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Autópsia de uma ilusão: o edifício Ponte City nas fotos de Mikhael Subotzky

Dorrit Harazim Publicado em: 09 de junho de 2014

Ponte City” é o título de um valioso projeto concebido pelo fotógrafo sul-africano Mikhael Subotzky em parceria com o artista britânico Patrick Waterhouse. Levou quase seis anos para ser concluído e foi exibido  no espaço BAL, em Paris, até o final de abril. Mês que vem, a exposição reabre no FoMu.  Há quem chame o trabalho de instalação documental. Outros o consideram um poema visual que narra uma epopeia real. Difícil dizer, pois reúne mapas, brochuras, recortes de jornais, fotos grandiosas, imagens detalhistas, retratos, bilhetes, avisos, objetos  –  toda uma tralha laboriosamente coletada e incorporada ao minucioso registro fotográfico feito por Subotzky de um espigão que dá nome à mostra.

Ponte City é, até hoje, o prédio residencial mais alto (173 metros) do Hemisfério Sul. Foi  erguido na cidade  de Joanesburgo em meados dos anos 1970 como símbolo da prosperidade da era do apartheid e da utopia da supremacia branca. O mamute cilíndrico de 54 andares e 467 apartamentos  fora  concebido com uma marca arquitetônica singular: seu interior labiríntico é oco. E esse colossal precipício interno fica a céu aberto, visto que o andar superior não tem teto.

“More no Ponte e jamais saia de lá”, apregoava uma das campanhas publicitárias da imobiliária para o seu lançamento.  A torre fora fincada no aprazível bairro de  Hillbrow, na zona de mapeamento urbano reservada para brancos. A convicção de perpetuação no poder da minoria africâner moldara a inauguração do prédio-ícone. O Ponte City oferecia uma rampa seca de esqui que seria montada no vão interno, 50 lojas no oitavo andar, dependências de criados perfeitamente segregadas e tudo o mais que combinasse com o credo da elite da época.

Tão seguros estavam que, apesar da vista quase infinita de Joanesburgo a partir do Ponte City , esqueceram de olhar para Soweto, logo ali, um pouco mais para o sul. Erro fatal. Naquele mesmo ano de 1976 em que a torre de estilo “brutalista” teve  sua feérica inauguração, a cidade-dormitório para negros  irrompeu no seu histórico levante contra o regime. Embora a rebelião tivesse sido massacrada, os ocupantes do Ponte City passaram a sentir o bafo da realidade. Movidos pela cautela, bateram  em retirada da torre e se entrincheiraram no setor branco mais ao norte de Joanesburgo, deixando o centro da cidade mudar de cor de pele e de classe social.

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A debandada foi rápida. A degradação que se seguiu, também. Epicentro da decadência urbana daqueles anos de transição, o Ponte City foi logo invadido por uma enxurrada de migrantes africanos vindos dos lugares mais remotos do continente em busca de um lugar ao sol no país que libertara  Nelson Mandela. A torre passou a ter andares inteiros operando como prostíbulos informais. Outros andares funcionavam como depósitos de drogados. Junto com o lixo que se empilhava no vão central outrora destinado a uma rampa de esqui,  acumulavam-se lendas em torno do número de suicidas tragados naquela clareira de concreto.

O artista sul-africano Stephen Hobbs chegou a fazer um vídeo experimental de 15 segundos de duração intitulado “54 Stories” sobre essa queda livre da morte. Prendeu uma câmera leve de 8 mm num mini paraquedas artesanal confeccionado com cabide de arame, saco de plástico e fita crepe, e o lançou do alto do vão livre. Mesmo decrépita e perigosa,  a torre continuava a atrair – senão as ilusões e sonhos, as desesperanças da  sociedade sul-africana. Em 1998, diante da escalada de criminalidade no país,  chegou-se até mesmo a  cogitar a transformação  do Ponte City em presídio.

Depois disso, entretanto, o gigante pareceu querer se reerguer. Primeiro, por motto proprio, através da iniciativa de alguns moradores cansados de baderna, imundície, crime e desolação, formaram-se bolsões de civilidade em vários andares do colosso. E a  partir de 2007, faltando três anos para a Copa do Mundo de 2010, o valor do prédio e de todo o seu entorno voltou a  brilhar como ouro. Explica-se: o estádio Ellis Park erguia-se a olhos vistos não distante dali.

Foi neste ponto da linha do tempo do edifício que Subotzky começou a fotografar. A dupla do enciclopédico projeto  propôs-se a destrinchar  o significado do Ponte City no contexto do tecido social de Joanesburgo.  Para isso, começaram a garimpar décadas de lixo acumulado em busca de vinhetas  de vidas ali abandonadas. Passaram a fotografar cada porta, cada vista de cada janela do edifício. Retrataram todos os moradores a que tiveram acesso a partir de mais uma mutação da torre.

Uma nova incorporadora decidira relançar o edifício como “New Ponte”, visando  seduzir jovens empresários do continente e a nova classe média emergente da África do Sul. Prometia implantar um estilo de vida “nova-iorquino”. O apelo da campanha publicitária era sugestivo: “Toda cidade importante do mundo tem um edifício no qual a maioria sonha em poder viver. Esses prédios são cobiçados por serem únicos, luxuosos, emblemáticos. Eles não precisam de apresentação nem de explicação. O endereço já diz tudo”.

Para isso, foram despejados mais de 1500 moradores da etapa anterior. Todos os pertences que deixaram para trás foram jogados no  famoso vão central, transformado numa montanha de lixo e entulho que cresceu como um tumor interno. Chegou a  até ultrapassar a altura do 6º andar.  Ainda assim, o redesenho dos apartamentos com decorações temáticas batizadas de  “Futurista”, “Sedução Marroquina”, “Fusão Global”, “Dinheiro Velho”  não emplacou. Pouco mais de um ano após seu lançamento, também o “New Ponte” fracassou. E voltou para as mãos do proprietário original, o Kempston Group de East London.

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Somente então, 40 anos após brotar como farol do apartheid o cilindro de concreto adequou-se à paisagem humana que o cerca, e vice versa. Continua sendo o segundo prédio mais horrendo de Joanesburgo – o primeiro é o Hospital Geral da cidade. O painel luminoso comercial que lhe serve de coroa, alimentado por 11 km de tubulação de neon, também continuará a cegar os ocupantes dos últimos andares  e redondezas. E a atração fatal que seu imenso vão interno exerce sobre inquilinos em desalento resiste às várias metamorfoses: já na segunda semana de 2014 ocorreu o primeiro suicídio do ano. Era um inquilino de 55 anos, do 33º andar.  Morava sozinho.

Ainda assim, concluídas as tarefas básicas como a instalação de 2 km de fiação elétrica por andar, o Ponte parece, finalmente,  ter alcançado maturidade urbana. Hoje, o leque de moradores vai do garçom ao empresário, e as unidades variam de quitinetes a apartamentos grandiosos. Com quatro décadas de atraso, o conceito de uma classe enfiada num tubo de concreto no meio de uma cidade vingou. Só que para chegar lá não só a classe social adquiriu um perfil mais universal, como a cidade e o país do qual ela brotou falam a mesma língua.

“O Ponte sempre foi um lugar de mito, ilusão e aspiração”, dizem Subotzky e Waterhouse no texto que acompanha a mostra. “E é isso que procuramos evocar e está retratado nas imagens que lá encontramos – tanto nos apartamentos abandonados como no material publicitário de 1976 e 2008 que coletamos. Quando estes documentos são apostos à distopia do edifício e do seu entorno, tem-se a imagem da cidade naquele período. É um lugar de poeira e sonhos, condizente com a terra na qual está fincado e que atraiu milhões de migrantes  desde a descoberta do ouro em 1880. Gentes do continente inteiro continuam a ser atraídas para cá em busca de uma vida melhor. Mas o ouro, em todas as suas encarnações, só realiza os sonhos de poucos. Todos os outros que se alimentam dessa paixão ficam com os sonhos amarrados nos sinais luminosos que piscam na cidade…”

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Hoje o morador do 51º andar do Ponte City, Mike Luptak, apaixonado pela história da torre, de seus moradores e da vizinhança outrora proibida, organiza tours para turistas interessados em desbravar Hillbrow. Luptak é um sul-africano jovem e branco. Quinze anos atrás, somente brancos que fossem traficantes, criminosos ou policiais circulariam no labirinto do prédio ou pelo bairro.

Construído para encarnar o apogeu da supremacia de uma raça, Ponte City carrega as marcas da dolorida transformação pela qual passou  toda uma nação. Espelhou o colapso de um  experimento de poder e retrata a tentativa de renovação multiétnica iniciada no século 21. A narrativa visual dessa epopeia, através do minucioso registro fotográfico e arqueológico empreendido por Mikhael Subotzky e Patrick Waterhouse, é um presente para a história.

Juntos, eles pesquisaram as fundações geológicas da edificação, investigaram o histórico da obra e da peãozada que lhe deu forma. Recolheram material publicitário e lhe deram formato multimídia, transformaram conjuntos de fotos em instalações luminosas. É de se supor que o escopo pleno do projeto “Ponte City” seja uma obra ainda em aberto.///

Dorrit Harazim é jornalista e documentarista brasileira. Nascida na Croácia durante a II Guerra Mundial, talvez venha daí seu interesse pelo papel da fotografia na história e pela história da fotografia como meio de comunicação.

O livro Ponte City, lançado em maio pela editora Steidl, pode ser visto na íntegra aqui.

Mais informações sobre a exposição no FoMu, aqui.

IMAGENS © Mikhael Subotzky & Patrick Waterhouse. Cortersia dos artistas e Goodman Gallery / Magnum Photos

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