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O espírito livre de René Burri (1933-2014)

Dorrit Harazim Publicado em: 29 de outubro de 2014
©Rene-Burri_Magnum-Photos---Latinstock

Folha de contato das fotos de Che Guevara, Havana, René Burri, 1963.

“Minha sorte foi saber desde cedo o que eu queria e o que não queria”, dizia René Burri para explicar a linha que norteou sua singular vida e magistral obra. A frase talvez soe elementar, pobre. No caso do extraordinário fotografo suíço que morreu este mês, aos 81 anos, porém, ela traduz um raro saber. Até porque Berri seria incapaz de proferir um clichê.

Com seu indefectível chapéu fedora na cabeça e foulards estilosos no pescoço, ele conheceu as misérias do mundo e as compartilhou através da fotografia. E, por saber desde cedo o que não queria, Burri terá sido, certamente, o único grande fotojornalista de guerra a jamais apontar a câmera para um morto, fosse soldado ou civil. Burri retornava de suas coberturas de guerras sem trazer na bagagem qualquer imagem dos sem-número de cadáveres que encontrava pelo caminho.

Do Vietnã, por exemplo, ele voltou com uma foto de impacto mais duradouro do que a de um combate sangrento: Sul do Vietnã, 1973, mostra uma fileira de prisioneiros vietcongue marchando de muletas, amputados, com as vestes em frangalhos. As cabeças envoltas em panos assimétricos mais revelam do que escondem os ferimentos.

Burri considerava duplamente ineficaz retratar atrocidades de forma previsível e convencional – fosse do ponto de vista artístico ou para traduzir a realidade. Na Guerra dos Seis Dias (1967), entre Israel e os vizinhos árabes, ele contou ter visto uma mão de pele escura e seca brotando do solo arenoso no deserto. Não disparou a Leica.

Passadas duas décadas, Burri explicou o motivo de não ter batido a foto que de certo seria publicada no mundo inteiro: “Simplesmente não consegui”. Não espanta que os editores da revista Life perdiam os bons modos cada vez que o suíço retornava sem as imagens solicitadas. Porém, acabavam por se reconciliar com o reincidente ao perceber a qualidade do material alternativo.

Ouvido pelo The New York Times para comentar esse traço da obra do conterrâneo, o crítico suíço de arte e arquitetura Peter Killer garantiu: “Quem vê suas fotos jamais o acusará de esconder a realidade para torná-la mais palatável. Suas imagens contém algo de profundamente humano, apenas isso. Nenhuma de suas obras nega a esperança de um mundo mais civilizado”.

Ao longo de 60 anos de labuta, Burri colecionou máximas criadas para si mesmo. Uma delas recomendava jamais abordar celebridades com a sensibilidade de uma escavadeira. Burri também sustentava ser preferível, às vezes, perder a foto para usufruir de um momento sublime. Como exemplo, citava um episódio ocorrido em Nova York, do qual fora protagonista privilegiado. Numa manhã ensolarada de 1959, ele passeava pelas ruas do East Side quando teve o olhar atraído por uma mulher de óculos escuros e elegância absoluta. Como sempre Burri trazia sua Leica pendurada no peito, ao alcance instantâneo da mão. Optou por não tocá-la. “Se eu a tivesse empunhado, teria perdido a magnífica cena de ver Greta Garbo se aproximando de mim, lentamente”, justificou. “Ademais, a foto não teria saído boa.”

Ele também baixava a câmera sempre que considerava a imagem cruel, sensacionalista ou, sobretudo, fácil demais. Certa vez, nos idos de 1990, teve Fidel Castro sob a mira de sua lente com um letreiro de hotel indicando “Saída” perfeitamente enquadrado sobre a cabeça do líder cubano. Não bateu a chapa. “Algum dia ainda vou publicar um livro sobre todas as fotos que não fiz. Será um sucesso e tanto”, ponderou anos atrás.

Não teve tempo. Em compensação, publicou mais de 15 livros sobre o quê, por que e como captou boa parte dos momentos mais decisivos da segunda metade do século XX. E de quem os protagonizou. A amplitude geográfica dos acontecimentos que cobriu o levava a dar duas voltas ao mundo por ano. Retratou de Che Guevara à crise do Canal de Suez, de Le Corbusier aos primórdios da guerra do Vietnã, de Alberto Giacometti aos protestos da Praça da Paz Celestial, da São Paulo vertiginosa a Pablo Picasso.

Além de ser um dos pilares da fotografia em preto e branco, Burri também deixou uma rica obra em cores. Apelidava-a de “minha vida dupla”. Embora menos conhecida do que seu acervo p/b, a incursão na imagem colorida o atraía como o sol. O livro Reminiscências impossíveis, publicado no ano passado pela editora Phaidon, revela a intensidade que dedicou a essa exploração visual.

©Rene-Burri----Magnum-Photos---Latinstock

Winston Churchill, Zurique, René Burri, 1946.

Nascido em 1933, poucas semanas depois da ascensão ao poder de Hitler, René Burri conseguiu dar um furo mundial com a primeiríssima foto de sua vida. Tinha então apenas 13 anos e flanava perto de sua casa em Zurique com a Kodak do pai a tiracolo quando percebeu um corre-corre à sua volta. Por instinto, enquadrou um vulto de perfil que desfilava de pé num carro aberto seguido por batedores. Era sir Winston Churchill em visita após a vitória na II Guerra à cidade natal do futuro fotógrafo.

A imagem é notável e seu autor a manteve exposta no escritório até morrer. Ela já apontava para a agilidade fotográfica de Burri diante do inesperado e seu talento para a composição da imagem. Foi a soma das duas habilidades que lhe serviram de trampolim para se tornar o disputado fotógrafo de tantas coberturas jornalísticas.

Um ensaio sobre estudantes surdos abriu-lhe as portas sagradas da agência Magnum na década de 50. Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, David Seymour (Chim), Ernst Haas, todos do núcleo central da lendária agência, haviam sido apresentados ao trabalho de Burri por Werner Bischof, seu colega de faculdade na Escola de Artes Aplicadas de Zurique. O quarteto de veteranos surpreendeu-se com a qualidade do trabalho do jovem suíço e passou a lhe confiar coberturas. Em pouco tempo, Burri foi aceito como associado da agência e, quatro anos depois, como membro pleno da exclusiva cooperativa de mestres da fotografia. Jamais houve nem poderia haver arrependimento entre as partes. Elas foram feitas uma para o outro.

René Burri também conquistou a todos com sua índole, humor, bonomia e generosidade. Por vezes, lembrava um personagem da ficção de Graham Greene. Tinha panache e espírito livre.

“Um dos seres humanos mais calorosos, apaixonados e divertidos com quem já tivemos a alegria de trabalhar”, diz o tributo post mortem que lhe prestou a Phaidon. Causeur nato, o suíço sempre tinha um acervo inesgotável de histórias e anedotas para contar. E as contava com requinte e deleite.

Poucos anos atrás encantou os editores da Phaïdon ao descrever uma mania de Henri Cartier-Bresson: o mestre avaliava os negativos que lhe eram submetidos virando-os de cabeça para baixo. A prática irritava todos os fotógrafos da Magnum e Burri em especial. “Henri dizia fazer aquilo para melhor aferir a composição da imagem; eu o avisava que um dia ainda iria estrangulá-lo por isso”, contou. “Pois não é que um dia também peguei um negativo meu e o virei de ponta cabeça? Foi então que aprendi que você precisa saber olhar para além da imagem”.

Cartier-Bresson, que o suíço sempre considerou seu mentor e mestre, limitava os fotógrafos da agência ao uso de lentes de 35mm ou de 90mm. Quando Burri recebeu a incumbência de produzir um ensaio sobre vida urbana na América Latina para uma revista alemã, voltou da empreitada com uma de suas obras mais celebradas, Homens no terraço. A foto foi feita na São Paulo de 1960, do alto de um arranha-céu. Nela, vê-se quatro homens de ternos severos caminhando inexplicavelmente no topo de um edifício adjacente, mais baixo. As estranhas silhuetas produzem sombras geométricas na crueza da laje de concreto, e a rua lá embaixo surge como uma fenda vertiginosa, um precipício urbano em meio à selva de pedra, vidro e aço.

A foto poderia servir de roteiro para um filme noir. Tem a composição de quem teve formação acadêmica para ver perspectivas e geometria numa cena. Seu estrondoso sucesso foi imediato. Burri submeteu Homens no terraço a Cartier-Bresson, o fundador do fotojornalismo moderno, que a saudou com um “brilhante, René”, levando Burri a sair da sala e soltar um interminável urro. Quando o mestre francês quis saber o motivo da catarse sonora, o discípulo suíço desconversou. Só três décadas depois, durante uma entrevista para a edição de suas memórias, Burri contou o motivo: à revelia de Cartier-Bresson, ele havia feito aquela foto com uma lente de 180mm. “Foi então que me libertei do meu mentor. Matei-o!”, festejou.

Uma técnica utilizada por Burri para melhor avaliar e medir determinada situação consistia em rodopiar em torno do personagem a retratar, parar de supetão e bater uma chapa. Orgulhava-se de ser “o mais rápido no gatilho das lentes” e repetia que “imagens são como táxis na hora do rush: se você não for ágil, alguém vai pegá-lo antes de você”.

Sua foto mais emblemática foi feita em 1963 para a revista ilustrada Look, concorrente à época de prestigiosa Life. Burri fora despachado a Havana para fotografar Che Guevara durante uma entrevista agendada com a repórter Laura Bergquist. Três anos antes, Alberto Korda já imortalizara o mito da revolução cubana com a célebre foto-pôster de Guevara intitulada Guerrilheiro heróico. O Che de Korda, de boina com estrela sobre a cabeleira revolta, era ao mesmo tempo arrojado e romântico.

O Che que recebeu a jornalista americana e o fotógrafo suíço no oitavo andar do Hotel Riviera era outro. Estava com 35 anos de idade e ocupava os cargos de presidente do Banco Nacional e ministro da Indústria. Pareceu mais maduro a Burri, que tratou de usar a técnica do rodopio ao longo da entrevista encerrada por acalorado bate-boca ideológico com a repórter. Ao final, o fotógrafo tinha oito rolos de filme e captara vários Che: sorridente, furioso, de costas, de frente. A que entrou para a História o retrata de queixo erguido, charuto na boca e o olhar voltado para o futuro. “Ele não me olhou uma única vez”, contou Burri, que o definiu como arrogante porém cheio de charme. Deixou-lhe a impressão de ser um homem aprisionado, pouco à vontade, e previu que ele não permaneceria por muito tempo naquele posto e lugar.

Como se sabe, o retrato virou ícone cult e adquiriu vida própria. Continua estampado até hoje em todo tipo de superfície e a servir de chamariz pirateado a uma espantosa gama de produtos. Resignado, Burri enrolava seus cigarros com uma marca de papel de seda com o seu Che estampado na caixa. “A foto é copiada por meio mundo. Está em camisetas e camisinhas, mas não tenho dinheiro para contratar advogados “, dizia o autor. Gostava de repetir que a imagem só se tornara famosa “graças ao cara do charuto, não a mim”.

Sam Stourdzé, ex-diretor do museu d’Elysée de Lausanne e recém- empossado diretor das Rencontres d’Arles, o concorrido festival anual de fotografia naquela cidade francesa, participou de uma recente enquete sobre qual seria a imagem que melhor condensa nossa época. Para a pesquisa encomendada por um jornal francês foram consultados galeristas , editores de arte e responsáveis pelos departamentos de fotografia de museus. O voto de Stourdzé foi para o Che de René Burri.

Como tantos repórteres de primeira linha, também o suíço teve a extraordinária trajetória alavancada por acasos, imprevistos e sorte. Mal sabia quem era Churchill ao apontar o foco da Kodak amadora em direção a um carro em movimento. Só foi para Havana porque o fotógrafo originalmente designado não obteve o visto a tempo. Estava no elevador de um hotel no Cairo quando o líder Gamal Abdel Nasser ali irrompeu e ocupou o espaço com seu bando de guarda-costas. Burri bateu uma foto do homem forte de 1956 à queima-roupa.

Mais que tudo, René Burri conhecia o valor da persistência. Desde que vira pela primeira vez o quadro Guernica em 1953, ao cobrir a histórica retrospectiva de Pablo Picasso no Palazzo Reale de Milão, ele decidiu que precisava conhecer aquele homem. Levou quatro anos tentando um encontro, mas não desistiu. Em 1957, Burri estava na Espanha para uma reportagem sobre Francisco Franco quando leu que Picasso assistiria a uma tourada em Nîmes, na vizinha França. Bandeou-se para lá e conseguiu se infiltrar num fausto jantar que o pintor oferecia para 12 companheiros. Picasso, por supersticioso, jamais se sentava a uma mesa de 13 pessoas . Certamente por isso Burri, apesar de intruso, recebeu do autor de Guernica um comando irrecusável: “Senta aí e come”. A série de retratos que se seguiu é antológica.

Burri sustentava que a boa imagem resulta do casamento da realidade com a emoção bem enquadrada. E que para obtê-la é preciso usar a cabeça, os olhos, o coração e, sobretudo, as pernas. No ano passado, já sofrendo de longa enfermidade, ele legou um acervo de mais de 30 mil fotos, suas câmeras, cadernos de anotações, croquis e colagens para uma futura Fundação René Burri. Ela ficará abrigada no museu de l’Elysée de Lausanne, cabendo à agência Magnum continuar a gerir os direitos autorais e comercialização do patrimônio de seu cultuado membro.///

 

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

Leia outras colunas de Dorrit Harazim aqui.

Veja a história por trás desta e de outras folhas de contato de fotógrafos da Magnum no livro Magnum – Contatos.

IMAGENS © Rene Burri / Magnum Photos / Latinstock

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  • Meg Rodrigues

    Excelente texto!

  • Pedro .

    Incrível! Não conhecia o René, mas certamente conhecia algo das suas obras, o texto é incrível e mesmo sem conhecê-lo em vida já lamento a perda de um fotógrafo tão genial.