“Memento”, do Coletivo Trëma

O projeto Memento, do coletivo Trëma – um dos contemplados pela Bolsa de Fotografia ZUM/IMS 2015 –, reconstitui as memórias de dois imigrantes que chegaram ao Brasil nos últimos anos, com fotografias feitas aqui e nos seus países de origem: Dany Vásquez, da Colômbia, e Theresa Senga, de Angola.

 

DANY ALBERTO PÉREZ VÁSQUEZ nasceu em Medellín, na Colômbia, em 1983, filho de José Isidoro Pérez, madeireiro, e Nancy del Socorro Vásquez, costureira. Cresceu na Comuna 1, na montanhosa região nordeste da capital do departamento de Antioquia. Os primeiros anos de sua vida coincidiram com um período tumultuado do conflito colombiano. Em novembro de 1985, guerrilheiros do grupo M-19 tomaram o Palácio de Justiça em Bogotá, numa invasão reprisada pela televisão inúmeras vezes nos anos seguintes. Aos seis anos, Dany mudou-se com a família para Apartadó, cidade a cerca de 300 quilômetros ao norte da capital, na região produtora de bananas do Urabá antioquenho. A família viveu e trabalhou na fazenda El Paso, onde constantes fumigações aéreas de glifosato envolviam as bananeiras em uma nuvem tóxica. As novas regulações sanitárias de meados dos anos 1990 forçaram os Pérez Vásquez a mudar para a cidade. Fixaram-se em La Alborada, bairro da região sul de Apartadó. Os conflitos entre guerrilheiros, paramilitares e o exército – instalado a pouco mais de 200 metros dali – eram cotidianos e obrigavam a família a se esconder em casa à espera do fim dos tiroteios. Os pais de Dany também protagonizavam brigas domésticas, usando objetos banais e armas brancas. O alcoolismo do pai afastaria os filhos. Anos depois, o primogênito Edwin Antonio se tornaria paramilitar e morreria em combate. Segundo um dito colombiano, ao morrer violentamente, as pessoas desaparecem das fotografias. Dany levava as namoradas a sorveterias e ao parque Los Bomberos. Com o amigo de infância Yancarlos Osório, costumava ouvir vallenatos: “Yo soy amigo de mi peor enemigo/ no sé lo que es el rencor ni la maldad/ soy el fruto del amor y mi alma está/ para todo el mundo llena de cariño”. Aos 18 anos, Dany entrou para o serviço militar obrigatório e conheceu a futura mulher, Johana Patricia Pacheco Franco. Após o serviço, integrou as tropas como soldado profissional. Acordava com gritos de “bienvenidos al infierno, mocos”, e era instruído a tratar seu fuzil, um IMI Galil ARM, melhor do que “a su novia y a su madre”. O período no 33o. Batalhão de Contraguerrilhas coincidiu com os desdobramentos do Plano Colômbia, que acentuou um conflito que já durava mais de 40 anos. Dany foi operador de rádio em dezenas de campanhas contra as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Numa das piores incursões na selva, a partir do túnel do Cañon de la Llorona, foi atingido por um tiro na perna. Em dez horas de batalha, dezenas de soldados e guerrilheiros foram mortos, uma carnificina comum naquele trecho da Estrada Nacional 62, ladeada pelo rio Sucio. Em 2006, Dany pediu baixa do exército e voltou a Apartadó para viver ao lado da mulher, grávida do primeiro filho, Michael Andres Pérez Pacheco. Trabalhou como selector, empacador e embolsador nas plantações, mas não se firmou no emprego. As visitas da família às praias de Necoclí eram os raros momentos de lazer. Também trabalhou para um agiota, gerenciou a Fonda La Elegancia e empacotou compras em supermercados. Em 2012, nasceu a filha Lea Saray Pérez Pacheco. A família vivia no bairro Obrero quando as dificuldades se tornaram maiores e levaram Dany a emigrar. Em julho de 2015, desembarcou no Brasil. Morou no Rio de Janeiro e em São Paulo. No ano seguinte, trouxe a mulher e os filhos, e foi viver em João Pessoa. (AS MEMÓRIAS DE DANY ALBERTO PÉREZ VÁSQUEZ FORAM COLHIDAS ENTRE DEZEMBRO DE 2015 E ABRIL DE 2016.)

 

THERESA SENGA nasceu em 1988, em Luanda, filha de João Mkikabaka, bombeiro, e Joana Bernardete Senga, vendedora. O pai morreu em um incêndio, em 1991. Em outubro de 1992, os conflitos da guerra civil, iniciada em 1975, chegaram à capital de Angola. Theresa e a mãe se juntaram a milhares de luandenses que deixaram a cidade rumo a Kinshasa, capital do país vizinho, Zaire, atual República Democrática do Congo. Durante a fuga, Theresa caiu de uma ponte sobre uma pilha de cadáveres. Foi resgatada pela mãe. A família viveu alguns meses com refugiados na fronteira entre os dois países. Atingida na perna durante um tiroteio, a mãe de Theresa foi transferida para Kinshasa, onde passou cerca de um ano em tratamento, mas não resistiu. Aos cinco anos, Theresa Senga foi adotada por Eugenia Sanda Kimbondo – a enfermeira que tratou de sua mãe – e Bernardo N’gongia. A refugiada angolana passou a se chamar Brunella N’gongia e a viver em um casebre no Matété, comuna ao sul da capital do Congo. A nova família cuidava de dez crianças. Durante a semana, comiam peixe, produto barato nas feiras da capital; aos domingos, dividiam porções de arroz, feijão, frango e pondu, um ensopado à base de folhas de mandioca e dendê. Brunella queria ser enfermeira. Estudava pela manhã e, à tarde, ajudava a mãe a vender roupas nos arredores do Mercado Central. Aos 14 anos, começou a namorar Tomás Kiakeba, imigrante angolano, seguidor do líder espiritual Khonde Mpolo Dominique, da Igreja Palavra de Deus. Com o fim da guerra civil, em 2002, Tomás decidiu buscar trabalho nas minas de diamante em Angola. O namoro seguiu a distância, até que os dois se reencontraram em Kinshasa em 2009, e se casaram em um salão no Matété – ela de branco, ele de terno verde. Meses depois, Tomás voltou a Angola, deixando Brunella grávida da primeira filha do casal, Eugenia Quefira Essamba Kiakeba. Sem notícias do marido por cerca de dois anos, Brunella vendeu a TV, comprou mercadorias e partiu com a filha para o Luvo, na fronteira com Angola, onde trabalhou em uma feira. Ali, conheceu Joaquim, angolano influente, que lhe ofereceu trabalho e casa em Luanda. Brunella então voltou a ser Theresa Senga. Enquanto trabalhava, ansiava por encontrar o marido. Tomás descobriu que a esposa o procurava quando ouviu o próprio nome em um programa de rádio destinado a reunir parentes separados pela guerra civil. Em 2014, tiveram Quemelisa Silvia Essamba Kiakeba. Na mesma época, a relação de Theresa com o patrão tornou-se violenta. Theresa foi sequestrada e estuprada. Durante um mês, foi mantida em cativeiro num quarto adornado com a estátua do pensador, símbolo de Angola – até que escapou e refugiou-se na casa de parentes. Ameaçada de morte pela mulher de Joaquim, deixou o país. Theresa, Quemelisa e Eugenia chegaram a São Paulo em outubro de 2015. Em janeiro de 2016, Tomás juntou-se a elas. A família tem planos de voltar a Angola. (AS MEMÓRIAS DE THERESA SENGA FORAM COLHIDAS ENTRE DEZEMBRO DE 2015 E ABRIL DE 2016.)

 

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Veja os posts do diário de viagem feito durante o processo de trabalho do coletivo Trëma:

Colômbia

#1: Um campo de futebol no bairro Granizal, Medellín

Bairro de Granizal, Medellín, Colômbia © Trëma

 

#2: Poeira, barulho e tédio em Apartadó

Apartadó, Colômbia. © Trëma

 

#3: Uma guerra teatral em Carepa

Base militar em Carepa, Colômbia. © Trëma

 

República Democrática do Congo

#4: Bem-vindos a Kinshasa

Bairro do Matété, Kinshasa, República Democrática do Congo. © Trëma

 

#5: Ossos, larvas e esgoto no maior mercado de Kinshasa

Mercado Central, Kinshasa, República Democrática do Congo. © Trëma

 

#6: O Profeta do bálsamo de petróleo

Igreja Palavra do Senhor, Kinshasa, República Democrática do Congo. © Trëma

 

Em sua pesquisa, o coletivo encontrou pessoas e histórias impressionantes, mas que não entraram no recorte final. Ao longo do processo, registraram algumas dessas figuras em posts no site da ZUM:

Partha Sarker, 38 

 

Christ Kamanda, 31: um jornalista engajado é uma arma fatal

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O coletivo Trëma foi formado em 2013, em São Paulo, pelos fotógrafos Felipe Redondo, Gabo Morales, Leonardo Soares e Rodrigo Capote. Dedicado à fotografia documental e editorial, produz estórias que discutem temas da sociedade brasileira, com especial interesse em manifestações identitárias, tradicionais e contemporâneas, no ambiente comunitário.