Bolsa de fotografia

Letícia Ramos fala do projeto “Microfilme”, ganhador da Bolsa de Fotografia 2013

Publicado em: 27 de setembro de 2014

Desde o ano passado a revista ZUM e o Instituto Moreira Salles promovem a Bolsa de Fotografia, que visa incentivar dois projetos fotográficos sem restrição de tema ou suporte. São duas bolsas de 65 mil reais e oito meses para realizar o projeto. João Castilho e Letícia Ramos, ganhadores da primeira edição, apresentarão seus trabalhos no Paraty em Foco neste domingo, dia 28, às 13h.

Leia abaixo entrevista com Letícia Ramos sobre o projeto Microfilme.

O nome do projeto é Microfilme. Por que? De onde veio a ideia de usá-lo?

O nome mais extenso do trabalho é Microfilme – Ou o dia em que o rio grande era Mar.

O título vem da ideia de um rolo de microfilme que armazena a reprodução de uma série de documentos constituintes de um mesmo tema. Muitas vezes em pesquisas em bibliotecas e hemerotecas, nos deparamos com aquele item da pesquisa: MICROFILME. E com esta palavra, no contexto da pesquisa atual, já está implícita uma dificuldade de acesso ao seu conteúdo. Não é à toa que o microfilme, originalmente, foi desenvolvido para a codificação de informações, para diversos níveis de espionagem.

O microfilme ainda existe comercialmente no Brasil graças a sua legalidade como original. Hoje uma série de documentos contábeis podem ser incinerados logo após sua microfilmagem. A qualidade da cópia de pesquisa, em amonia, altera completamente a imagem, e mesmo assim esta cópia assume um valor legal de originalidade.

Existem dois pontos aí que convergem: O microfilme como técnica fotográfica e como compilação de uma narrativa. Como técnica fotográfica, o microfilme possui o mesmo formato de um filme cinematográfico de 16mm, e no projeto passa da simples cópia de documentos, deixando forma plana da folha de papel, para entrar em contato direto com a paisagem, proporciona novas texturas, trazendo a imagem a mesma precariedade de seu manuseio com documentos.

 

As viagens são parte importante de seu trabalho. Como você escolheu o lugar onde se desenrolou o projeto?

Há muito tempo frequento esta costa fronteiriça entre o Rio Grande do Sul e Uruguai. Olhando no mapa brasileiro, esta estreita faixa de terra é tomada por diversas lagoas e separada do “continente” pela grande Lagoa dos Patos. Uma paisagem muito diferente do imaginário brasileiro da praia, onde pampa e mar se encontram e cavalos andam livremente pela areia. Uma região onde nasce a figura do gaúcho, descendente dos índios minuanos, e de agrupamentos nômades pré-históricos.

Me interessam os processos de formação desta paisagem sempre em movimento, com o avanço e recuo do MAR, com a formação das lagoas. É como se a cada dia aquela paisagem se modificasse, e eu queria justamente falar deste movimento. Esta geografia me leva a perguntas básicas que ficaram comigo durante toda a pesquisa.

Como seria um lugar no futuro onde o homem não mais existisse, em que a natureza começasse a voltar a sua forma original? Como seria este espaço transitório entre o vai e vem das águas e marés, sujeita à força dos ventos?

 

Você fez registros com equipamentos variados. Por que?

Neste projeto basicamente usei a câmera SINAR com back em Polaroid e chapa 4×5, quase sempre com filtro ND 9/8. Sempre buscando longas exposições em torno de 30 minutos. A câmera SINAR, eu fui montando aos poucos, com acessórios que fui colecionando, outros fabricando até o momento da viagem. Também uma 35mm adaptada ao uso do microfilme. E uma câmera Polaroid de uso médico para a reprodução de radiografias. Ambas as câmeras eu nunca havia utilizado. Gosto de pensar na surpresa de testar estes equipamentos frente a paisagem e entender o resultado que estas traquitanas podem dar frente ao meu objeto de estudo. Tenho uma paisagem exuberante e mítica e preciso fugir de uma representação naturalista dela, preciso ir para outro lugar, preciso transportá-la no tempo.

Um dos objetivos de realizar esta viagem exploratória era coletar amostras fotográficas e vegetais para serem utilizadas como matriz para a reprodução em microfilme. Mesmo assim, era daquele grupo de imagens originais produzidas in loco que iria sair o imaginário do projeto.

É por isso que o uso da polaroid foi importantíssimo em MICROFILME. A fotografia instantânea foi me dando as pistas para a resolução estética das minhas histórias, e, ao mesmo tempo, simboliza a prova real, a relíquia da expedição. Estas imagens, cruas, materializaram na minha frente as minhas paisagens ficcionais.

 

Nos últimos trabalhos você vem incorporando o elemento ficcional. Isso também aconteceu neste trabalho?

Sim, tenho uma série de trabalhos onde personagens aparecem como fio condutor das pesquisas. Às vezes se apresentam quase como um narrador que conecta as múltiplas camadas do trabalhos. Às vezes como uma figura curiosa que me inspira, que encarno para a criação das paisagens. O elemento ficcional nos trabalhos muitas vezes não está descrito na narrativa, não aparece em montagens de exposição. Está no meu discurso, nas publicações, nos textos. Estimula a minha imaginação para o antes da chegada das paisagens fotografadas, e por fim aparece nas imagens como o sujeito que recorta as cenas, que as apresenta.

 

Quem é esse personagem e em que contexto ele surgiu?

Depois de alguns dias fotografando as extensas praias e lagoas em seus extremos horários de luz, com o sol a pino, resolvi visitar um farol. E é diante da entrada desta torre tão simbólica que me deparei com seguinte cena:

Um livro de visitas cuidadosamente colocado sob um guardanapo de crochê em uma pequena mesa. O livro, com poucas páginas escritas, ainda era o mesmo desde a criação do farol. Ainda na primeira página de comentários, quase 70 anos depois de sua construção, estava escrito em caneta azul:

Farol de Mostardas em 3 de outubro de 1962.
Inspeção passada pela Divisão de Auxílios Rádios na estação rádio do Farol. A estação se acha desguarnecida e há material abandonado. Um receptor foi recolhido para reparo na Capitania, bem como um dos motores Wisconsin. Do material existente na estação constatei a falta de um multiteste ‘Simpson’. As antenas estão fora de ação, estando um dos mastros de eucalipto derrubado.

 

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E ai surgiu o personagem…

Em Microfilme – Ou o dia em que o rio grande era mar, o nosso condutor é um faroleiro que se comunica além do tempo e do espaço. Que tem visões, transmite e recebe imagens do elo perdido. Um personagem sobrenatural, mas também científico, que busca na fotografia do pensamento e nas experiências de transmissões de imagem por ondas de rádio.

Isolado no seu farol da Solidão, em meio a este território inóspito, percorre as fendas da história e da ficção científica.

 

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  • Guilherme Santana

    A fotógrafa e o IMS que me desculpem, mas acompanhei o blog Microfilme durante o projeto e não entendi direito. Lendo essa entrevista, continuo não entendendo o real objetivo do trabalho, muito menos como ele justifica a si próprio e uma bolsa de R$65 mil. Faltou explicar e apresentar o projeto de uma maneira mais clara, o resultado das fotos ficou subjetivo demais, creio que só a fotógrafa enxergue o trabalho dela com clareza, e assim fica difícil fazer com que os outros entendam também, para mim mais parece um monte de foto com a intenção de soarem “diferentonas” mas que não prendem o olhar e nem a curiosidade para apreciar o tema. Mas esta é só a minha opinião. Se alguém se dispuser a me explicar o que tudo isso realmente significa e o porquê deste ser um trabalho premiado, ficarei muito grato.

  • luc de vries

    Eu li para ver se entendo algo mas confesso não ter compreendido esse trabalho. Ele resultou em o que, mesmo? Je suis totalement perdu ici.