto. Não queria me aprofundar muito, nem um debate estilo “preto ou branco”,  tipo os ricos pensam que a pacificação é boa e os pobres pensam que não. Basicamente, simplificando muito, era isso que queria. Quando existe uma situação assim o que gosto de fazer é abrir o debate. Não vou dar minha opinião, prefiro pensar que esse é um tema que se houvesse uma maneira de entendê-lo ou explicá-lo diferentemente, de forma tangencial, no melhor dos mundos os ricos também compreenderiam porque a pacificação não é boa sempre. E os pobres poderiam ver também as vantagens da pacificação em alguns casos. Trabalhei na zona cinzenta. É um pouco o objetivo do projeto. Não estou explicando com um texto literalmente o que aconteceu. Se explico, é de uma maneira gráfica. O livro tem no início algumas referências a artigos de imprensa, mas estão tratados graficamente para que não sejam um documento, e sim uma apresentação do contexto de um modo difuso. A ideia é tentar entender as favelas como se fosse um ecossistema próprio em que cada um tem seu papel: o tubarão faz o que tem que fazer o tubarão; e o peixe pequeno faz o que tem que fazer o peixe pequeno. Um ecossistema que, com maior ou menor sucesso, é funcional.

do livro Sharkification, de Cristina De Middel

Isso revela muito do seu método de trabalho, que vem desde Os Afronautas: uma fotorreportagem que se poderia chamar de “fabulosa”, no sentido de fábula. Você acredita que conseguiu atingir isso com o Sharkification? Ou agora, após conhecer melhor a realidade carioca, você faria algo diferente do que foi publicado?

Acho que esse objetivo de abrir o debate, de buscar uma zona cinzenta, consegui atingir com Sharkification. Na verdade, penso que as favelas têm questões mais específicas que agora seriam mais interessantes para mim do que voltar a um tema vago e amplo como o inicial. É muito possível que no futuro eu volte às favelas, mas com um outro olhar. E também, ao vir morar aqui no Brasil, comecei a vivenciar temas que são muito mais interessantes para mim. Coisas como a religiosidade, o surreal, a mentalidade do brasileiro. Existe em tudo isso uma mistura que muito me interessa.

Você já viajou pelo Brasil?

Ainda não. Mas por isso vim morar aqui. Temos planos de viajar pelo Brasil em 2018, comprar uma Kombi e fazer uma viagem de verdade, de 6 ou 10 meses… ainda não sabemos. Tenho muito interesse em conhecer o país como um todo, porque sei que até agora peguei um pedaço muito pequeno, mas tão saboroso que eu quero mais.

Você comentou da sua curiosidade pela religiosidade do brasileiro. E da sua relação com o Bruno, surgiu a ideia de trabalhar com religiões africanas. Como é este novo projeto?

A ideia veio por recentemente ter trabalhado muito na África. Ao final do meu último projeto acabei indo ao Benim, um país em que 90% das pessoas são da religião vodu. Lá isso é algo muito natural, tem um mercado onde você pode comprar gatos secos, morcegos… é uma maluquice de lugar. Sempre fui interessada pelas religiões em geral, porque acho muito interessante que as pessoas possam crer nessas histórias e rituais. Resolvi voltar à África e ver como poderia explicar isso, até para entender melhor, como europeia meio belga meio espanhola que sou. Como espanhola morando no México e como belga indo para a África, me sentia sempre confrontada e tentando me justificar de tudo. Tentando entender com mais vontade que outras pessoas.

Um pouco de mea culpa?

Acho que sim. Mas não vejo que tenha alguma culpa. Tenho sim muita curiosidade, muita muita curiosidade. É uma situação muito injusta e que não conheço, por isso quero ficar mais perto para experimentar e entender. E neste interesse muito intenso pelas religiões africanas e entender a sua cosmogonia, conheci o Bruno, que é membro da umbanda. Essa foi uma das nossas primeiras conversas, sobre pontos em comum entre África e Brasil, como os orixás mudavam, como os rituais eram parecidos mas nem tanto, porque o candomblé é uma adaptação muito literal da religião africana, da Nigéria, do oeste da África. E a umbanda se mistura mais com o espiritismo, algo que adoro. Tivemos longas conversas sobre o assunto e ao final decidimos fazer um projeto.

Como está estruturado o projeto? Em que ponto estão agora?

O projeto é muito amplo, com quatro pilares que estruturam uma viagem do Exu. Escolhemos o Exu porque é o espírito da transformação, o que tem muito a ver com a conclusão a que queremos chegar. Na África, ele se chama Legbá e não tem forma humana. É um totem, uma bola de barro com dois búzios no lugar nos olhos e tem as mesmas características que tem o Exu aqui. Fomos ao Benim para uma residência artística na Fundação Zinsou, em Ouidah, cidade de onde partiram os navios com 80% dos escravos africanos que vieram para a América. Lá existe um lugar chamado “o portal do não retorno”, que tem uma carga histórica incrível. Fomos em janeiro, aproveitando o dia 7, dia internacional do vodu, e ficamos um mês documentando cerimônias e todos os espíritos iorubás. Uma experiência fantástica, não tenho palavras para descrever.

Depois da África, a gênese de tudo, fomos para Cuba. Lá o Exu é uma criança, o Eleguá, uma criança pequena que gosta de brincar, provocar, criar problemas. Mas que também protege. Uma criatura que está sempre desafiando tudo e todos. Depois de Cuba, chegamos ao Brasil, onde ele é o malandro, o jovem sedutor, da noite, vestido de branco e de chapéu. Aproveitamos para explicar a história dele no Rio, a versão do Exu na umbanda, que foi sincretizado como o demônio na religião católica.

E a última fase da viagem é o Haiti, onde ele recupera o nome africano original e passa a se chamar Papa Legba. So que é um velho, sempre te confrontando com situações difíceis, com dilemas, para que você seja estimulado a dirigir sua própria vida. Até o momento já fotografamos na África, em Cuba e no Rio. Agora falta ir ao Haiti.

da série Exu, de Cristina De Middel & Bruno Morais

da série Exu, de Cristina De Middel & Bruno Morais

Qual será o suporte final deste projeto? Um livro? Ou poderia ter algum outro final, já que é um trabalho colaborativo?

Este é um projeto que, sem o Bruno, jamais tentaria fazer, porque a religiosidade é algo muito pessoal. Eu poderia falar da igreja católica, tenho muito mais experiência e muito mais coisas para dizer da igreja católica na Espanha, por exemplo. Acho que neste projeto o papel do Bruno é mais importante. Acho que minha função neste trabalho está mais ligada a resolver conceitos visualmente. O conteúdo, a estrutura, a base teórica de tudo é dele.

Saberemos qual fotografia é da Cristina e qual é do Bruno?

Vamos tentar que não exista isso. Na verdade, as fotos são sempre tão controladas e pensadas por nós dois, que não tem importância quem faz o clique. E estamos adicionando outras coisas, fazendo vídeos, áudios e muitos desenhos. Se for um livro, será bastante complexo e irá reduzir e ao mesmo tempo ampliar o conteúdo do projeto. Acho que está mais para ser uma exposição não clássica, com o livro como registro. Mas não sei, ainda temos que ir ao Haiti. Temos feito muitas coisas com vídeo, por conta de imagens e ideias que tínhamos, mas que uma fotografia não dava conta. Precisávamos de ação, então fizemos peças de 3 ou 4 minutos para ter o que a foto não conseguia nos dar.

Voltando agora para uma conversa sobre o Rio de Janeiro, sobre sua vida carioca. Você comentou antes sobre um recente projeto 100% fotojornalístico? Como surgiu a ideia?

Aconteceu um pouco por eu tentar nos meus projetos que o gênero não seja visível. Que as pessoas não saibam que sou uma mulher, ser uma linguagem mais universal, além do gênero e não uma posição exclusivamente feminina. Mas também acredito que como mulher que tem uma voz, tenho que me posicionar.

Se estão interessados no que eu falo, não vou fazer a “bela, recatada e do lar”. Tão pouco vou fazer um diário íntimo, com foto pelada no espelho do banheiro. Essa é uma linguagem que acho muito feminina, mas não tem nada a ver comigo.

Tentei aplicar uma regra matemática à representação da mulher, um tema que ficou muito chato. Quando eu vejo revistas penso: não, não pode ser, que estejam tentando vender um pneu com uma garota pelada. Onde está a relação? Não entendo. Pensei em como poderia fazer um statement sobre a injustiça total com que a mulher é representada, sem cair no “vitimismo” ou num tipo de feminismo que busca o culpado. Mesmo que normalmente seja o homem, o que é verdade.

Acredito que a linguagem tem que ter empatia, procurar um jeito de atrair todos. Quero que os homens vejam o que eu tenho a dizer. Se só as mulheres vão me escutar, não serve muito. O que eu fiz foi usar uma das formas de representação da mulher que considero das mais injustas: as prostitutas, mulheres que já estão no mais baixo da sociedade, não tem nenhum direito e respeito, nem das próprias mulheres. Porque as mulheres são as que pior tratam as prostitutas, demonstram mais preconceito em relação a elas, mesmo sendo a sua versão mais degradada. Teriam que ser muito mais empáticas e ajudar.

O que fiz foi tentar buscar um pouco de equilíbrio. Em um tema tão clássico como a prostituição, que podemos ver em reportagens de todos os sites de todas as agências mais famosas e consagradas, nunca se mostra a cara do cliente. Se um alien chegasse na Terra e quisesse saber com a fotografia o que é a prostituição, ia pensar que é um negócio baseado em mulheres peladas em quartos sujos. Só que isso não é prostituição. É um lado, mas cadê os outros 50%? Resolvi fazer uma amostragem do que seriam os outros 50%. Recentemente até vi uma reportagem sobre um prostíbulo em Bangladesh em que os clientes aparecem, mas estão abraçando a prostituta.

da série Clube de cavalheiros, de Cristina De Middel

Essa série que você fotografou no Rio mostra o quê?

Só os homens, por isso o nome Clube de cavalheiros (Gentlemen’s Club, em inglês) para a série. Tentei ir um passo adiante. Publiquei um anúncio no jornal procurando homens clientes de prostitutas para um projeto, dizendo que seria um trabalho remunerado. Bruno fez a produção e selecionou 12 caras, de cidades e histórias de vida diferentes. Estes homens iriam a um encontro em um quarto de hotel onde normalmente trabalham as prostitutas e seus clientes. Alugava o quarto por 20 minutos, fazia a foto dele e pedia que respondesse algumas perguntas básicas que, como mulher, me interessava saber: se era casado, se a esposa sabia, quantas vezes ia por semana, quanto pagava, quando foi a primeira vez… todas essas coisas que os homens sabem, mas que nós não. Eu pelo menos não sei. Quis produzir um conteúdo que normalmente não está disponível para a audiência feminina.

E ele era pago.

Era pago. Tentamos respeitar o mesmo valor de um programa. De uma séance com uma prostituta. E havia condições, pois alguns não queriam mostrar o rosto, outros não queriam falar o nome. Então, quanto menos dava a pessoa, menos eu pagava. Como uma prostituta mesmo.

da série Clube de cavalheiros, de Cristina De Middel

Por conta da sua relação inicial com o fotojornalismo e depois a migração para uma linguagem mais desapegada da realidade factual, o que te incomoda e o que te agrada nessa relação da fotorreportagem com o subjetivo?

Não é uma coisa que nasceu agora. Já faz tempo que muitos fotógrafos estão experimentando com linguagens que são difíceis de classificar. Não são trabalhos documentais, nem são artísticos. Mas não é como se a minha geração fosse descobrir a pólvora agora. Isso já existe. Mas agora há uma relevância e uma atenção por parte do público que faz com que se produza mais e se consuma mais.

Por quê?

Por uma série de coisas: uma nova geração, a facilidade dos meios de produção, a internet, a distribuição, compartilhar o resultado com as redes sociais e a mudança do negócio editorial, algo muito importante que fez com que já não exista a figura do fotógrafo que trabalha só para um meio.

O que pensa sobre a “crise da verdade” pela qual os meios de comunicação tradicionais estão passando?

Acredito que todos os meios de comunicação, impressos e audiovisuais, cometeram o mesmo erro: iniciaram uma corrida para serem os mais rápidos, gráficos, literais e impactantes. Uma cultura do impacto, de chamar a atenção sem explicar. E para fazer isso tem que ficar cada vez mais perto dessa realidade. Só que agora ficou tudo tão rápido e perto que perdeu-se a perspectiva real do problema. Hiperrealismo, como um jornalismo HDR, algo irreal. E essas texturas, essa dramatização… não entendo mais nada, está tão perto que eu não consigo ver.

Por meio da subjetividade você acredita que é possível um outro tipo de abordagem?

Penso que a melhor solução seria uma coabitação. Tem lugar para todos. Acho que pouco a pouco o público vai começar a não crer no que acontece hoje como única verdade e estará mais aberto a outras narrativas e linguagens que não comprometam a veracidade e responsabilidade com a informação. Se você olha para estas agências consagradas e vê os fotógrafos que escolheram para trabalhar, verá que são profissionais que experimentam muito, que estão dialogando com os grandes dinossauros do branco e preto que iniciaram a fotografia. Ao final, o resultado será a coabitação, não creio que a ficção vá tirar o documental. Acredito na coabitação amistosa. Sou muito otimista, não consigo ser de outro jeito.///

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  • Edson Campolina Photos

    Muito bom! Os trabalhos despertaram curiosidade e a atitude e pensamento da Cristina estão revelados nas poucas imagens aqui publicadas.