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Gordon Parks na Catacumba – Parte II

Dorrit Harazim Publicado em: 20 de outubro de 2014

Em março de 1961, com John F. Kennedy recém-empossado na Casa Branca e um Jânio Quadros errático ainda na presidência do Brasil, o multi-talentoso Gordon Parks aportou no Rio de Janeiro. Ele recebera da revista LIFE, à época a mais influente publicação ilustrada do mundo, a tarefa de fazer uma série de reportagens fotográficas sobre pobreza na América Latina, começando pelo Brasil.

Parks, primeiro e até então único fotógrafo negro da renomada revista, chegara aos 49 anos testando suas inúmeras outras habilidades – além de fotógrafo era jornalista, compositor, escritor, pianista, poeta. E ainda viria a dirigir filmes como Shaft (veja Parte 1). Mas foi o ofício de narrador de histórias através da fotografia que lhe trouxe a devida consagração. E a pauta que cumpriria no Brasil tinha para ele um apelo especial – fazia parte de sua própria história pessoal.

“Nunca perdi minha feroz indignação com a pobreza. É a mais selvagem de todas as aflições humanas. Nas minhas andanças eu a combato onde quer que a encontre”, escreveu num de seus tomos de memórias. Parks já havia registrado a pobreza nas ruas de Paris, em Estoril, Porto Rico, Canadá e sobretudo nos Estados Unidos. Ademais, a conhecera ao nascer numa zona rural do Kansas como caçula de 15 irmãos que cresceram driblando a fome e a discriminação racial que regia a sociedade americana.

Ainda assim, as duas semanas do americano no Rio, hospedado num hotel da orla de Copacabana e subindo diariamente o morro da Catacumba para retratar a vida numa favela, teve desdobramentos inesperados, tanto profissionais como pessoais.

Para os editores da LIFE, Parks deveria ancorar seu ensaio em pais de família favelados e através deles retratar o tipo de pobreza do lugar e a calamidade de suas vidas. Segundo a detalhada pauta que recebeu, o fotógrafo deveria entender a contabilidade do ganha-pão familiar e captar as tendências políticas, a fé, sonhos e frustrações de cada retratado.

Só que as coisas tomaram rumo diverso. José Gallo, jornalista brasileiro e contato da LIFE no Rio que serviu de interprete para Parks ao longo da empreitada, havia optado pela favela da Catacumba para o garimpo de personagens. Cenário perfeito para quem buscava contrastes sociais de impacto. Em 1961 a favela da Catacumba ainda se esparramava morro acima da esplendorosa Zona Sul carioca, perto do Corte do Cantagalo. As terras, que um dia pertenceram à Baronesa da Lagoa Rodrigo de Freitas e foram deixadas em testamento para os seus escravos, começaram a ser povoadas de barracos nos anos 1930. Dez anos mais tarde, com o primeiro grande afluxo de migrantes do Nordeste, o terreno já virara favelão – na verdade três favelas contíguas.

Logo no primeiro dia de prospecção, Parks e Gallo descansavam sentados a meio caminho da subida íngreme quando o fotógrafo avistou um menino que também subia o morro mas parara perto de supetão, acometido por um acesso de tosse. Era esquálido, emaciado e carregava uma lata d’água ora na cabeça ora no ombro.

Ao cruzar o olhar com o menino, Parks recebeu dele um baita sorriso, tão inesperado quanto improvável para as circunstâncias. Decidiu-se ali. “Para mim, a imagem daquele magrela vergado sob o peso que carregava ilustrava a brutalidade da pobreza com força muito maior do que uma dúzia de pais pobres”, escreveu na autobiografia Voices in the Mirror, que publicou em 1990.

Começou assim a transformação do garoto de favela Flavio da Silva, de 12 anos, em protagonista involuntário de uma celeuma entre Brasil e Estados Unidos. A rixa opôs a semanal ilustrada O Cruzeiro, pertencente ao império jornalístico do brasileiro Assis Chateaubriand, às americanas LIFE e Time do magnata da imprensa Henry Luce, à época chamado de “cidadão privado mais influente dos Estados Unidos”.

Quando Parks e Gallo bateram à porta do barraco de Flavio para explicar o projeto e obter a concordância dos pais do menino, o adulto da casa era o próprio magrela. Flavio fez as honras do barraco carregando no colo um bebê chorão e pelado. Ofereceu aos visitantes um caixote para sentar. Parks anotou que as únicas outras peças de mobiliário no cômodo eram uma cama vergada e um berço quebrado. Ao fundo, num canto, um buraco servia de latrina para os sete irmãos menores de Flavio, que ora brincavam, ora se estapeavam no caótico ambiente.

“Os bolsões de pobreza no Harlem, em Nova York, na Zona Sul de Chicago, no infame bairro El Fungito de Porto Rico não me prepararam para o que vi na Catacumba”, anotou Parks. Percebeu o quanto aquelas vidas se pontuavam pelo humor e afeto bruto misturados à crueza, imundície e miséria.

Durante seis dias por semana, o menino Flavio cuidava dos irmãos, assim apresentados a Parks: “Essa é Luzia, a que se acha bonita; Mario, o malvado; Batista, o legal; o bebê Zacarias…” e assim por diante. A mãe, lavadeira e grávida na época da reportagem, e o pai, vendedor de querosene numa birosca da favela, trabalhavam fora.

Trechos das memórias do fotógrafo descrevem uma parte da rotina de Flavio registrada em imagens: “Ele lava o arroz num panelão e limpa os pés do bebê Zacarias na mesma água que na sequência é desinfetada com um produto para os outros irmãos se lavarem. Por fim, derrama no chão o líquido do panelão e, de joelhos, passa a escovar as partes mais imundas”. O fogão em que Flavio cozinhava o feijão para a única refeição familiar do dia (o jantar) não era mais que alguns tijolos, uma grade retorcida e pedaços de carvão acondicionados em latinhas. Também cabia a Flavio se enfronhar pela favela para achar madeira e descer até quase o asfalto para encher a lata d ‘água do dia. “Voltava exausto, o sorriso sumira. Subitamente ele parecia um velho”, escreveu Parks. “Naquelas quatro paredes o menino travava uma luta desesperançada contra a fome. As crianças da família Silva viviam num caixão de defunto”.

O diário mantido pelo fotojornalista durante suas duas semanas de trabalho na favela acabaram fazendo parte da reportagem final, sob o título “Visita a um Mundo Sombrio”.

Os surtos de tosse que sacudiam a frágil silhueta de Flavio e pareciam lhe roubar a vida levou Parks a procurar o posto de saúde mais próximo para o menino ser examinado. O atendente quis saber qual o interesse do americano no garoto.

“Quero ajudá-lo”, respondeu Parks.

“Lamento mas o senhor chegou tarde demais”, diagnosticou o médico. “Ele está com asma brônquica, desnutrição e suspeita de tuberculose. O coração, dentes e pulmão desse menino de 12 anos já estão pifando. Aqui é assim. Talvez num clima melhor, com tratamento constante, dieta correta…” Ia prosseguir com alguma frase de alento mas interrompeu-se. “Não, o infeliz está acabado. Talvez dure mais um ano, talvez nem isso”, concluiu.

Gordon Parks voltou a Nova York com farto material e uma afeição duradoura por Flavio. Tinha certeza de que o ensaio fotográfico renderia uma das mais impactantes reportagens de capa da revista, já pelo tema inusitado. Ao ser informado que a LIFE planejava ilustrar sua narrativa com uma única foto de Flavio ficou tão chocado que foi para casa redigir sua carta de demissão.

Sem saber, acabou sendo salvo por um providencial discurso feito na mesma semana pelo então Secretário de Estado, Dean Rusk. O propósito de Rusk era reiterar a prioridade dada pelo novo governo ao combate à pobreza, analfabetismo e doenças na América Latina, anunciado por Kennedy já no seu discurso de posse. O programa batizado de “Aliança para o Progresso” receberia uma injeção de 20 bilhões de dólares e a assistência americana deveria se estender ao longo de uma década como forma de conter a temida infiltração ou expansão comunista no continente. “Por onde passa o comunismo a fome aparece”, disse Rusk.

Sob essa ótica o material coletado por Gordon Parks na favela da Catacumba não poderia ser mais oportuno, concluiu a direção da LIFE, que tratou de dar outra roupagem ao ensaio. Intitulada “Freedom’s Fearful Foe: Poverty”( O temido inimigo da liberdade: a pobreza) a reportagem ocupou dez páginas da edição de 16 de junho de 1961, com repercussão tão caudalosa quanto inesperada.

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Leitores movidos pela dura realidade do menino Flavio lançaram uma campanha-relâmpago para ajudar a família Silva. Em pouco tempo arrecadaram 30 mil dólares, o suficiente para José, Nair e os oito filhos se mudarem para uma casa de alvenaria no bairro de Guadalupe, com direito a geladeira e mobiliário completo. O restante da doação foi aplicado em uma série de pequenas melhorias na própria favela, sob supervisão de José Gallo.

Paralelamente, Gordon Parks retornou ao Rio já no mês seguinte para buscar Flavio, retirá-lo da favela e levá-lo para o Hospital Infantil e Instituto de Pesquisa de Asma de Denver, no estado do Colorado. O próprio Kennedy chegou a intervir para que os serviços consulares americanos desburocratizassem a papelada necessária à viagem do menino.

Submetido a tratamento durante dois anos e contrariando o prognóstico de vida lhe escapando, Flavio da Silva pode voltar ao Brasil com a saúde e a juventude recuperadas.

Do lado brasileiro, porém, a reportagem feriu brios nacionais. E coube à revista O Cruzeiro tomar a si a missão de dar o troco na LIFE e nos Estados Unidos pela injúria ao Brasil.

Em sua edição de 7 de outubro, a semanal carioca, com tiragem de 700 mil exemplares, anunciava a revanche já na chamada de capa:

O Repórter Henri Ballot descobre em N. York um novo recorde americano: M I S É R I A

 

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“…Não podemos negar a existência das favelas cariocas. Conhecemos o seu drama e o seu problema”, anunciava o editorial. “Mas a miséria não é exclusividade nossa. A revista O Cruzeiro enviou o repórter Henri Ballot a Nova York. Como ambiente, ele escolheu um slum (favela) de Manhattan e, deste slum, uma família porto-riquenha. Para os leitores que não chegaram a ver a reportagem de LIFE, queremos esclarecer que seguimos, propositalmente, o mesmo roteiro e a mesma paginação daquela revista…” informava o texto assinado “A Direção”.

Ballot era um repórter fotográfico gaúcho. Permaneceu um mês e meio em Manhattan e centrou o foco numa família de imigrantes porto-riquenhos que sobrevivia em condições degradantes num dos infectos cortiços próximos de Wall Street – “para onde converge praticamente todo o dinheiro do mundo”, ressaltava o autor.

As 14 páginas da reportagem sobre a família Gonzalez e seus dez filhos espelhavam de forma astuta o texto e fotos de Gordon Parks. Também terminavam com um Diário, no qual Ballot registrou cenas e fatos por ele presenciados no Harlem hispânico de Manhattan.

A fotografia mais chocante, de página inteira, mostrava o menino Ely-Samuel Gonzalez, “de nove anos mas aparência de quatro”, adormecido sobre um colchão furado. “Na testa”, diz a legenda, “um esparadrapo esconde a ferida de uma mordida de rato”. Três cascudas baratas pareciam passear sobre o pequeno corpo desnutrido.

No Brasil de 1961, assim como no de hoje, reportagens sobre pobreza despertam pouco interesse e não houve aqui mobilização de leitores semelhante à dos americanos para ajudar a família porto-riquenha.

O que se viu, três semanas após a publicação da reportagem de Ballot, foi a cutucada desferida pela revista Time. Sob o título de “Carioca’s Vengeance” (Vingança carioca), o semanário de Nova York comentava o ensaio de Gordon Parks e o “remake” brasileiro sobre miséria em Manhattan. Com humor ferino, o texto acrescentava algumas descobertas cabeludas bastante indigestas para O Cruzeiro. Após revisitar a família González e checar a veracidade do que fora publicado no Brasil, a Time afirmava que as baratas mostradas sobre o corpo de Ely Samuel haviam sido ali depositadas pelo repórter gaúcho. A revista americana também sustentava que todas as fotos da reportagem brasileira haviam sido montadas: nem o menino das baratas estava dormindo, como sugere a foto, nem era autêntico o choro da irmã fotografada na janela. Vários retratados teriam sido remunerados para posarem para o fotógrafo.

Diante das acusações, O Cruzeiro decidiu retrucar na mesma moeda e foi ouvir os moradores da Catacumba. A nova reportagem de capa dedicada à rixa, com data de novembro de 1961, anunciava:

 

Henri Ballot DESMASCARA REPORTAGEM AMERICANA

 

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Algumas das “falsificações” listadas soam inofensivas: a foto dos pais de Flavio dividindo a cama com cinco dos oito filhos, por exemplo, teria sido montada ao meio-dia e não enquanto dormiam à noite. Outras denúncias soam delirantes: Parks teria instruído um grupo de rapazes a quebrarem vários pedaços de gelo seco para gerar fumaça e simular estar fotografando de madrugada, com neblina. Ballot também afirmava ter ouvido que um morador da favela desempenhara o papel de cadáver e entrara num caixão carregado morro acima, fotografado pelo americano como sendo de um enterro.

Fantasias à parte, o encontro de Gordon Parks com o Brasil de Flavio da Silva deixou marcas em ambos. “Esse trabalho me deu alguns dos momentos mais ternos da minha vida”, escreveu o fotógrafo em suas memórias. Ele jamais deixou de se corresponder com o brasileiro, cujas cartas transmitiam amargura e decepção por não poder viver nos Estados Unidos.

Passados quarenta anos desde que subira pela primeira vez a ladeira da Catacumba, Parks voltou ao Rio em 2000. Veio fotografar o Flavio já cinquentão para a edição de encerramento da LIFE, bíblia do fotojornalismo desde 1936. Engolida pela internet, ela deixou de existir em versão impressa.

Também a Catacumba deixara de existir desde 1970, quando o governador Negrão de Lima emitiu ordem de remoção e transferiu os moradores para conjuntos habitacionais na distante Zona Oeste do Rio. Rebatizada de Parque Natural da Catacumba, o local, hoje, é uma área ambiental de 30 hectares.

Gordon Parks morreu em 2006. Boa parte de sua fotografia são metáforas da vida. Alguém já escreveu que ele sempre misturou realismo documental com sensibilidade ficcional. Ou, como o próprio Parks se auto definiu : “Acabei me tornando um repórter objetivo com um coração subjetivo”.

E Flavio? Segundo levantamento feito pelo fotógrafo e antropólogo Fernando de Tacca com dados de 1997 do semanário americano The Nation, ele se separou da mulher, perdeu o emprego e compartilhava com 16 familiares a casa de Guadalupe doada pelos leitores da LIFE. Tornou-se evangélico. Ao contrário da desnutrição e da asma, Flavio não conseguiu se curar das marcas da cruel infância retratada por Gordon Parks. ///

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

Leia a primeira parte da coluna: A cor de Gordon Parks. Outras colunas de Dorrit Harazim aqui.

FOTOS Cortesia da Gordon Parks Foundation.

IMAGENS LIFE © 1961 Time Inc. Todos os direitos reservados. Reprodução com permissão da Time Inc.

Em tempo: mal começou o ano, 2015 já tem um magnífico caso de foto histórica envolvendo personagens anônimos para destrinchar. Trata-se de um insólito flagrante captado no aeroporto de Atlanta pelo mestre Gordon Parks, no ano de 1956 – ou seja, quando as leis de segregação racial nos Estados Unidos ainda estavam em pleno vigor. Da imagem, apesar de memorável e intrigante, nada mais se sabe, o que levou o blog de fotografia do New York Times a lançar o apelo “Ajude a desvendar o mistério sulista de Gordon Parks”. Vale a pena ver a íntegra da matéria escrita pelo coeditor do Lens Culture, James Estrin.

Veja também:

Matéria do New York Times com fotos inéditas de Gordon Parks reveladas: ‘A Long Hungry Look’: Forgotten Gordon Parks Photos Document Segregation

Perfil e mais imagens do fotógrafo publicados no Photo FocusGordon Parks | A Photographer You Should Know

 

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